Seguro rural: Com verba do PSR reduzida a R$ 473,8 milhões, área protegida deve recuar a 2,7 milhões de hectares — menos de 3% da totalidade plantada. Produtores recorrem a hedge na B3.
PARA QUEM TEM PRESSA
- O orçamento do PSR para 2026 foi reduzido de R$ 1,01 bilhão para cerca de R$ 473,8 milhões — menos da metade do valor inicialmente previsto
- Estimativa da FGV Agro aponta área protegida de aproximadamente 2,7 milhões de hectares, ou menos de 3% da área cultivada nacionalmente
- Em 2021, o programa cobriu 14 milhões de hectares com 217,9 mil apólices; em 2025, caiu para 3,2 milhões de hectares e 61,6 mil apólices
- Produtores e bancos recorrem a derivativos e operações de hedge na B3 para mitigar risco de frustração de safra e inadimplência
- Nova legislação sancionada em setembro/2026 torna verba do PSR de execução obrigatória e fixa prazo de 30 dias para indenizações
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Com orçamento contingenciado, seguro rural não chega a 3% da área cultivada no Brasil
A safra de verão 2026/27 terá cobertura securitária pública em patamar historicamente baixo. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), gerido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), conta com disponibilidade reduzida de recursos, o que limita a capacidade de contratação de apólices subsidiadas pelos produtores. Dados da FGV Agro e do próprio Mapa indicam que a proporção de área protegida não chegará a 3% do total plantado de grãos no país, forçando o setor a buscar mecanismos alternativos de proteção.
Orçamento do PSR em 2026: Dotação reduzida
A Lei Orçamentária Anual previa originalmente R$ 1,01 bilhão para o PSR em 2026. Contudo, sucessivos bloqueios e ajustes fiscais reduziram o valor disponível para aproximadamente **R$ 473,8 milhões**, conforme levantamento do Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV Agro.
Parte dos recursos foi distribuída pela Resolução CGSR nº 110/2026, que aprovou o aporte de R$ 100 milhões para liberação parcelada em maio, agosto e novembro de 2026. A dotação total do programa no ano chegou a R$ 935,6 milhões, mas cerca de R$ 461,7 milhões permanecem contingenciados.
Cobertura: recuo contínuo desde 2021
A restrição orçamentária acelera uma queda que já vinha ocorrendo nos últimos anos:
| Ano | Apólices contratadas | Área segurada (com PSR) | Fonte |
|---|---|---|---|
| 2021 (recorde) | 217,9 mil | 14,0 milhões de hectares | Mapa / FGV Agro |
| 2024 | ~86,4 mil | 7,1 milhões de hectares | Mapa |
| 2025 | 61,6 mil | 3,2 milhões de hectares | Mapa / FGV Agro |
| 2026 (projeção) | Dado não confirmado | ~2,7 milhões de hectares (~2,8% da área nacional) | FGV Agro |
A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) classificou a cobertura de 2025 como a menor parcela da área plantada desde 2006. A área total cultivada no Brasil supera 97 milhões de hectares.
Recursos por cultura e subvenção diferenciada
Não há divulgação oficial consolidada do montante do PSR distribuído por cultura para todo o exercício de 2026. O que se sabe é que o projeto-piloto de subvenção diferenciada por nível de manejo do solo (ZarcNM) destinou R$ 1 milhão para soja e R$ 1 milhão para milho safrinha, totalizando R$ 2 milhões.
Os percentuais de subvenção variam conforme a cultura:
| Cultura | Faixa de subvenção PSR |
|---|---|
| Soja | até 40% (até 40% no ZarcNM nível máximo) |
| Milho 1ª safra | até 40% |
| Milho safrinha | até 35% (até 50% no ZarcNM nível máximo) |
| Fruticultura e outras | até 40% |
Fontes: Mapa, FGV Agro, FAEP
Mercado recorre a hedge financeiro na B3
Com a baixa cobertura do seguro público, produtores rurais e instituições financeiras credoras passaram a ampliar o uso de instrumentos de proteção no mercado de capitais. Operações de venda antecipada de contratos futuros de soja, milho e boi gordo na B3 ganharam adesão como alternativa para fixar receita e mitigar risco de inadimplência em caso de frustração de safra.
A diferença fundamental entre os mecanismos é que o seguro rural indeniza perdas de produtividade comprovadas, enquanto o hedge protege o preço do produto, independentemente do volume colhido. Nenhum dos dois substitui o outro, mas a escassez de recursos do PSR tem reduzido o acesso à primeira opção.
Novo marco legal: Proteção orçamentária e prazo de indenização
Em 29 de setembro de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.526/2026, que aperfeiçoa o marco regulatório do seguro rural. As principais mudanças são:
- Recursos destinados à subvenção passam a ter execução obrigatória, não podendo ser bloqueados ou contingenciados;
- Prazo máximo de 30 dias para liquidação de indenizações após entrega da documentação;
- Reforma do fundo de cobertura suplementar para perdas de grande dimensão.
A regulamentação de detalhes ficará a cargo do Poder Executivo e da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP).
Conclusão
A safra 2026/27 inicia com a menor cobertura de seguro rural subsidiado em duas décadas. A nova legislação traz garantias estruturais para o futuro, mas não reverte a limitação de verba já aplicada neste exercício. Enquanto o PSR não dispuser de orçamento compatível com a área cultivada, a proteção da renda do produtor permanecerá concentrada no mercado privado e em instrumentos financeiros, de acesso mais restrito.
Fontes
Mapa, FGV Agro / Observatório do Crédito e Seguro Rural, SUSEP, CNseg, Lei nº 15.526/2026, Folha de S.Paulo
Imagem principal: Depositphotos
