Os desafios das colhedoras de cana

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As atuais sucessoras das primeiras colhedoras de cana substituem cerca de 100 homens, trabalham 24 horas por dia e custam até R$ 1 milhão.

 

Neste ano, uma máquina que expulsou dos canaviais milhares de trabalhadores sem qualificação, a maioria migrantes do Nordeste e de Minas Gerais, completa 20 anos. Lançada em setembro de 1993 pela indústria Santal, de Ribeirão Preto (SP), a Amazon foi a primeira colhedora de cana crua com tecnologia 100% nacional.

 

A máquina, desenvolvida pelo engenheiro Luiz Antônio Ribeiro Pinto, tinha a vantagem de colher cana crua, picar e carregar. Tudo isso num tempo em que crescia a pressão pelo fim das queimadas, prática necessária para o corte manual da cana, e os boias-frias da cana ganhavam apoio da sociedade em sua luta por melhores condições de trabalho.

 

As atuais sucessoras da Amazon substituem cerca de 100 homens, trabalham 24 horas por dia e custam até R$ 1 milhão. Elas terão seu protagonismo no campo reforçado no próximo ano, quando as queimadas estarão proibidas nas áreas mecanizáveis de São Paulo, graças a um acordo voluntário de 2007 entre o setor sucroalcooleiro e o governo do Estado.

 

Os fabricantes, no entanto, não esperam uma explosão na venda das colhedoras, porque as usinas e produtores vêm se equipando nos últimos anos. Segundo as secretarias estaduais de Agricultura e do Meio Ambiente de São Paulo, o número de colhedoras de cana no Estado passou de 750, na safra 2006/2007, para quase 3 mil, na temporada atual. Neste ano, só a Case prevê um aumento de 20% nas vendas de colhedoras (1.300 máquinas) em relação a 2012 em todo o país.

 

Os preços dos modelos variam entre R$ 900 mil e R$ 1 milhão. A linha de financiamento mais comum para a compra das colhedoras é o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do BNDES, com taxa de 3,5% ao ano e prazo de até oito anos.

 

Na última safra, segundo o Centro de Tecnologia da Cana (CTC), o índice de mecanização da colheita no Centro-Sul, que inclui São Paulo e é a principal produtora de açúcar e álcool do país, foi superior a 87%, percentual que deve crescer neste ano e chegar perto de 100% na safra 2014/2015, que começa em abril de 2014. Há casos de usinas, como a São Martinho, de Pradópolis (SP), que já passaram de 95%.

 

CANA QUEIMADA:

A história das colhedoras de cana começou nos anos 1970, com a importação de máquinas que, no entanto, só cortavam bem cana queimada. A colhedora de cana crua começou a se tornar viável economicamente para os produtores brasileiros com o lançamento da Amazon, desenvolvida com base em quatro versões de um modelo anterior da Santal, que usava facas rotativas. A máquina foi testada na Usina São Francisco, de Sertãozinho (SP). A inspiração de Ribeiro Pinto veio da Austrália – o país foi o “berço da mecanização da cana”, segundo o pioneiro, que esteve por lá três vezes nos anos 1970.

 

“O mercado começou a exigir mais limpeza da cana e a proibir a queima, mas as colhedoras importadas não eram capazes de fazer esse serviço”, diz o engenheiro, que, aos 81 anos, é consultor técnico e sócio minoritário da Santal – vendeu a empresa em 2011 para a multinacional AGCO.

 

A segunda colhedora apresentada logo depois ao mercado nacional, também na região de Ribeirão Preto, foi a E-8000, um projeto desenvolvido pela antiga empresa brasileira Engeagro, que se associou à australiana Austoft, formando a Brastoft, e à Usina São Martinho, onde a máquina foi testada. Em 1999, a multinacional Case encampou a indústria australiana e passou a fabricar no Brasil as colhedoras que exporta hoje para o mundo todo.

 

Arnaldo Adams Ribeiro Pinto, ex-diretor presidente da Santal e filho do pioneiro, diz que, na época do lançamento da Amazon, havia apenas quatro indústrias de colhedoras no mundo e as usinas eram contra a mecanização. Logo, no entanto, o mercado da cana aderiu às máquinas, diante da falta e dos custos da mão de obra, além da pressão dos ambientalistas pelo fim das queimadas. “Nesses 20 anos, a curva de custos da mão de obra é ascendente, por conta dos benefícios conquistados pelo trabalhador, e a da máquina é descendente, pelo avanço da tecnologia, que garante preços menores”, diz Ribeiro Pinto.

 

Naquele ano de 1993, segundo fabricantes, 0,5% da cana de São Paulo foi colhida com máquinas. Esse índice avançou para 34,7% na safra 2003/2004. No país, a mecanização avançou a passos mais lentos, alcançando 31% em 2004, mas Mato Grosso do Sul, por exemplo, já tem hoje 95% da colheita mecanizada e Mato Grosso 90%.

 

Uma reclamação de fornecedores de cana é que a colhedora destrói as soqueiras (raízes e brotações que sobram após o corte da cana). Segundo o pesquisador José Giácomo Baccarin, professor do Departamento de Economia Rural da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Jaboticabal, o relato é que a máquina corta a cana muito alta, deixando no terreno a parte da planta que contém maior teor de açúcar e causando problemas à nova soqueira. Ele lembra que houve muita chuva e até geada em canaviais paulistas, mas diz que a conclusão dos produtores é que, com as máquinas, é necessário aumentar em 10% a área de plantio para ter a mesma produtividade.

 

Luis Fernando Maurício Pereira, produtor há 20 anos em Morro Agudo (SP), é um dos que relatam problemas. “O corte manual garante uma longevidade bem maior da soqueira”, diz o agricultor, que usou o corte manual até cinco anos atrás em seus 3.500 hectares de cana. No passado, Pereira entregava a cana já colhida nas usinas. Hoje, passou a usar os serviços mecanizados de plantio e corte das próprias usinas.

 

“Está muito difícil mexer com gente. Está difícil contratar operador para dirigir as máquinas. Quando você forma um bom operador, uma boa equipe, logo vem uma usina ou concorrente para roubar o empregado.”

 

Por essas dificuldades e alegando lucro baixo nas últimas safras, Pereira trocou parte da cana por soja e milho. “Já cheguei a produzir 400.000 toneladas de cana por safra, mas, no ano passado, baixei para 300.000. Tem de investir muito em mudas de qualidade, maquinário e equipe, e o lucro nem sempre compensa.” Por conta disso, o produtor tem hoje apenas quatro colhedoras.

 

PARA EVITAR PERDAS:

A perda de produtividade com o uso das colhedoras é rechaçada pela indústria e também pelas usinas altamente mecanizadas. Mario Gandini, diretor industrial da São Martinho, diz que, com colheita mecanizada adequada, usando as novas tecnologias e profissionais bem treinados, não há destruição de soqueiras ou perda de produtividade. A São Martinho usa linhas de cana georreferenciadas (as coordenadas são obtidas por GPS) no plantio de novos canaviais e máquinas com piloto automático para manter a produtividade e economizar combustível.

 

Segundo o diretor, um programa implantado em 2003 adequou equipamentos e máquinas e treinou pessoal de forma a preservar as soqueiras e não compactar o solo. Luiz Alberto Henriques, gerente de colheita, conta que a usina tem cerca de 550 fornecedores de cana, mas atualmente apenas três entregam a cana já colhida. Os demais contam com as máquinas e o pessoal da usina para a colheita.

 

O ADEUS AO PODÃO:

Uma cena que se repetiu muitas vezes nos últimos anos está com seus dias contados. A centenária Metalúrgica Saran, de Sertãozinho (cidade do interior paulista que é uma das maiores produtoras de cana do mundo), acostumou-se a receber cortadores de cana em busca de uma ferramenta que a empresa fabrica artesanalmente em aço especial com tratamento térmico há mais de três décadas: o podão, ou facão de cana.

 

“Só vendemos para empresas, mas todos os anos somos procurados por cortadores que querem substituir o podão que ganham das usinas por uma ferramenta melhor, que dura mais”, diz o diretor Eduardo Saran, da quarta geração da família que toca o negócio, desde 1901, que emprega cerca de 30 pessoas. Como não vende a ferramenta no varejo, a metalúrgica encaminha os cortadores para uma cooperativa nas proximidades.

 

A empresa vendeu cerca de 70 mil podões em 2012 e espera manter essa média em 2013. Mas, para 2014, essa linha de produção da empresa pode até ser encerrada. Segundo Saran, com a mecanização da colheita atingindo quase 100% na região, a produção da ferramenta deve passar a atender apenas a algumas usinas do Nordeste.

 


Imagem: Lucas Mamede, de Ribeirão Preto (SP).

Fonte: Eliane Silva – nova cana.


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