Ozônio de queimadas gera perda indireta de carbono equivalente a cerca de 24% das emissões diretas do fogo na Amazônia

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Para Quem Tem Pressa

Um estudo internacional publicado na revista Communications Earth & Environment estimou que o ozônio troposférico formado a partir de emissões de queimadas reduz a absorção de carbono pela vegetação amazônica. No período analisado, essa perda indireta foi equivalente, em média, a cerca de 24% da magnitude das emissões diretas de carbono provocadas pelos incêndios, com variação estimada entre 18% e 35%.

Ozônio de Queimadas Amplia Perdas de Carbono na Amazônia em 24%

As queimadas no bioma amazônico provocam um prejuízo à dinâmica de carbono que vai além das chamas visíveis e das emissões imediatas de fumaça. Uma pesquisa conduzida por cientistas do Reino Unido e do Brasil estimou que o ozônio superficial gerado por incêndios reduz a capacidade das árvores de absorver dióxido de carbono (CO₂). A perda indireta de carbono associada a esse efeito correspondeu, em média, a cerca de 24% da magnitude das emissões diretas dos incêndios no período analisado.

O trabalho, publicado em 2026 no periódico científico Communications Earth & Environment, analisou o período de 1997 a 2024 e contou com a participação de pesquisadores de instituições internacionais e da Universidade de São Paulo (USP), incluindo o físico Paulo Artaxo. A análise revelou que os danos causados pelo ozônio à vegetação representam uma via indireta determinante de perda de estoques de carbono no ecossistema tropical.

O ozônio ao nível do solo não é emitido diretamente pelas chamas. Trata-se de um poluente secundário, sintetizado na atmosfera quando a luz solar induz reações químicas entre compostos orgânicos voláteis e óxidos de nitrogênio ($NO_x$), substâncias liberadas em larga escala durante a combustão de biomassa florestal. Uma vez presente na camada mais baixa da atmosfera, o ozônio penetra nos tecidos vegetais por meio dos estômatos — estruturas microscópicas nas folhas responsáveis pelas trocas gasosas essenciais à fotossíntese.

Dentro das folhas, a ação oxidante do poluente provoca lesões celulares, acelera o envelhecimento foliar e reduz a eficiência fotossintética da copa. Na Amazônia, onde a vegetação densa opera com elevada taxa de trocas gasosas, a floresta torna-se biologicamente sensível à entrada contínua do gás tóxico durante os períodos de queima.

O colapso do escudo vegetal durante secas severas

Em condições normais de déficit hídrico, as árvores recorrem a um mecanismo fisiológico de defesa: fecham parcialmente os estômatos para evitar a perda excessiva de água pela transpiração. Teoricamente, esse fechamento estomático atuaria como uma barreira protetora física contra a absorção de poluentes do ar circundante, incluindo o ozônio.

No entanto, as simulações do estudo — baseadas no modelo de superfície terrestre JULES integrado a dados atmosféricos do modelo climático UKESM1 e validações satelitais — indicaram que secas extremas rompem esse equilíbrio de proteção. Nos anos de estiagem prolongada e alta concentração de focos de incêndio, o volume de poluentes gerado na atmosfera atinge patamares tão elevados que sobrepõe a restrição estomática.

Essa dinâmica ficou evidenciada durante secas históricas impulsionadas pelo fenômeno El Niño, como as de 1997/1998, 2015/2016 e, de maneira expressiva, no biênio 2023/2024. O ano de 2024 destacou-se pelo registro de picos históricos de emissões de fogo, resultando em concentrações atípicas de ozônio que superaram a defesa foliar e ampliaram o fluxo do poluente para o interior da vegetação no sul e sudoeste amazônico.

Foco de queimadas no Arco do Desmatamento multiplica o estresse florestal

O comportamento das queimadas e de seus efeitos químicos varia de forma nítida entre o norte e o sul da bacia amazônica. Na faixa norte (entre 11°N e 0°), as queimadas do começo do ano (janeiro a abril) provocam altas discretas de ozônio, permitindo que a resposta de estresse hídrico da planta amenize parte dos danos à folhagem.

O panorama se inverte criticamente na porção sul (entre 0° e 21°S), no intervalo de julho a outubro, período em que as queimadas se concentram na faixa conhecida como Arco do Desmatamento. Nessa fronteira, a ação humana e o uso recorrente do fogo em áreas degradadas e de expansão agrícola geram núcleos permanentes de queimadas que escapam para matas vizinhas.

Nessa área meridional, a fumaça persistente das queimadas agrava drasticamente a perda de produtividade primária líquida da floresta. Durante o mês de agosto, no pico da temporada de fogo, o impacto metabólico do ozônio gerado pelas queimadas chega a responder por metade (50%) de todo o prejuízo vegetativo ocasionado pelo próprio déficit de chuvas.

A margem de incerteza do efeito das queimadas sobre as perdas induzidas de carbono oscila entre 18% e 35% do total de emissões do fogo, refletindo a sensibilidade biológica de diferentes espécies arbóreas. O diagnóstico dos cientistas ressalta que frear o desmatamento não basta: conter ativamente as queimadas e o manejo predatório com fogo em florestas degradadas é imperativo para proteger o ciclo de carbono da Amazônia e estancar perdas invisíveis na atmosfera.

fonte/crédito: Imagem destacada ilustrativa gerada por IA.

Communications Earth & Environment — https://www.nature.com/articles/s43247-026-04047-0


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