Vinícolas brasileiras apostam na qualidade
A notícia de que o governo brasileiro não pretende adotar medidas de restrição à importação de vinhos estrangeiros, como pleiteavam os produtores nacionais por intermédio do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), desceu macia e redonda como um Cheval Blanc safrado para um grupo ativo de chefs, restaurateurs, amantes da bebida e importadores. Apesar de não ter conseguido as salvaguardas, o Ibravin, porém, obteve uma vitória importante: fechou acordo com o governo que garante aos vinhos nacionais espaço de 25% nas prateleiras dos supermercados, contra uma média de 10% hoje. Nas lojas especializadas, a fatia será de 15%. O objetivo é dobrar as vendas do produto nacional até 2016, para 40 milhões de litros por ano.
A proposta de salvaguardas do Ibravin, apresentada em março, provocou até um movimento de boicote ao vinho nacional. Mas os técnicos do Departamento de Defesa Comercial (Decom) do Ministério do Desenvolvimento consideraram insuficientes os argumentos apresentados. Com isso, o governo não vai adotar medidas protecionistas, como a sobretaxa aos vinhos importados.
O crescimento dos vinhos brasileiros sempre dependerá da entrada de vinhos de fora. Felizmente, os técnicos tiveram bom senso – comemora Antonio Campos, sócio da importadora Zahil.
Outro que brindou a decisão foi o sommelier João de Souza, do restaurante Vieira Souto, eleito a melhor carta de vinhos da cidade. Ele considera qualquer tipo de restrição prejudicial ao mercado:
O produto importado ensinou o consumidor brasileiro a beber vinho. A aposta das vinícolas brasileiras precisa ser na qualidade. Se o vinho for bom, o consumidor não vai se privar de consumir só porque é nacional – diz o sommelier, conhecido pelos rótulos nacionais que pessoalmente garimpa no Sul. – Há pequenos produtores fazendo um grande trabalho.
Para Ricardo Farias, Presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-Rio), os produtores nacionais adotaram a estratégia errada. Segundo ele, o melhor caminho seria negociar com o governo a redução dos impostos sobre o produto nacional.
O resultado dessa investida poderia ter sido um tiro no pé. O aumento dos preços fatalmente levaria a um decréscimo no consumo do vinho no país. O aumento de impostos e a implantação de outras ferramentas para proteção de produtos nacionais certamente não é a melhor forma de aumentar a fatia de mercado.
Mas Luis Carlos Cattacini Gentil, produtor do Sul, os vinhos simples importados, geralmente de baixa qualidade, acabam ocupando um lugar importante no mercado brasileiro, dificultando a comercialização de vinhos nacionais nessa faixa:
Os segmentos de vinhos superiores têm mercado de luxo garantido e os vinhos brasileiros que apresentam qualidade já conseguiram, ou estão conseguindo, o seu lugar no mercado. O que o vinho nacional precisa é de uma divulgação melhor. Nossos espumante servem de exemplo.
José Grimberg, dono da loja de vinhos Bergut, no Centro e Niterói, considera a discussão positiva. Para ele, o vinho ganhou espaço nos últimos meses. E, graças ao acordo, lembra, os supermercados se comprometeram a estimular a venda tanto dos nacionais quanto dos importados.
Com o acordo, foi retirado o pedido de investigação feito ao Ministério do Desenvolvimento para a aplicação de salvaguardas sobre os vinhos importados.
Autores: Luciana Fróes e Simone Marinho. Fonte: O Globo
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