Revitalizador de ecossistemas

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POR VINICIOS GALERA

Como muita gente, Leontino Balbo Júnior, 55, acha absurdo o transporte de cargas agrícolas por rodovias. Mas ao contrário dos que acreditam que os volumes deveriam ser carregados maciçamente por trens ou hidrovias, ele tem uma ideia um pouco diferente: utilizar balões dirigíveis. “Eu já sei quantos metros cúbicos de hélio eu preciso para um quilo de carga agrícola”, diz.

Pode parecer estranho, mas não quando se conhece Leontino. Inquieto, estudioso e dedicado, Balbo Jr. é um entusiasta da produção agroecológica. Os produtos orgânicos da marca Native, produzidos na Usina São Francisco, que dirige em Sertãozinho (SP), são hoje exportados para 60 países. “Pela primeira vez, nós conseguimos um sistema de produção agroecológico certificado onde a produtividade em larga escala é maior que a convencional”, diz.

O feito é grande. Principalmente quando se sabe que Leontino atua em uma cadeia produtiva das mais tradicionais e importantes para a economia do país, a da cana-de-açúcar. Quando começou a trabalhar, em 1984, muitas das atividades hoje comuns no cotidiano da usina eram simplesmente impensáveis.

Seu avô chegou à região de Sertãozinho para trabalhar em lavouras de café, mas logo passou a atuar em uma das principais usinas da região, a Engenho Central, de Pontal, que pertencia a Francisco Schmidt, considerado o “rei do café”. Depois de décadas de trabalho com a produção de açúcar, o imigrante fundou a própria usina, a Santo Antônio, em 1946.

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Preocupada com a sucessão, a família estabeleceu algumas exigências para que os descendentes pudessem atuar nos negócios, como ter diploma em universidades conceituadas e falar outros idiomas. “Eram praticamente caipiras, mas vislumbraram que a sucessão tinha que ser profissionalizada, mesmo que fosse com pessoas da família”, diz Leontino, referindo-se aos avós e tios-avós.

Colheita crua    

Foi assim que, formado engenheiro agrônomo pela Unesp de Jaboticabal, Leontino chegou à Usina São Francisco. Naquela época, a metade dos anos 1980, ele era um jovem que trazia uma carga de conhecimento acadêmico a um negócio antigo. Começou a questionar as práticas da produção canavieira. “Estou querendo fazer umas experiências aqui dentro para tentarmos migrar para um modelo de produção menos agressivo e mais autossuficiente”, disse aos tios.

“A ciência analítica vê tudo de forma compartimentada. No meu mundo, tudo está interligado”

Preocupado com a utilização de agroquímicos e com a dependência das grandes empresas, mas principalmente com o ecossistema, ele adaptou uma máquina para colher cana crua na usina, algo então inexistente. Em 1993, 50% da Usina São Francisco trabalhava com cana colhida crua. Nesse mesmo ano, um dia de campo na unidade chamou a atenção de colegas, centros tecnológicos e empresas para as experimentações que vinham sendo feitas na São Francisco. “O pessoal se assustou”, diz Leontino. O problema, segundo ele, é que a visão sobre a produção agrícola é, até hoje, determinada pela ciência analítica. “Ela vê tudo de forma compartimentada. Olha para uma fazenda e não vê o ecossistema. Plantio é uma coisa, tratos culturais são outra e colheita, uma terceira. No meu mundo, tudo está interligado.”

Apesar do susto, o Banco Mundial e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) resolveram investir em projetos na São Francisco. “Eu tinha dois caminhos. Um era adotar o manejo orgânico tradicional, que é esse que todo mundo diz que não vai alimentar o mundo, ou que é menos produtivo, que é muito caro”, diz, referindo-se ao método desenvolvido pelo britânico Albert Howard a partir de tradicionais plantios agrícolas da Índia. “Em pequena escala o sistema funciona. É produtivo, é certificado e os produtos são seguros. Mas passou de 50 hectares é menos produtivo”, diz Leontino. A outra alternativa era usar agroquímicos. “Mas veneno eu não queria”.

Organismo selvagem

Encontrou a saída no mato, algo que o remetia à primeira infância. “Com quatro, cinco anos de idade, meu negócio era mexer na terra, minhoca. Eu descobri a pescaria, eu era doido por pescaria. Com seis anos, eu vinha do primário, pegava uma bicicleta, amarrava uma vara de pescar, um embornal, uma latinha e sumia. Eu entrava nos córregos enfiando as mãos nos buracos. Não sabia se ia ter traíra, mandi, bagre. Aquilo para mim era o meu ambiente natural. Costumo dizer que eu era meio Mogli, o menino lobo”.

Quando o menino precisou se mudar para a cidade a fim de estudar, foi um choque. Mas os anos de pescaria enfiado em matas e riachos o marcariam para sempre. E determinaram sua visão de mundo.

 

 


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