O avanço dos transgênicos

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"Além da produtividade maior, notei que as variedades modificadas são melhores para o meio ambiente que as sementes convencionais", diz o agricultor, também agrônomo.

José Maria Lustosa Mendes foi um dos primeiros agricultores a plantar milho transgênico no Brasil. "Assim que o governo liberou as sementes eu comprei", conta. Ele já plantava soja e conhecia os benefícios oferecidos pelos organismos geneticamente modificados, portanto, não hesitou e, na safra 2008/2009, cultivou sementes transgênicas em 30% da área destinada ao milho em sua propriedade, localizada em Pinhão, PR. Já na safra 2009/2010, o índice subiu para 90% dos 70 hectares cultivados. "Só respeitei os 10% da zona de refúgio", diz. A zona de refúgio obriga o produtor a plantar milho convencional em torno da lavoura transgênica e é exigida por lei em respeito às propriedades vizinhas que cultivam somente lavouras convencionais. Isso acontece porque o risco de contaminação de lavouras convencionais pelos genes introduzidos na variedade modificada encabeça a lista dos argumentos contrários ao cultivo de transgênico. Outro aspecto preocupante é a falta de estudos que comprovem que o consumo desses alimentos não trará, no longo prazo, riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Na avaliação de André Franco, diretor de marketing da Monsanto, empresa que atua no segmento, a resistência aos transgênicos vem caindo. "Os agricultores puderam constatar os benefícios nas lavouras, e os consumidores já aceitam melhor a tecnologia", diz Franco. Novos problemas, no entanto, começam a surgir, a medida que o plantio avança. Um documento elaborado pelo Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos alerta, por exemplo, para o risco de que pragas estejam desenvolvendo resistência ao Roundup – um dos herbicidas mais usados no mundo. Enquanto o meio científico elabora pesquisas sobre os prós e o contras dos organismos modificados, o campo se rende à biotecnologia. O próprio Lustosa também plantou 230 hectares de soja, sendo 50% da área destinada às plantações transgênicas. O bom desenvolvimento das lavouras surpreendeu o agricultor. "Além da produtividade maior, notei que as variedades modificadas são melhores para o meio ambiente que as sementes convencionais", diz o agricultor, também agrônomo.

O que Lustosa percebeu em sua propriedade vem sendo constatado por estudos que analisam o cultivo geneticamente modificado no Brasil e no mundo. Documentos recentemente publicados atestam que os transgênicos são, de fato, tão bons para o bolso do produtor quanto para meio ambiente. É o que aponta, por exemplo, um levantamento encomendado pela Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem), que indicou que o uso de biotecnologia gera ao agronegócio tanto benefícios econômicos quanto socioambientais. Sob o aspecto econômico, as lavouras transgênicas proporcionaram ganhos de 3,6 bilhões de dólares para o setor agrícola nacional. Foram entrevistados 360 produtores em dez estados brasileiros. Entre os benefícios ambientais, destaca-se a redução do uso de defensivos. Como as variedades modificadas demandam quantidade menor de aplicações de defensivos, há redução no consumo da água, usada nas pulverizações, e também de óleo diesel. O estudo verificou que nos últimos 13 anos houve queda de 12,6 bilhões de litros de água e de 104,8 milhões de litros de óleo diesel no Brasil. A diminuição da queima de óleo diesel representou ainda 270,4 mil toneladas a menos de emissão de gás carbônico na atmosfera.

Estudo do comitê do Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos – que integra as academias nacionais de ciências, que aconselham o governo americano – também apontou que as culturas geneticamente modificadas podem ajudar a proteger o meio ambiente e as pessoas de uma superexposição a pesticidas. O documento indica que a melhora da qualidade da água pode vir a ser o maior benefício dos transgênicos, pois neste tipo de cultivo os agricultores usam menos inseticidas e herbicidas – que se mantêm por longo tempo no solo e nos cursos de água. "Fazendeiros e seus empregados não apenas enfrentam uma exposição reduzida aos produtos químicos nocivos presentes em alguns herbicidas e inseticidas como passam menos tempo nos campos aplicando pesticidas", diz o texto. Uma matéria publicada na edição de abril da revista Nature Biotechnology revelou ainda que, com a ajuda da biotecnologia, o agricultor tem melhor desempenho econômico. As conclusões têm como referência 49 análises de publicações baseadas em enquetes sobre como as lavouras modificadas beneficiam agricultores por todo o mundo. "As culturas modificadas registram, em média, 16% a mais de rendimento do que as convencionais no caso do milho resistente a insetos e 30% a mais no caso do algodão", conclui a jornalista e pesquisadora Janet Carpenter. Uma das pesquisas usadas no estudo, realizada nos Estados Unidos, mostrou que produtores de milho preferem sementes resistentes a insetos em virtude da facilidade de manejo e da consequente economia de tempo e dinheiro. Nesse caso, a redução de custos, levando-se em conta toda a cadeia produtiva, chega a 10 dólares por hectare. As análises apresentadas confirmam que plantações modificadas são mais produtivas, uma vez que, com o maior controle de pragas, há uma evidente redução das perdas. Os produtores brasileiros também puderam comprovar a redução das perdas.

Para Lustosa, que usa o milho resistente à lagarta, a eficiência do controle químico é limitada. "Já no caso do transgênico, o controle é total", diz. No Brasil, a recomendação técnica para o milho transgênico é de uma aplicação de defensivo no início do cultivo. "Não fiz nenhuma, e a lavoura está em excelentes condições", conta. Segundo ele, no caso das plantações convencionais, são necessárias entre quatro e seis aplicações de herbicidas. Para o agricultor Valcírio Hasckel, de Bragança Paulista, a biotecnologia lhe proporcionou maior tranquilidade em relação ao manejo da lavoura. "Antes eram três aplicações de herbicidas e mesmo assim o resultado não era certo. Agora não faço nenhuma e tenho certeza que não haverá lagarta, com a vantagem de que no final do ciclo a planta está mais sadia", diz Hasckel, que há 26 anos produz milho em sistema de arrendamento de terras. Na safra 2009/2010, ele plantou 450 hectares, sendo 80% de milho geneticamente modificado e 20% de lavoura convencional. "A produtividade da lavoura transgênica é cerca de 10% maior que a convencional", diz, satisfeito. Valcírio revela, entretanto, que ainda há muita polêmica em torno do cultivo de transgênicos. "Se digo para um vizinho que minha produtividade cresceu 10% por conta da adoção de uma nova tecnologia, ele fica impressionado e pede a receita. Se digo que estou plantando transgênico, ele me olha feio e não quer muita conversa", conta.

Os transgênicos são organismos produzidos em laboratório por meio da introdução de genes de outras espécies, com o objetivo de atribuir-lhes novas características. No caso dos grãos, esses genes podem ser resistentes a pragas, a condições climáticas adversas, como secas prolongadas, e a herbicidas. O Brasil já é segundo maior produtor de transgênicos do mundo, com área de cultivo de 21,4 milhões de hectares, atrás apenas dos Estados Unidos. No país, o plantio de transgênicos ocorre desde 2004 e está sujeito à aprovação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio). A comissão já aprovou para comercialização no mercado interno sementes de algodão resistentes a insetos e tolerantes a herbicida, algodão somente resistente a inseto e somente tolerante a herbicida. O mesmo ocorre com o milho. Já a soja aprovada é tolerante a herbicidas. Estima-se que na safra brasileira 2018/2019 as lavouras de algodão ocuparão 1,6 milhão de hectares, em comparação com os 118,1 mil hectares de 2008/2009; o milho alcançará 11,2 milhões de hectares – 1,14 milhão em 2008/2009; e a soja demandará 25,2 milhões de hectares, na comparação com os 21,5 milhões de 2008/2009. "Os investimentos nessa área estão apenas começando", diz Ywao Miyamoto, presidente da Abrasem.

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Fonte: Revista Globo Rural


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