Melhoramento de Plantas
O melhoramento de plantas engloba todas as técnicas, métodos, estratégias ou recursos utilizados para que algum progresso seja incorporado a uma espécie vegetal. De modo geral, este progresso está relacionado com a melhora do conteúdo genético da espécie trabalhada, em estreita relação com a ambiente onde esta espécie será cultivada (BORÉM, 1997). Segundo MIRANDA FILHO (1994), “melhoramento genético é o ajustamento genético aos componentes físicos, químicos, biológicos, econômicos e sociais do ambiente”, o que implica em ser uma atividade dinâmica, exigindo ajustes genéticos para se adaptar ao ambiente, que é dinâmico em função dos diferentes fatores que o compõem. A uma variedade utilizada comercialmente dá-se o nome de cultivar. Deste modo, o melhorista trabalha com o objetivo de lançar melhores cultivares para serem utilizadas pelos agricultores.
Os métodos tradicionais, como já exposto, baseiam-se nos conceitos de herança mendeliana dos caracteres, ou seja, que as características a serem melhoradas são herdadas dos genitores pelas progênies. Assim, se o objetivo é incorporar resistência ao fungo causador da vassoura-de-bruxa no cacau (Crinipellis perniciosa), deve-se utilizar pelo menos um genitor que possua gene(s) que confira(m) resistência a este fungo nos cruzamentos, que será a fonte de resistência. Os cruzamentos no melhoramento clássico restringem-se, no máximo, a espécies correlacionadas. Caso contrário, ter-se-á descendentes estéreis, o que é inviável, pois as características não poderão ser transmitidas às gerações futuras, terminando com o processo. No caso de métodos biotecnológicos, que serão abordados posteriormente, esta barreira reprodutiva deixa de existir.
O melhoramento visa obter genótipos superiores, mas a expressão destes genótipos, que são os fenótipos, dependem, entre outros, do ambiente onde este genótipo está (CHAVES, 2001). Para melhor clareza, considere-se dois clones de eucalipto (genótipos idênticos) plantados em solos com diferentes níveis de fertilidade, sendo um muito fértil e outro pobre em nutrientes. Logicamente o clone que for plantado no primeiro solo terá um desenvolvimento (fenótipo) muito superior ao clone plantado no segundo tipo de solo. Isto exemplifica bem o efeito do ambiente sobre o fenótipo, que nunca Melhoramento de plantas e a produção de alimentos 08 pode ser desprezado. O efeito ambiental justifica-se quando da recomendação de cultivares, sendo que as mais adaptadas a certa região serão recomendadas. Há o exemplo clássico da cultura da soja no Brasil Central, onde introdução de variedades selecionadas (adaptadas) ao sul do país tiveram desempenho péssimo em baixas latitudes (região central), devido a problemas de fotoperiodismo.
Dentre os principais objetivos do melhoramento, pode-se destacar:
– Aumento na produtividade;
– Resistência à adversidades ambientais (solos, clima, pragas, doenças, etc.);
– Adequação à exigências do mercado consumidor;
– Aumento na renda;
(BORÉM, 1997).
Merecem destaque outras conseqüências deste processo, que são a melhoria na balança comercial do país, pois cerca de 40% das exportações do Brasil dependem do agronegócio, além da maior oferta de alimento, e conseqüente redução de preços ao consumidor, e melhora da condição nutricional da população. Dos cerca de US$ 60 bilhões exportados em 2002 (RECEITA FEDERAL, 2002), US$ 25 bilhões são oriundos do agronegócio (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO, 2003).
O melhoramento teve seu início há cerca de 10 mil anos, quando o homem deixou de ser nômade e passou ao sedentarismo, vivendo em comunidades e iniciando o cultivo de plantas. Inconscientemente, o homem selecionava as melhores sementes para depois plantá-las, o que é um melhoramento, pois há seleção de melhores plantas. Com o início do comércio entre os povos, e, posteriormente, com as grandes navegações, iniciou-se trocas de germoplasma, quando plantas antes cultivadas em apenas um local passaram a ser cultivadas em regiões distantes, disseminado-as pelo planeta. O milho é originário da região do México e dos Andes, mas é cultivado em todo o mundo nos dias atuais. Praticamente todas as principais espécies cultivadas no Brasil são exóticas (originárias de outras regiões) . Como exemplos temos a soja e a laranja, que são originárias da China, o café (Etiópia África), trigo (Egito), feijão (Andes) e eucalipto (Austrália) (DESTRO e MONTALVÁN, 1999).
O melhoramento recebeu um grande impulso com a redescoberta das Leis de Mendel, em 1900, e com o desenvolvimento de técnicas de experimentação agrícola por R.A. Fisher e sua equipe, no período de 1919 a 1933. Estes dois eventos têm importância fundamental nos métodos utilizados atualmente. Melhoramento de plantas e a produção de alimentos 09 Cabe aqui uma ressalva importante quando se fala de produção de plantas, pois a primeira idéia que normalmente se tem é a de produção de alimento (grãos, frutas, hortaliças, etc.). Em parte é verdade, mas apenas em parte, pois os vegetais são fontes de energia (álcool e carvão vegetal), madeira e celulose (papel), ornamentação (flores), fibras e óleos industriais (dendê, mamona, soja), entre outros. Assim, o melhoramento atua desde a melhora na qualidade de tecidos (fibras mais longas em algodão) até no uso em cosméticos (p.ex. óleo de copaíba).
Fica fácil perceber que, no dia-a-dia, a presença de produtos vegetais é uma constante indispensável (SQUILASSI, 2003 b). Some-se a isso que está sendo considerado apenas o primeiro nível da cadeia trófica, ou seja, o uso de vegetais per se, ou diretamente pelo homem. Quando passamos de consumidores primários (comemos um vegetal) para consumidores secundários (comemos carne de boi que come vegetal), não pode-se deixar de ressaltar a importância do melhoramento, buscando novas cultivares de pastagens e forrageiras, ou melhores milho, soja e outros mais adequados à produção de ração (melhor teor protéico). Ou seja, quando se ingere carne, indiretamente ocorre o benefício do uso de plantas, que foram alimento para o bovino, suíno, aves, etc. Do mesmo modo pode-se abordar o consumo de leite e derivados.
RAMALHO (2001) expôs o retorno financeiro obtido com diversas culturas. Segundo este autor, o ganho obtido com o melhoramento genético em eucalipto da década de 60 até a de 90 corresponde a 50% do ganho total. 3 Considerando-se um incremento na produtividade de 20 m /ha/ano, deduz-se 3 que o ganho com melhoramento eqüivale a 10 m /ha/ano. Sendo que a área de corte na década de 90 foi, em média, de 500 mil ha/ano, houve um aumento 3 3 de 5 milhões de m /ano de madeira (500 mil ha/ano x 10 m /ha/ano). Ao preço 3 de US$ 50,00/m de madeira, em 1999, resulta num incremento de US$ 250 milhões apenas no ano de 1999. Este mesmo autor relatou ganhos com outras culturas. Como exemplo, o ganho obtido com o melhoramento do café, apenas no ano de 1998, foi de R$ 2,1 bilhões. Com o feijão o ganho foi de R$ 43 milhões por ano agrícola. Com a soja foi de R$ 1,4 bilhão por ano e, com o milho, R$ 5,2 bilhões por ano.
Essas cifras são realmente muito expressivas e evidenciam a importância do trabalho do melhorista de plantas para o desenvolvimento do país. Mas é uma pena que os governantes não tenham esse reconhecimento, reduzindo cada vez mais os Melhoramento de plantas e a produção de alimentos 10 recursos destinados à pesquisa em melhoramento, bem como em outras áreas de importância nacional.
http://www.cpatc.embrapa.br/download/D56.pdf

