O erro silencioso que faz a silagem de milho perder eficiência

Usar apenas silagem de milho para engordar o gado pode aumentar custos e reduzir desempenho. Entenda os riscos e como corrigir a dieta.

Para quem tem pressa

A silagem de milho para engordar o gado é uma excelente fonte de energia, mas não deve ser utilizada sozinha em sistemas de terminação intensiva. Apesar da alta presença de grãos e da boa digestibilidade, o volumoso apresenta deficiência de proteína bruta, limitando o desempenho ruminal e o ganho de peso. O resultado pode ser o aumento do tempo de confinamento, pior conversão alimentar e elevação do custo da arroba produzida. Especialistas alertam que o equilíbrio entre energia e proteína é indispensável para alcançar ganhos superiores a 1,5 kg por dia e garantir rentabilidade na pecuária de corte.


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Silagem de milho para engordar o gado: o erro silencioso que reduz o lucro

Quando o produtor abre o silo e encontra uma forragem aromática, bem compactada e rica em grãos, a impressão inicial costuma ser extremamente positiva. Afinal, poucos investimentos oferecem tanto potencial produtivo quanto uma silagem bem feita.

No entanto, confiar exclusivamente na silagem de milho para engordar o gado pode se transformar em uma das falhas mais comuns e custosas da pecuária moderna.

Embora o milho ensilado apresente excelente valor energético, ele não atende sozinho às exigências nutricionais dos bovinos de alta performance. Essa dependência exclusiva do volumoso frequentemente cria um gargalo nutricional capaz de comprometer o ganho de peso e reduzir significativamente a rentabilidade da atividade.


O mito da autossuficiência da silagem

A evolução tecnológica das lavouras de milho permitiu que produtores colhessem materiais cada vez mais produtivos, com elevada participação de grãos e alta digestibilidade.

Esse avanço, porém, gerou um efeito colateral perigoso: a crença de que a silagem seria capaz de sustentar todo o processo de terminação sem complementação nutricional.

Segundo o zootecnista e consultor Rogério Coan, esse raciocínio representa um erro biológico recorrente dentro das propriedades rurais.

Para que um animal alcance ganhos médios diários (GMD) superiores a 1,5 kg ou 1,6 kg — índices considerados fundamentais para a viabilidade econômica dos confinamentos modernos — o rúmen necessita de um equilíbrio rigoroso entre energia e proteína.

A silagem de milho para engordar o gado, por melhor que seja sua qualidade, não consegue fornecer sozinha essa combinação.


O apagão proteico que limita o desempenho

O principal problema está na deficiência de nitrogênio disponível para os microrganismos ruminais.

Análises bromatológicas realizadas por instituições de pesquisa, como a Embrapa, demonstram que a silagem de milho possui elevada concentração de carboidratos não fibrosos, especialmente amido, além de bons níveis de Nutrientes Digestíveis Totais (NDT).

Por outro lado, apresenta baixo teor de proteína.

Perfil nutricional típico

  • Proteína Bruta (PB): entre 6% e 7% da matéria seca;
  • Exigência para terminação intensiva: entre 12% e 14% de PB na dieta total;
  • NDT: aproximadamente 70%;
  • Fibra em Detergente Neutro (FDN): cerca de 43%.

Essa diferença cria um desequilíbrio nutricional importante.

Sem proteína suficiente, as bactérias do rúmen perdem eficiência para degradar a fibra presente na própria forragem. Como consequência, ocorre redução na digestão, queda na taxa de passagem dos alimentos e diminuição do consumo voluntário.

Comparação nutricional

ComponenteSilagem IsoladaMeta para Alta PerformanceConsequência
Proteína Bruta6% a 7%12% a 14%Menor síntese muscular
Energia (NDT)Cerca de 70%Acima de 75%Energia sem aproveitamento ideal
Fibra (FDN)Aproximadamente 43%25% a 30%Limitação do consumo diário

Por isso, utilizar apenas silagem de milho para engordar o gado significa desperdiçar parte do potencial energético presente na dieta.


Como surge o efeito “boi sapo”

Quando há excesso de amido e deficiência de proteína, o metabolismo animal passa a apresentar limitações importantes.

Sem quantidade adequada de aminoácidos circulantes, o organismo encontra dificuldades para formar tecido muscular.

Nesse cenário, a energia consumida deixa de ser direcionada prioritariamente para a construção de carne e passa a favorecer o acúmulo precoce de gordura.

É justamente daí que surge a expressão popular “boi sapo” ou “boi tijolo”.

O animal ganha acabamento, mas não desenvolve uma estrutura muscular proporcional ao peso adquirido.

Em outras palavras, engorda sem eficiência.


Os impactos financeiros dentro da fazenda

Os prejuízos provocados pelo desequilíbrio nutricional vão muito além da perda de desempenho zootécnico.

Quando a silagem de milho para engordar o gado é utilizada sem suplementação adequada, diversos indicadores econômicos são afetados.

Aumento do tempo de cocho

O ciclo de terminação pode se prolongar por várias semanas além do previsto inicialmente.

Piora da conversão alimentar

O bovino passa a consumir mais matéria seca para produzir cada quilo adicional de peso vivo.

Crescimento dos custos operacionais

Mais dias no confinamento significam aumento de despesas com:

  • Alimentação;
  • Mão de obra;
  • Energia;
  • Sanidade;
  • Custos financeiros.

O resultado final aparece diretamente no custo de produção da arroba.


Como utilizar corretamente a silagem de milho

A estratégia mais eficiente consiste em reposicionar a silagem de milho para engordar o gado dentro do sistema nutricional.

Ela deve ser vista como uma excelente fonte de fibra de qualidade e energia, responsável por manter o ambiente ruminal saudável.

Entretanto, o restante das exigências nutricionais deve ser atendido por ingredientes concentrados.

Experiências práticas observadas em propriedades rurais, incluindo o caso do produtor Roque Zeniar, mostram que o melhor aproveitamento do milho cultivado depende da associação com dietas balanceadas.

Fontes proteicas recomendadas

Consultores especializados apontam a necessidade de combinar a energia da silagem com ingredientes que forneçam proteína de rápida e lenta degradação no rúmen, como:

  • Farelo de soja;
  • Farelo de algodão;
  • Ureia protegida.

Além disso, a formulação deve incluir:

  • Macrominerais;
  • Microminerais;
  • Ionóforos;
  • Leveduras e outros aditivos melhoradores de desempenho.

Essa combinação permite que os microrganismos ruminais utilizem melhor a energia disponível e transformem nutrientes em ganho de peso eficiente.


Planejamento e assistência técnica fazem a diferença

Possuir uma silagem de alta qualidade representa uma vantagem estratégica importante para qualquer propriedade.

Ela reduz a dependência de volumosos adquiridos externamente e melhora a previsibilidade do sistema produtivo.

No entanto, o desempenho máximo não será alcançado apenas com o conteúdo armazenado no silo.

Especialistas recomendam que produtores, especialmente em regiões de forte expansão da pecuária intensiva como a Serra Gaúcha, abandonem práticas baseadas apenas na experiência empírica.

A análise bromatológica da forragem e o acompanhamento de um nutricionista ou técnico especializado permitem construir dietas ajustadas à realidade de cada propriedade.

Ao equilibrar corretamente energia e proteína, o produtor potencializa o ambiente ruminal, melhora o ganho médio diário e garante que cada tonelada de silagem seja convertida em arrobas produzidas com maior eficiência e lucratividade.

Imagem principal: YouTube.

Douglas Carreson

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