Solução pendente

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A giberela e? uma das mais importantes doenças que afetam espigas e gra?os da cultura do trigo no mundo. Descrita na Inglaterra em 1894, continua como um desafio mundial. Referenciada também por fusariose, tem como principal agente causal o fungo Gibberella zeae (Schwein) Petch, forma assexuada Fusarium graminearum Schwabe. Ale?m de F. graminearum, va?rias espe?cies sa?o associadas a? doenc?a em cereais, sendo F. culmorum, F. equiseti, F. avenaceum e F. nivale as mais relatadas.

No Brasil, a giberela causa danos e perdas nas culturas de trigo, de cevada e de triticale nos tre?s estados da regia?o Sul do Brasil (Parana?, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), onde se concentram 90% da produc?a?o de trigo e 97% de cevada. Os sintomas caracteri?sticos da doenc?a sa?o espiguetas despigmentadas, de colorac?a?o esbranquic?ada ou palha, e os gra?os apresentam-se chochos, enrugados, de cor branco-rosada a pardo clara. O pato?geno possui ampla gama de hospedeiros, como alfafa, arroz, aveia, centeio, milho, trevo, sorgo e va?rias plantas daninhas.

O ambiente exerce papel importante no desenvolvimento da giberela, sendo, as condic?o?es mais favora?veis, precipitac?a?o pluvial em dois ou tre?s dias, consecutivos, e temperatura de 24oC a 30oC, situac?a?o que ocorre com freque?ncia apo?s o espigamento dos cereais de inverno na regia?o Sul do Brasil. Os danos causados pela doenc?a sa?o influenciados diretamente pelas condic?o?es ambientais do ano e da cultivar, variando de 14% a 60% de acordo com relatos em trigo no Brasil. No peri?odo de 1997 a 2009, foram registradas epidemias em oito anos: 1997, 1998, 2000, 2002, 2005, 2007, 2008 e 2009. Em anos com peri?odos mais secos, a giberela na?o e? considerada problema.

A reduc?a?o no rendimento por giberela e? atribui?da ao abortamento de flores e a? formac?a?o de gra?os com baixo peso e reduzida densidade, que sa?o descartados, em grande parte, na trilha, durante a colheita. A giberela tambe?m prejudica a qualidade tecnolo?gica devido a? reduc?a?o de amido, protei?nas, celulose e hemicelulose.

Entretanto, o maior problema e? o acu?mulo de micotoxinas, um dos principais contaminantes dos cereais. Micotoxinas sa?o metabo?litos secunda?rios to?xicos, produzi- dos por fungos toxige?nicos que infectam e/ ou colonizam os gra?os e seus subprodutos, especialmente cereais no peri?odo de cultivo e/ou de armazenamento. As micotoxinas podem estar presentes tambe?m em gra?os assintoma?ticos, principalmente devido a infecc?o?es tardias que ocorrem na fase final de enchimento de gra?os, se houver condic?a?o clima?tica favora?vel. As micotoxinas sa?o quimicamente esta?veis, tendendo a se manter intactas durante as etapas de be- neficiamento, armazenamento e processa- mento, incluindo-se a panificac?a?o em altas temperaturas. Causam prejui?zos a? sau?de de humanos e animais, ocasionando rejeic?a?o de alimentos, interferindo em sistemas hormonais, inibindo a si?ntese proteica, bem como afetando a imunidade geral, favorecendo o aparecimento de doenc?as cro?nicas.

As micotoxinas tambe?m podem gerar problemas tecnolo?gicos na produc?a?o de pa?es, pois F. graminearum modifica a protease que age no glu?ten, resultando em pa?es mais pesados e menos volumosos. As sementes infectadas pelo pato?geno apre- sentam qualidade inferior em relac?a?o ao poder germinativo e ao vigor. Em cevada as micotoxinas esta?o, diretamente relacionadas com o efeito “gushing” na cerveja, que e? atribui?do, principalmente, ao ge?nero Fusarium e a?s micotoxinas. Estas tambe?m podem acarretar problemas tecnolo?gicos na qualidade do malte para a fabricac?a?o de cerveja, pela inibic?a?o da si?ntese de enzimas ou da fermentac?a?o.

As principais micotoxinas produzidas por Fusarium spp. em cereais de inverno sa?o os tricotecenos, zearalenona (ZEA) e, com menor freque?ncia, as fumonisinas. Dentre os tricotecenos mais importantes, pode-se citar o deoxinivalenol (DON), o nivalenol (NIV), a toxina T2, a toxina HT2 e o diacetoxiscirpenol (DAS). A ocorre?ncia, o tipo e a concentrac?a?o de micotoxinas dependem de condic?o?es ambientais, principalmente temperatura e umidade, que variam com o ano e a espe?cie do pato?geno. Deoxinivalenol e? a micotoxina mais comumente encontrada em gra?os de trigo e de cevada.

Em va?rios pai?ses existem legislac?o?es quanto aos limites para micotoxinas em alimentos. No Brasil, a resoluc?a?o RDC No 7, de 18 de fevereiro de 2011, dispo?e sobre os limites ma?ximos tolerados (LMT) para algumas micotoxinas. Os LMT para trigo e cevada foram estabelecidos conforme o ano, produto, subproduto e alimento, para aplicac?o?es em 2011, 2012, 2014 e 2016. Para aplicac?a?o em 2014 e 2016, os LMT sa?o apresentados nas Tabelas 1 e 2, respectivamente.

Como manejar

Ate? o momento, na?o existem cultivares de trigo, cevada ou triticale resistentes a? giberela, tampouco manejo eficiente para o controle da doenc?a e eliminac?a?o de micotoxinas. Para minimizar os prejui?zos, o produtor pode adotar algumas medidas, tais como o escalonamento de semeadura ou semear cultivares com ciclos distintos ao espigamento. O objetivo e? o escape de epidemia da doenc?a em pelo menos parte da lavoura, em peri?odos com excesso de precipitac?a?o pluvial. O tratamento qui?mico e? auxiliar no controle preventivo da doenc?a, mas, ate? o momento, sua eficie?ncia na?o e? adequada, assim como a rotac?a?o de culturas. A estrate?gia de manejo mais eficiente e? o uso de cultivares que apresentem resiste?ncia moderada a? giberela. Outra pra?tica e? a aplicac?a?o de fungicidas orientada por condic?o?es meteorolo?gicas (Sistema de Alerta) e o monitoramento para determinac?a?o de ocorre?ncia de micotoxinas, para a identificac?a?o e segregac?a?o de lotes com ni?veis elevados de contaminac?a?o.

Gra?os afetados na fase inicial de enchimento sa?o mais leves e, normalmente, descartados no processo de colheita. Ja? os gra?os afetados em fase final de desenvolvimento sa?o mais pesados, sendo colhidos. Nas etapas de beneficiamento, os gra?os com sintomas de giberela podem ser eliminados na limpeza com ar, peneira e mesa de gravidade.

Desta forma, para que seja possi?vel atender a?s exige?ncias da legislac?a?o e garantir a comercializac?a?o de alimentos seguros e com qualidade, ha? necessidade de ac?o?es integradas para monitoramento, manejo e controle de micotoxinas em todas as fases da cadeia produtiva.

 

Maria Imaculada P. M. Lima; Casiane Salete Tibola

Embrapa Trigo


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