como escolher o touro certo para bovinos leiteros
A escolha do touro a ser utilizado hoje determina o tipo de vacas que estarão em produção em 3 anos. A escolha do touro deve se basear nas seguintes considerações:
• Priorize as características consideradas na seleção e coloque um valor de importância para cada característica—características de produção devem ser de 3 a 5 vezes maiores que características de conformação;
• Utilize um método de seleção—um método independente de seleção ou preferencialmente um índice de seleção—para escolher um touro baseado no seu PTA;
• Não utilize a confiabilidade para escolher um touro—use a confiabilidade para decidir o quanto você vai utilizar este touro.
Usando o PTA para decisões de seleção
O propósito básico da Habilidade de Transmissão Predita (PTA ou HTP) é para classificar touros. Se um touro têm um PTA de +1.000 kg de leite, isto não significa que suas filhas irão produzir 1.000 kg a mais que suas companheiras de rebanho. Isto significa que, as filhas deste touro terão a média de produção 1.000 kg maior que as filhas dos touros usados na base genética. A seleção deve ser baseada no PTA do touro. Um erro comum é usar a confiabilidade como critério de seleção. O uso correto da confiabilidade será explicado mais tarde.
Em termos de seleção de touros, dois métodos estão a disposição: o descarte independente e o índice de seleção. Os dois métodos têm suas vantagens e desvantagens, porém o método dos índices de seleção é preferido pelos geneticistas pois este método usualmente oferece a possibilidade de um maior progresso genético.
Descarte independente
O descarte independente é um método no qual o produtor coloca um valor mínimo para cada característica desejada no programa de seleção. Os touros acima do mínimo para aquelas características são considerados para a seleção. Por exemplo, assumindo que duas características de importância são o PTA para produção de leite e o PTA para produção de proteína, alguns podem decidir escolher entre os touros disponíveis aqueles com PTA para leite maior que 2.250 libras e o PTA para proteína maior que 65 libras. Como ilustrado na Figura 1, somente dois touros na população de touros americana em Janeiro de 1995 conseguiriam alcançar estes parâmetros de seleção.
Vantagens
É o método mais simples de identificar touros que conseguem atender aos objetivos do fazendeiro em um programa de seleção.
Desvantagens
A primeira dificuldade em usar o descarte independente é colocar o valor mínimo para a seleção. Um touro pode ser descartado por não atender a um dos requerimentos de seleção, mesmo que isto seja por apenas algumas libras, enquanto todas as outras características possam exceder os requerimentos mínimos de seleção (Figura 1). A necessidade de se atualizar os critérios de seleção periodicamente é outra desvantagem do descarte independente. Quando os touros são selecionados com este método, o progresso genético e a mudança na base genética podem afetar o touro que será o mais desejado. Se um critério de seleção tem sido utilizado por muitos anos, mais touros tendem a entrar no grupo dos preferidos pelo progresso genético. Outro critério precisa ser encontrado para selecionar o touro desejado ou os padrões de seleção devem ser mudados periodicamente. Além disso, quando a base genética muda, somente poucos touros preenchem os critérios de seleção e, novamente, os padrões de seleção precisam ser revistos e ajustados corretamente.

Figura 1: Seleção de touros baseado no descarte independente.
Índice de seleção
O uso do índice de seleção permite a classificação dos touros baseado no valor de importância calculado para as características de seleção desejadas “peso relativo”. O “peso” representa o valor de importância que um produtor coloca em uma determinada característica. O preço dos componentes do leite, por exemplo, pode ser utilizado como um fator de importância ou de peso. Neste caso, o índice teria o valor unitário da moeda (dólares, reais, francos etc.). Porém, o valor absoluto de um índice tem pouca importância. Os touros devem ser classificados de acordo com o índice mais apropriado, e os touros mais altos para aquele índice devem ser usados sem levar em conta o valor real daquele índice. Em outras palavras, não existe significado em se colocar valores mínimos para os índices pelo valor absoluto dos índices.
Vantagens
Um índice permite a identificação de touros que preenchem melhor os objetivos de ganho genético sem focar em nenhuma característica em especial. Os índices forçam o produtor a avaliar as características a serem selecionadas conscientemente e formular um plano específico para a maximização destes índices no rebanho. Depois de um índice ser escolhido corretamente, a seleção dos touros é muito mais simples que no sistema de descarte independente, pois os melhores touros serão os touros classificados no topo da lista. Além disso, um índice é um método objetivo para se dar chance a um touro que pode ser rejeitado pelo sistema de descarte independente pois estes touros podem não preencher os requerimentos para uma das características que estão sendo selecionadas.
Desvantagens
Os índices são difíceis de se construir, pois é difícil de se escolher e dar valores de peso para as características a serem inseridas na seleção. Muitos índices “pré-calculados” estão a disposição. Porém, não é muito claro decidir qual destes índices reflete a prioridade de um rebanho para uma determinada característica. Alguns índices colocam muito peso para características de conformação. Outros índices, o peso econômico que é colocado em características de produção de leite se baseiam no sistema de preços do leite nos Estados Unidos. A interpretação destes índices para produtores de outros países é muito difícil, pois, claramente, o sistema de preços para o leite varia de país para país.
Como construir um índice de seleção que reflete os aumentos esperados na renda bruta
Como um exemplo, vamos assumir que estamos construindo um índice para o mercado leiteiro com as seguintes características. Vamos assumir que o preço do leite é de 12.2 (para qualquer unidade monetária) por Kg de leite contendo 3.5% de gordura e 3.2% de proteína. O laticínio paga 0.150 unidades monetárias por 0.1% de gordura (ou por grama de gordura) e 0.300 unidades monetárias por 0.1% de proteína (ou por grama de proteína). O peso relativo dado para a produção total de leite, produção de proteína e produção de gordura pode ser calculado da seguinte maneira:
• Valor de uma grama de gordura = 0.150 unidades monetárias, valor de 1 kg de gordura = 150 unidades monetárias, valor de 35 g de gordura em 1 kg de leite = 0.150 x 35 = 5.25 unidades monetárias;
• Valor de uma grama de proteína = 0.300 unidades monetárias, valor de 1 kg de proteína = 300 unidades monetárias, valor de 32 g de proteína em 1 kg de elite = 0.300 x 32 = 9.60 unidades monetárias;
• Valor de 1 kg de leite sem gordura e proteína = 12.2 – 5.25 – 9.60 = –2.65 unidades monetárias.
Portanto, podemos calcular um índice que vai refletir o aumento esperado na renda bruta das filhas de um touro baseado no seu PTA para produção de leite, proteína e gordura. Vamos chamar este índice de PTA-AGI (habilidade de transmissão predita da renda bruta). Nós usamos a terminologia renda bruta, pois vacas que produzem mais leite, também tem uma maior ingestão alimentar; porém, os custos extras da alimentação não estão incluídos no nosso índice.
PTA-AGI = (–2.65 x PTA kg de leite) + (300 x PTA kg de proteína) + (150 x PTA kg de gordura).
Por exemplo um touro com PTA para leite de 800 kg, PTA para proteína de 20 kg, e PTA para gordura de 38 kg, teria um PTA-AGI índex de:
PTA-AGI = (–2.65 x 800) + (300 x 20) + (150 x 38) = 9,580 unidades monetárias
QUANTOS TOUROS DEVEM SER USADOS EM UM REBANHO?
O número de touros e a estratégia para a seleção destes touros pode variar em função do:
• Tamanho do rebanho;
• Confiabilidade do touro;
• A disposição do fazendeiro em correr alguns riscos.
Quando touros jovens são selecionados, a compra de sêmen devem se limitar a apenas alguns palhetes de sêmen por touro. Quando a confiabilidade do touro aumenta, pode-se aumentar o número de palhetes de sêmen a serem comprados de um determinado touro. Não é aconselhável inseminar mais de 15 a 20% de um rebanho com um mesmo touro, mesmo que o touro tenha o PTA com alta confiabilidade. Em outras palavras o mínimo aconselhável é de pelo menos 3 touros para cada 50 vacas do rebanho. A diversificação é um tipo de segurança contra qualquer problema inesperado que podem aparecer decorrentes do uso de um touro no rebanho.
Usa confiabilidade para decidir quanto investir em um touro
A confiabilidade indica a acurácia das avaliações genéticas. Muitas vezes os produtores utilizam a confiabilidade como um critério de seleção. Na verdade, a confiabilidade nunca deve ser usada como critério de seleção de touros; porém, depois da seleção dos touros a serem utilizados, a confiabilidade deve ser utilizada para a intensidade de uso desses touros (ex: quantidade de sêmen comprado). O número de touros a disposição é muito grande e tendemos a rejeitar touros que têm uma confiabilidade de PTA baixa. Porém, usar a confiabilidade como critério de seleção pode diminuir o ganho genético.

Figura 2: Exemplo das mudanças dos PTAs de 20 touros quando a confiabilidade aumenta de 70% para 99%; cada touro está identificado com um retângulo numerado de 1 a 20 e a distribuição das suas filhas esta ilustrada pelas curvas em horizontal.
O verdadeiro valor genético de touros com o PTA com alta confiabilidade esta muito próximo do seu valor real e tende a não mudar com o tempo. Para alguns produtores, esta característica pode ser importante pois isto garante que o mérito genético previsto das filhas vai estar próximo do PTA do touro. Porém, a alta confiabilidade pode ser considerada por alguns como uma falta de oportunidade. Touros jovens normalmente têm menores confiabilidades eles têm um número limitado de filhas no seu teste de progênie. Além disso, os touros com os méritos genéticos mais altos estão entre os touros sendo testados pela sua progênie; nós apenas não sabemos quem são eles. Portanto como podemos obter vantagens de uma genética superior de determinados touros jovens, sendo que não sabemos seu PTA real?
Nós sabemos que um PTA com uma baixa confiabilidade provavelmente deve mudar, mas não podemos prever se este PTA vai aumentar ou diminuir. Na verdade, quando dois touros têm o mesmo PTA, é mais arriscado comprar muito sêmen do touro com menor confiabilidade.
Ao invés de focalizar em um touro jovem, devemos focar em um grupo de touros jovens, os riscos vão mudar drasticamente. Vamos considerar o futuro de um grupo de touros jovens com altos PTAs e baixa confiabilidade (Figura 2). Em geral, quando o PTA de um touro diminui, o PTA de outro aumenta. Em um grupo, os touros que diminuem seu PTA normalmente contribuem para o aumento do PTA de outros touros.
Portanto, o PTA médio final do grupo de touros jovens não muda com o tempo pois a diminuição do PTA de alguns dos touros será compensada pelo aumento do PTA de outros touros (Figura 2). Em outras palavras, a melhor estratégia para minimizar o risco da baixa confiabilidade e maximizar o ganho genético é focar em um grupo de touros com baixa confiabilidade. A estratégia deve se basear em comprar sêmen de vários touros jovens. Ao comprar poucas unidades de sêmen de vários touros jovens, de baixa confiabilidade, as chances de se produzir um grande número de filhas de um touro que tem seu PTA diminuindo com o tempo são pequenas; e as chances de se produzir filhas de touros que possam ter seu PTA aumentado com o tempo são maximizadas.

