Estimativa de herdabilidade para escores visuais

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Foram avaliados escores visuais atribuídos a estrutura corporal, precocidade e musculosidade ao sobreano em 1.706 animais de cinco rebanhos da raça Nelore. A maioria dos lotes avaliados, aproximadamente 75%, era composta de novilhas expostas à monta, pertencentes a criadores que participam do Programa de Melhoramento Genético da Raça Nelore (PMGRN), envolvendo pesquisa sobre precocidade sexual nesta raça.

As avaliações visuais de estrutura corporal, precocidade e musculosidade foram realizadas individualmente para cada animal, seguindo o procedimento: primeiramente foi observado todo o lote, que caracteriza um grupo de manejo, para avaliar o perfil médio do grupo para cada característica, que representa a base para comparação dos animais. Portanto, os escores são relativos ao grupo de manejo. Após a pesagem, os animais foram soltos em uma divisão do curral e avaliados individualmente por um único técnico treinado, que atribuiu escores de 1 a 6 às características estrutura corporal, precocidade e musculosidade, de modo que 6 foi a maior expressão da característica e 1 a menor expressão da característica no grupo de manejo. De acordo com Koury Filho & Albuquerque (2002), em cada característica procura-se avaliar:

– Estrutura corporal: procura-se predizer visualmente a área que representa o animal visto de lado, avaliando-se basicamente o comprimento corporal e a profundidade de costelas. Maiores áreas correspondem a maiores escores.

– Precocidade: nesta avaliação os maiores escores recaem sobre animais de maior proporção entre profundidade de costelas em relação à altura de seus membros.

– Musculosidade: a musculosidade é avaliada por meio da evidência das massas musculares, de modo que os indivíduos com musculatura mais volumosa e convexa recebem os maiores escores e os de musculatura menos volumosa e convexa, retilínea e até concavidades pelo corpo, os menores.

O peso e a altura de posterior foram mensurados no momento da coleta dos escores visuais. A altura foi determinada utilizando-se uma trena devidamente fixada na parte superior do tronco de contenção, medindo-se a distância da trena até o chão e coletando-se a medida da trena até a protuberância do íleo. Subtraindo-se a distância da trena até o íleo da distância total, obteve-se a altura do posterior dos animais.

As estações de nascimento adotadas para formação dos grupos de contemporâneos foram três: a primeira abrangeu animais nascidos nos meses de outubro a janeiro; a segunda animais nascidos nos meses de fevereiro a maio; e a terceira, aqueles que nasceram nos meses de junho a setembro. A definição dos grupos contemporâneos foi dada pela concatenação das variáveis: sexo; fazenda, ano e estação de nascimento; e fazenda e grupo de manejo aos 120, 210, 365 e 550 dias de idade.

Não foram considerados nas análises os animais produtos de transferência de embriões, as observações dos animais com pesos 3,5 desvios-padrão abaixo ou acima da média dos contemporâneos nem animais com idades acima de 616 dias ou abaixo de 425 dias no momento da coleta. Grupos contemporâneos com menos de quatro observações também foram eliminados das análises. Permaneceram no arquivo 1.367 animais com dados de estrutura corporal, precocidade e musculosidade, 2.128 animais com dados de altura do posterior e 2.255 com dados de peso ao sobreano (Tabela 1).

 

 

Os componentes de covariância e os parâmetros genéticos foram estimados por máxima verossimilhança restrita utilizando-se o programa Multiple Trait Derivative Free Restricted Maximum Likelihood (MTDFREML), descrito por Boldman et al. (1995). O critério de convergência foi considerado atingido quando a variância dos valores do logaritmo da função de verossimilhança foi igual ou menor que 10-9. Como há possibilidade de se obterem máximos locais, foram executadas reinicializações para assegurar a convergência no máximo global da função de verossimilhança.

Para estimação dos parâmetros genéticos das características de crescimento e escores visuais, utilizou-se um modelo linear bivariado que incluiu o efeito fixo classificatório de grupo contemporâneo e a idade do animal no momento da coleta como covariável com efeitos linear e quadrático.

O modelo utilizado pode ser descrito por: y = Xβ + Za + e em que: y = vetor das variαveis dependentes (escores visuais, peso ao sobreano e altura do posterior); X = matriz de incidência de efeitos fixos; β = vetor dos efeitos fixos (grupo de contemporâneos e covariável idade); Z = matriz de incidência de efeitos genéticos aditivos diretos; a = vetor de valores genéticos aditivos direto dos animais; e = vetor de efeitos residuais aleatórios.

Foram assumidas as seguintes pressuposições:

E (y) = X β

em que: e  = variâncias genéticas aditivas diretas;  = componente de covariância genética aditiva direta; e  = variâncias residuais; e  = componente de covariância residual entre as características; A = matriz de coeficientes de parentesco; e I = matriz identidade. Apesar de algumas das características terem sido avaliadas por escores, um modelo gausssiano linear foi empregado nas análises, uma vez que, segundo o teorema central do limite, quando há grande número de amostras, qualquer soma de variáveis aleatórias independentes e com mesma distribuição de probabilidade tende à distribuição normal. Escores visuais também foram avaliados com um modelo linear por Cardoso et al. (2001), Jorge Jr. et al. (2001), Jorge Jr. et al. (2004) e Forni et al. (2007).

 

Resultados e Discussão

A estimativa de herdabilidade do peso ao sobreano (Tabela 2) indica haver variabilidade genética suficiente para adoção dessa característica como critério de seleção. Entretanto, esse valor foi inferior ao encontrado por Koots et al. (1994), que relataram h2 média de 0,40 ± 0,12 para peso ao sobreano, referente a 184 trabalhos, a maioria das estimativas obtidas em estudos de populações de bovinos de origem europeia. Mercadante et al. (1995), em revisão de literatura sobre estimativas de herdabilidade do peso de zebuínos em diferentes idades, relataram estimativa média de 0,38 para o peso aos 550 dias de idade. Albuquerque & Meyer (2001) relataram estimativas de herdabilidade entre 0,20 e 0,26 para os pesos entre 550 e 600 dias de idade na raça Nelore. A herdabilidade da altura do posterior foi de média magnitude, como consequência da variabilidade genética para essa característica na raça Nelore. Esse resultado é superior ao relatado por Silva et al. (2003), de 0,30, e inferior aos obtidos por Cyrillo et al. (2001), de 0,58, e Pereira et al. (2004), de 0,46, também na raça Nelore.

 

 

As estimativas de herdabilidade obtidas para os escores visuais foram de magnitude média para estrutura corporal e de grande magnitude para musculosidade e, principalmente, para precocidade (Tabela 2) e podem ser justificadas pela grande variabilidade de tipos morfológicos na raça Nelore.

As herdabilidades estimadas para precocidade e musculosidade foram consideravelmente mais elevadas que as estimadas para outras características de crescimento, o que indica maior variabilidade genética nos escores visuais. Consequentemente, a resposta à seleção direta esperada para essas características deve ser superior àquelas esperadas para peso ao sobreano e altura do posterior. O escore de estrutura corporal está relacionado à estimativa visual da área do retângulo formado pelos lados, ao comprimento corporal e à profundidade de costelas. Escores iguais para estrutura corporal podem ser oriundos de diferentes tipos morfológicos, ou seja, animais altos, longilíneos e pouco profundos podem ter escore igual ou semelhante aos de animais mais baixos, mais curtos e bastante profundos quanto à distribuição das costelas (compactos). Desse modo, a visualização do tipo morfológico só é possível analisando simultaneamente os escores de precocidade e estrutura corporal.

A maior estimativa de herdabilidade da característica relacionada à precocidade está de acordo com os resultados obtidos por Jorge Jr. (2002) e Forni et al. (2007), que também relataram coeficiente de herdabilidade de maior magnitude para a característica precocidade que para outros escores visuais. A grande variabilidade genética de precocidade, que está relacionada à profundidade de costelas, pode ser consequência da disparidade na condução da seleção por diferentes criadores. Na década de 80, muitos selecionadores tiveram influência da referência do moderno novilho de corte, new type, que preconizava animais longilíneos, altos e de costelas pouco profundas (Santiago, 1983), caracterizando um tipo morfológico de peso adulto elevado, porém tardio em deposição de gordura subcutânea.

A estimativa de herdabilidade da característica musculosidade pode ser comparada a estimativas para a característica musculatura da metodologia CPM, descrita por Jorge Jr. et al. (2001) e Forni et al. (2007). O coeficiente de herdabilidade estimado para musculosidade está acima dos maiores valores observados para musculatura na raça Nelore, que variaram de 0,18 a 0,33 (Eler et al., 1996; Koury Filho, 2001; Van Melis et al., 2003; Cardoso et al., 2004). Essas diferenças podem ser atribuídas tanto às diferenças nas definições das duas características como à maior variabilidade genética na população estudada. Comparações também podem ser feitas com as estimativas de herdabilidade apresentadas por Cyrillo et al. (2001). Os resultados encontrados neste trabalho são similares aos relatados por esses autores, que analisaram características morfométricas em bovinos Nelore de 378 dias de idade e encontraram altas estimativas de herdabilidade e sugeriram que a contribuição da variância genética aditiva nas medidas fenotípicas corporais é suficientemente grande para tornar viável o emprego dessas características como critérios de seleção.

Nielsen & Willhan (1974) analisaram escores visuais de tipo em animais da raça Angus coletados durante 15 anos e encontraram estimativas de herdabilidade de moderadas a altas para animais classificados na mesma época, pelo mesmo avaliador e no mesmo rebanho. Esses autores relataram que, quando as análises consideraram épocas, rebanhos e avaliadores diferentes, as herdabilidades foram menores. Dessa forma, para inclusão de escores visuais em programas de seleção, é importante trabalhar com metodologia de avaliação simples e avaliadores adequadamente treinados para que se obtenha coleta de dados padronizada em diferentes rebanhos.

As estimativas de correlações genéticas entre as características estrutura corporal, precocidade e musculosidade foram todas positivas (Tabela 3). Entre precocidade e musculosidade, a correlação genética foi mais expressiva, uma vez que animais com fenótipos mais precoces apresentam maior desenvolvimento de massa muscular. Na raça Nelore, são encontrados animais altos, compridos e com costelas pouco profundas, resultando em avaliações visuais com escore alto para estrutura corporal e baixo para precocidade, o que pode parcialmente explicar a estimativa de correlação genética de menor magnitude entre estrutura corporal e precocidade.

 

 

A estimativa de correlação genética de 0,57 entre altura do posterior e estrutura corporal é indicativo de que a seleção de animais mais altos, ainda que indireta, também deverá promover aumento dos escores de estrutura corporal, favorecendo a permanência nos rebanhos de animais com maior estrutura corporal. Entretanto, as correlações genéticas negativas de média magnitude entre altura de posterior e precocidade e entre altura de posterior e musculosidade indicam que, nas idades avaliadas, a seleção de animais mais altos poderá conduzir a animais mais tardios em desenvolvimento de massas musculares e menos precoces em terminação.

A maior correlação genética estimada foi entre as características peso ao sobreano e estrutura corporal, o que era esperado, uma vez que estrutura corporal é uma avaliação visual da área do corpo do animal. Todas as correlações genéticas entre escores visuais e peso ao sobreano foram positivas e indicam que, na busca da identificação de animais equilibrados em suas medidas, é possível encontrar genótipos com desempenho superior em peso e com altos valores genéticos para estrutura corporal, precocidade e musculosidade. Assim, programas de seleção poderiam empregar os escores de estrutura corporal, precocidade e musculosidade como critérios para escolha de reprodutores, obtendo ganhos genéticos, tanto nessas características como em velocidade de crescimento. As estimativas de correlações residuais indicam associações entre efeitos genéticos não-aditivos e entre efeitos ambientais, não considerados no modelo que afetam a expressão das caracterísitcas.

 

Fonte: http://www.producao.usp.br/handle/BDPI/5650


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