Assum Preto, pobre pássaro!

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“Tudo em vorta é só beleza, sol de abril e a mata em flor, mas Assum Preto cego dos ‘óio’ não vendo a luz, ai, canta de dor”.

 

A primeira vez que ouvi esta música, interpretada pelo saudoso e carismático Luiz Gonzaga, quase chorei de pena desta pobre ave, tamanha malvadeza com a bichinha! É muita maldade do homem fazer uma judiaria dessa com um pássaro tão indefeso.

 

A princípio cheguei a pensar tratar-se de uma letra inventada para ter sucesso, através da comoção que gerava, mas depois de me informar melhor constatei que era um caso verídico. E isso acontecia com frequência no sertão do nordeste brasileiro.

 

Voltei ao passado e fiz uma retrospectiva da minha infância na roça, quando prendíamos pássaros canoros silvestres numa gaiolinha para, egoisticamente, ouvir seu canto. Neste caso, a avezinha era muito bem tratada, porque, para nós, ter um pássaro cantador era sinal de status.

 

Aos domingos, nos reunimos num local central da colônia, cada qual com sua gaiola, para mostrar e ouvir nossos prisioneiros dobrarem até ficarem cansados e de língua de fora. Voltávamos para casa felizes quando eles não nos decepcionavam. Recebíamos propostas de compra ou troca por outro pássaro. Eu nunca vendi um dos meus!

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Meu Canarinho da Terra parecia ficar triste quando via outro colega, livre e solto, se aproximar da sua gaiola. E eu percebia isso, mas não queria acreditar. Ele era meu tesouro, juntamente com meu cachorro de nome Tarzan.

 

“Sou aquele canarinho que cantava em sua janela. Eu voava livre fazendo serenata para minha amada. Hoje sou prisioneiro e vivo triste nesta gaiola”. Mais ou menos estas seriam as palavras que ele iria me dizer se falar pudesse, tal qual a letra de uma conhecida música sertaneja.

 

Voltamos ao Assum Preto. Trata-se de um belo pássaro de cor negra, que vive nas caatingas do nordeste e canta apenas à noite, quando já bastante escuro. O sertanejo, que leva uma vidinha apertada, passando necessidade muitas vezes, caça-o e prende numa gaiola.

 

Para vender aos turistas que por lá trafegam, visando alguns trocados para seu sustento, furam seus dois olhinhos com espinho de laranjeira, para que na escuridão eterna de sua cegueira, cante sem parar, dia e noite, encantando o incauto comprador.

 

Ao levá-lo para casa, nota que a pobre ave vai ficando jururu e emitindo apenas uns melancólicos assobios – prenúncio de uma morte próxima. Seu frágil corpo vai se definhando a cada dia e em breve estará morto de tristeza e de fome.

 

Mais um ser indefeso que alegrava a sinfonia da natureza foi-se embora. A quem reclamar? Não vem com garantia. O ingênuo comprador nem sequer sonha com a maldade feita ao pássaro. Foi enganado.

 

“Assum Preto, seu cantar é tão triste como o meu. Também roubaram o meu amor que era a luz dos ‘óios’ meus. Talvez por ignorância, ou maldade das ‘pió’, furaram os ‘óios’ do Assum Preto para ele assim cantar ‘mió’”.

 

Assim como o Assum Preto, as pessoas mais humildes deste mundo, muitas vezes, enxergam bem, mas não têm vozes para externarem seus sofrimentos. Ou têm vozes, mas lhes faltam palanque ou a quem reclamar. Sofrem caladas perante as injustiças e humilhações desta vida. E assim, durante nossa caminhada, vamos construindo nosso próprio universo.

 

Fonte: Osvaldo Piccinin.


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