Como a psicologia do tempo influência nossas decisões

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Como a psicologia do tempo influência a tomada de decisão

Philip Zimbardo recomenda uma visão saudável do tempo e o paradoxo de como a perspectiva do tempo influencia a nossa tomada decisão.

Segue abaixo a transcrição e o vídeo da palestra proferida e gravada pelo psicólogo e professor Philip Zimbardo para a TED (Veja mais informações abaixo). Segue, ainda, mais abaixo vídeo produzido pelo RSA Animate com o professor que Zimbardo e que complementa brilhantemente essa palestra.

Abaixo: Vídeo original em HD com legenda para 34 línguas diferentes. Acesse no canto inferior direito a lista de legendas disponíveis se desejar muda-las. Alguns celulares podem não dispor da tradução para o português. Sugerimos nesse caso o acesso ao vídeo pelo computador.

Abaixo: Transcrição da palestra

Por Philip Zimbardo

0:11 Quero compartilhar com vocês algumas idéias sobre o misterioso poder do tempo, em pouco tempo.

0:18 Vídeo: Certo, disparem o relógio. 30s estúdio. Silêncio por favor. Quietos. “Já Era Hora”. Sequência final. Tomada um. 15s estúdio. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2…

0:45 Zimbardo: Vamos examinar a origem da conversa da tentação de Adão. Vamos Adão, não seja tão sem graça. Dê uma mordida. Eu mordi. Uma mordida, Adão. Não abandone Eva. Eu não sei pessoal. Não quero arrumar confusão. Certo, uma mordida. Que se dane! (Risos)

1:10 Vida é tentação. Trata-se de ceder, resistir, sim, não, agora, depois, impulso, reflexão, foco no presente, foco no futuro. Virtudes prometidas sucumbem às paixões do momento.

1:21 Das adolescentes que prometeram abstinência sexual e virgindade até o casamento — obrigado George Bush — a maioria, 60%, cedeu às tentações sexuais no primeiro ano. E a maioria delas sem proteção. O valor de uma promessa…

1:35 Agora vamos tentar crianças de 4 anos, dando a elas um doce. Elas podem comer um marshmallow agora. Mas se esperarem o pesquisador voltar, elas podem comer dois. É claro que compensa, se você gosta de marshmallow, esperar. Acontece que 2/3 das crianças cedem à tentação. Não conseguem esperar. Os outros, claro, esperam. Eles resistem à tentação. Eles postergam o agora pelo depois.

1:56 Walter Mischel, meu colega de Stanford, voltou 14 anos depois, para tentar descobrir as diferenças naquelas crianças. Existiam diferenças enormes entre as crianças que resistiram e as que cederam, em várias maneiras. As crianças que resistiram tiraram 250 pontos a mais no vestibular. Isso é enorme. É como uma outra categoria de QI. Eles não arranjavam muita confusão. Eram melhores alunos. Tinham autoconfiança e determinação. O essencial para mim, o essencial para vocês, é que eles eram voltados para o futuro em vez de para o presente.

2:25 O que é perspectiva temporal? É isso que vou comentar hoje. Perspectiva temporal é o estudo de como indivíduos, todos nós, dividem o fluxo da experiência humana em zonas ou categorias temporais. E isso é feito automática e inconscientemente. Os níveis variam entre culturas, nações, indivíduos, classes sociais, níveis de educação. E eles podem ficar tendenciosos. Aprendemos a usar mais um tipo do que outro.

2:50 O que determina qualquer decisão que tomamos? Tomamos uma decisão, que servirá de base para uma ação. Alguns se preocupam somente como a situação imediata, o que os outros estão fazendo e o que elas estão sentindo. Essas pessoas, as que tomam as decisões desse modo, vamos chamar de “orientadas para o presente”. Porque o foco está no agora.

3:08 Para outros, o presente é irrelevante. A preocupação é: “Que tipo de experiência parecida eu já vivi no passado?” Então as decisões são baseadas nas memórias passadas. Vamos chamar essas pessoas de “orientadas para o passado”. O foco é o que foi.

3:20 Para outros não é passado e nem o presente, o importante é o futuro. O foco está em antecipar as consequências. Análise de custo-benefício. Vamos chamar essas pessoas de “orientadas para o futuro”. O foco é o que será.

3:32 O paradoxo do tempo, quero argumentar, o paradoxo da perspectiva do tempo, é algo que influencia cada decisão tomada, e nunca o notamos. Ou seja, é o tamanho do viés que temos para cada uma das perspectivas temporais. Existem seis deles. Existem duas maneiras de ser orientado para o presente. Duas maneiras de ser orientado para o passado e duas para o futuro. Podemos nos focar no passado-positivo ou passado-negativo. Podemos ser presente-hedonistas, isto é, o foco está nos prazeres da vida, ou presente-fatalistas. Não importa. Nossas vidas são controladas. Podemos ser orientados para o futuro, estabelecendo metas. Ou podemos pensar no futuro transcendental, ou seja, vida após a morte. Desenvolver a flexibilidade mental para mudar as perspectivas temporais de acordo com a situação, é o que devemos aprender a fazer.

4:15 Rapidamente, qual é o perfil temporal ideal? Alto em passado-positivo. Moderadamente alto em futuro. E moderado em presente-hedonista. Sempre baixo em passado-negativo e presente-fatalismo. A mistura temporal ideal é o que tiramos do passado — passado-positivo nos dá raízes. Nos conectamos com a família, nossa identidade e nós mesmos. Do futuro pegamos as asas para voar a novos destinos, novos desafios. Do presente-hedonimo tiramos a energia para explorar a nós mesmos, lugares, pessoas, sensualidade.

4:47 Qualquer perspectiva temporal em excesso tem mais negativos do que positivos. O que quem pensa no futuro sacrifica pelo sucesso? Sacrificam tempo com a família, com os amigos. Sacrificam diversão. Sacrificam satisfação pessoal. Sacrificam hobbies. Sacrificam o sono. A saúde é afetada. Eles vivem para o trabalho, realização e controle. Tenho certeza que isso se aplica a muitos TEDsters. (Risos)

5:13 E se aplica a mim. Eu cresci pobre no sul do gueto do Bronx em uma família siciliana. Todos viviam no passado e no presente. Estou aqui como uma pessoa orientada para o futuro que exagerou, que fez todos esses sacrifícios porque os professores intervieram, e me tornaram orientado para o futuro. Me disseram para não comer o marshmallow, porque se eu esperar, irei ganhar dois, até eu aprender a equilibrar. Acrescentei o presente-hedonista e o foco no passado-positivo. Então com 76 anos, sou mais ativo do que nunca, mais produtivo, mais feliz do que eu jamais estive.

5:45 Estamos aplicando esse modelo para muitos problemas mundiais, alterando o índice de abandono das escolas, lutando contra o vício, aumentando a saúde juvenil, curando transtorno pós-traumático em soldados — curas milagrosas — promovendo sustentabilidade e conservação, reduzindo o tempo de fisioterapia onde o abandono é de 50%, alterando os apelos dos terroristas suicidas, e modificando conflitos familiares.

6:07 Quero finalizar dizendo que muitos enigmas da vida podem ser resolvidos entendendo-se a sua perspectiva temporal e a dos outros. A idéia é tão simples, tão óbvia, mas as consequências são de fato profundas. Muito obrigado. (Aplausos)

 

O que é a TED: é uma fundação privada sem fins lucrativos dos Estados Unidos mais conhecida por suas conferências na Europa, Ásia e Estados Unidos destinadas à disseminação de ideias. (acrônimo para Technology, Entertainment, Design; em português: Tecnologia, Entretenimento, Design).

 

Philip Zimbardo é professor da Universidade de Stanford desde 1968. Em 2003 recebeu o Prêmio IgNobel de psicologia pela sua tese em que descrevia os políticos como Uniquely Simple Personalities. Em 2005 Recebeu o Havel Foundation Prize pela sua vida de pesquisas sobre a condição humana.

Está atualmente trabalhando na cronologia da Experimento do aprisionamento de Standford e sua relação com os abusos na prisão de Abu Ghraib e outras formas de vilanias. Deverá ser lançado no verão de 2007 o seu livro O Efeito Lúcifer: Entendendo como pessoas boas se tornam diabólicas (The Luficer Effect: Understanding How Good People Turn Evil). O Dr. Zimbardo foi presidente da Western Psychological Association em duas ocasiões, Presidente da American Psychological Association, e escolhido Chair do Council of Scientific Society Presidents (CSSP).

 

O Prêmio IgNobel é um prêmio dado para a descoberta científica mais estranha do ano. Os prémios são entregues a cada outono para honrar estudos e experiências que primeiro fazem as pessoas rir e depois pensar. O nome, pronunciado nas cerimônias de premiação como “aigui-noubél”, é um trocadilho com o nome “Nobel” de Alfred Nobel e a palavra anglófona ignoble (lit. ignóbil), que representa algo “não nobre”, vil ou desprezível.

O prêmio fora criado pela revista de humor científico Annals of Improbable Research (Anais da Pesquisa Improvável) e os prêmios são entregues em Harvard. A ideia é premiar pesquisas raras, honrar a imaginação e atrair o interesse público para a ciência, a medicina e a tecnologia.

Foram entregues pela primeira vez em Harvard em 1991, sendo a cerimônia abrilhantada pela presença de verdadeiros laureados com o Prêmio Nobel, que entregam o respectivo Prêmio IgNobel ao vencedor, numa cerimônia que até (desde 1996) inclui uma mini-ópera, a meias entre cantores de ópera profissionais e laureados com prêmios Nobel.

Fonte: Ted.com

Traduzido por Renan Botelho

Revisado por Belucio Haibara


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