Para Quem Tem Pressa
Pesquisadores da organização Ranita de Darwin registraram, na Reserva Elemental Melimoyu, na Patagônia chilena, um indivíduo de rã-de-Darwin (Rhinoderma darwinii) com um padrão de coloração azul totalmente inédito. Trata-se do único registro com essa tonalidade nos doze anos de monitoramento do projeto. A descoberta lança luz sobre a relevância da preservação dos anfíbios no ecossistema sul-americano, que enfrentam declínios populacionais drásticos causados por doenças fúngicas e perda de habitat natural.
O registro inédito na Patagônia chilena
Durante um trabalho de campo na Reserva Elemental Melimoyu, situada na região de Aysén, no sul do Chile, o pesquisador e fotógrafo Jaime Beltrand avistou um anfíbio que se destacava na vegetação local por seu tom azulado. Ao observar o animal de perto, identificou tratar-se de um macho de rã-de-Darwin.
Até então, os registros científicos da espécie documentavam apenas indivíduos com coloração esverdeada ou castanha. O espécime capturado para medição e análise apresentou 27 milímetros de comprimento e peso de 1,83 gramas. Tratava-se de um macho em pleno período reprodutivo, carregando cerca de quatro girinos em seu desenvolvimento.
A descoberta surpreendeu a equipe técnica. Nos doze anos de atuação contínua da organização Ranita de Darwin na região, nenhum padrão de pigmentação semelhante havia sido observado na população local.
A biologia singular da rã-de-Darwin
Descrita pelo naturalista britânico Charles Darwin durante suas expedições pela América do Sul, a Rhinoderma darwinii habita as florestas temperadas do Chile e da Argentina. O anfíbio destaca-se no reino animal por possuir um sistema reprodutivo altamente especializado e único entre os anfíbios.
O processo é conhecido na biologia como neomelia. Após a fêmea depositar os ovos na ninhada, o macho assume a responsabilidade pela prole. Ele recolhe os ovos fertilizados e os transfere para o interior do seu saco vocal. Durante cerca de oito semanas, os girinos permanecem protegidos dentro da estrutura corporal do pai até completarem a metamorfose. O término do processo ocorre quando as pequenas rãs já formadas saem por uma abertura sob a língua do macho.
Na mesma família taxonômica, além da Rhinoderma darwinii (conhecida como rã-de-Darwin-do-sul), existia a rã-de-Darwin-do-norte (Rhinoderma rufum), espécie categorizada em perigo crítico de extinção e por vezes considerada por especialistas como possivelmente extinta na natureza.
Ameaças de extinção e o avanço da quitridiomicose
Apesar da resiliência ecológica da espécie em ambientes preservados, as populações da rã-de-Darwin enfrentam graves declínios biológicos em toda a sua área de distribuição. O principal fator de ameaça é a disseminação do fungo Batrachochytrium dendrobatidis, patógeno responsável pela quitridiomicose.
A doença afeta a pele dos anfíbios, comprometendo a respiração cutânea e a regulação hídrica dos animais, o que leva a taxas de mortalidade extremas. No Parque Tantauco, localizado no sul do Chile, a proliferação do patógeno provocou um colapso populacional estimado em 90% das rãs-de-Darwin em um intervalo de apenas doze meses.
Além da quitridiomicose, fatores antropogênicos como o desmatamento, o aumento dos incêndios florestais e a fragmentação dos ecossistemas nativos na Patagônia reduzem continuamente os microhabitats necessários para a sobrevivência desses animais.
Ações internacionais e planos de conservação
Diante do risco iminente de colapso das populações remanescentes, diversas instituições de pesquisa e órgãos governamentais estruturaram programas de conservação direcionados. Em 2024, um grupo de rãs-de-Darwin foi transferido para o Zoológico de Londres, no Reino Unido, estabelecendo uma população de segurança sob manejo controlado para apoiar programas futuros de reintrodução.
Em âmbito regional, formalizou-se a Estratégia Binacional de Conservação das Rãs-de-Darwin, que integra mais de 20 instituições do Chile, Argentina, Reino Unido e Alemanha. O plano estabelece metas de manejo e mitigação de ameaças programadas para execução entre os anos de 2026 e 2040.
Especialistas ligados à Administração de Parques Nacionais da Argentina e ao Grupo de Especialistas em Anfíbios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) destacam que a proteção contínua desses microhabitats é indispensável para assegurar a permanência da espécie na fauna patagônica.
imagem: IA

