BOI E DÓLAR: O PÔBLEMA NÃO É CÂMBIO, É DIFERENCIAL
A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”.
Um dia, uma carreta boiadeira da cidade de São José do Rio Preto-SP, quebrou quando fazia um frete lá para as bandas de Barra do Garças-MT, pois teve o seu diferencial estourado. Naquele tempo, sem celular, na base do “rádio amador de 40m”, o motorista falava com a base, em terras paulistas: “O Zé vai sair daí amanhã vazio para vir carregar aqui no MT. Como ele vai subir vazio, manda ele trazer um diferencial para mim, porque o meu quebrou”.
E o sujeito, lá de SP, respondia: “Positivo, vou falar para ele levar. Câmbio!”. Em seguida o carreteiro desafortunado respondia: “O pôblema não é câmbio, é diferencial”, ao que em seguida, ouvia: “Positivo, eu entendi! Câmbio”… E as duas últimas frases foram repetidas, em sequência, mais de uma dezena de vezes, gerando muita risada Brasil afora, em quem sintonizava aquela frequência…
E o bovino com tudo isto, afora o fato de ter atrasada a sua viagem pelo problema mecânico? Vamos ver abaixo?
1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?
A mesma pergunta da semana passada pode ser refeita: “estaria a estabilidade querendo ceder seu lugar para a alta no mercado do boi”? E a resposta é a mesma: a estabilidade, com leve viés pontual para cima é a tendência que permanece (tendência flat). E a melhor argumentação são números: nos últimos 30d, o boi subiu R$ 1,07/@, base indicador à vista.
O indicador partiu na segunda passada de R$ 142,53/@ (variando de R$ 139 a R$ 145,50) e pousou na sexta em R$ 142,79/@ (variando de R$ 140 a R$ 144), fechando a terceira semana seguida em alta numérica na arroba, que na nossa escala, caracteriza a tal estabilidade.
No mercado físico, tivemos o preço do final da semana entre R$ 140 a R$ 144/@ à vista, com o R$ 145, bem mais pontual. Trocando em miúdos, R$1/@ de alta, na mínima e na máxima. Na “terra do tuiuiú”, o MS, ficou mantido o R$ 135/@.
Segue, portanto, o que falamos há umas semanas: a escala “aperta” um pouco, o comprador sobe “R$ 1/@”, em seguida, aparece mais boi e ele volta a se recolher. É o esquema “pagou um pouco melhor, achou um pouco mais”. Nas últimas semanas, foi assim, embora realmente tenha havido menor disponibilidade de boiadas terminadas e sobretudo menor liquidez no mercado.
Finalmente, quanto às escalas paulistas, o dia “DIA D” está bem heterogêneo, com plantas frigoríficas para o dia 14 e outras até o dia 21/09. O STATUS DO BEEFRADAR congelou no padrão flat, e a sua bússola segue um pouco mais deslocada para a alta:
22.5% queda (leve) : 45% estabilidade : 32.5% para alta (leve)
2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?
A “toada de alta” do boi da terra do pequi segue igual a “cadela de cego”, ou seja, bem “mansinha”. Mas, vai indo, o que é ótimo, já são R$ 6/@ de alta nos últimos 30d. O balcão reagiu mais R$2/@ na semana passada, chegando ao intervalo de R$132/@av x R$ 134/@ap, com prêmio EU entre R$ 0 a R$ 2/@ e adicional “personalité” de R$ 1/@. Mercado bem especulado e com elevada expectativa de reação de preços por parte do vendedor.
As escalas seguem entre 14 a 17/set, em sua maioria, enquanto que o diferencial (de base, não o da carreta, hehehe), teima em não romper a barreira dos R$ 10/@. A vaca segue colada ao boi, oscilando entre 4 a 4.5% de deságio.
3) HORA DO QUILO: E a Fazenda Figueira, invadida pelo MST? Até quando?
4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: vamos nessa campanha em prol da nossa imagem?
http://sites.beefpoint.com.br/mcavalcanti/campanha-pro-pecuarista-marketing/
5) O LADO “B” DO BOI:
5.1.) A LAMBANÇA SEM FIM
Esta semana foi “campeã” no cenário político-econômico. Começamos com a proposição por parte do governo de um orçamento para 2016 com um rombo de 30.5 bilhões.
No meio da semana nosso vice-presidente, em um evento organizado por uma socialite ligada aos movimentos “Fora Dilma”, afirmou que é muito difícil que o poder executivo termine seu mandato em meio a níveis tão baixos de popularidade, e que, caso isto ocorra, ele pode ir para a casa feliz.
Quem especulou-se que estava indo para a casa agora mesmo, foi o Ministro Levy, o qual diz agora, abertamente, que teme pela redução da nota do País…
Com o cenário político jogando areia no já conturbado cenário econômico, quem sobe é o dólar, chegando a pouco menos de R$ 3.90… Reflexos para quem?
5.2.) REFLEXOS PARA A AGRICULTURA
Companheiros relatam que não tem dormido com o preço dos adubos em alta para a safra 15/16 e tem razão pois esta safra terá a maior alta de um ano para o seguinte, desde o início do plano real. Veja: http://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/soja/161282-safra-2016-tera-a-maior-alta-historica-nos-custos-de-producao.html#.Ves7-xFViko
Já tem fazendas que terminaram o plantio de milho para silagem no centro-sul do Brasil, mas são pouquíssimas. E o custo da comida para 2016? Comida de boi e de gente?
Com o dólar em alta, o milho grão sobe firme no mercado (mais até que o boi), com a precificação de uma melhor exportação. Com isto, chegamos na menor relação de troca deste ano nesta última sexta-feira (4.83 sc de milho/@ base à vista, SP).
5.3.) REFLEXOS PARA A PECUÁRIA
O número que soa alto na cabeça do pecuarista e do mercado é que a arroba brasileira está cotada por cerca de USD 37/@, enquanto nossos concorrentes têm preço de USD 45 a 85/@. Da mesma forma que o boi, a Bolsa do Brasil tem o menor preço em dólares desde 2005.
O mercado futuro, alavancado por posições compradas de fundos de investimentos e de bancos (e também por uma liquidez muito baixa), vai precificando a arroba firme, com alta de R$3 até o final do mês e de quase R$ 10 até o final do ano. Enquanto isto, o físico tem mostrado uma força menor, pois subiu R$1/@ nos últimos 30 dias. É assim mesmo, “treino é treino e jogo é jogo”.
O fato é que este boi de R$ 150/@ (cotação do futuro para o mês de novembro) atende, na nossa análise, pelo nome de oportunidade de venda. Mas porquê? A exportação não pode ser bombada com esta melhora de competitividade externa, como precifica o mercado futuro? A resp.: sim, deve ser melhorada em 2015, mas principalmente em 2016. É fato que podemos ver uma certa recuperação da exportação ainda em 2015, isto é sim possível, mas ainda estamos com queda de aproximadamente 19% no volume exportado dos oito primeiros meses do ano. Uma recuperação plena é um tanto distante e muito improvável. É assim também que está projetando o USDA, veja no link: http://www.beefpoint.com.br/cadeia-produtiva/giro-do-boi/usda-projeta-recuperacao-das-exportacoes-brasileiras-de-carne-bovina/
E isto é uma ótima notícia! Melhorar a exportação é sim uma ótima notícia, mas tem poucas possibilidades de melhorar a precificação da @ no curto prazo. É como se estivéssemos com pneumonia e alguém nos estivesse dando um ótimo antiácido. O antiácido é bom, é dos melhores, mas não cura a nossa pneumonia.
O nosso problema central é a falta de oxigênio nas economias dos Países que compram nossa carne, tais como a Rússia, a Venezuela e até a China, vista até então como o nosso futuro oásis de vendas, e que agora flerta com redução do tamanho de sua economia (fala-se até em uma década perdida para a avicultura chinesa, o que favorecerá o frango do Brasil e é até uma boa notícia para o bovino, pois ajuda a enxugar a oferta desta proteína alternativa).
De fato, as economias citadas, grandes importadoras de nossa carne, têm sentido vários problemas parecidos os nossos, além da profunda queda do valor do barril do petróleo, fato que compromete o pilar de sustentação daqueles países.
Esta é a falta de oxigênio a que me refiro. É a redução do poder de compra dos nossos importadores, o que também ocorreu por uma sensível desvalorização de suas moedas. Isto aniquila a nossa melhora de competitividade, em alguns casos, em até 100%. O fato ocorreu até com a moeda chinesa recentemente.
Em outras palavras, reforçamos: estamos tomando um ótimo remédio para a doença errada. Mas, como o remédio é ótimo, ele vai fazer algum efeito, só que lá para 2016.
O problema que impede uma nova decolagem da arroba, por mais que haja oferta restrita com potencial de direcionamento neste sentido, não é uma azia (câmbio), mas sim, uma pneumonia (economia em dificuldades, sem ar). Portanto, não adianta tomar antiácido (câmbio desvalorizado).
Temos que lembrar que a redução da nossa exportação obriga a venda desta carne no mercado interno, o qual sofre dos mesmos problemas de nossos importadores, sem esquecer a alta inflação, fatos que nos remetem a uma demanda muito pressionada por aqui também.
Portanto, da mesma forma que a carreta boiadeira citada no início deste, o nosso problema não é câmbio (desvalorizado), mas sim, diferencial, no caso, diferencial a menor em termos de potencial de demanda, tanto do ponto de vista interno, quanto externo.
Se a peça fundamental, o nosso “diferencial” (demanda interna e externa) der sinais de melhora (o que não é fácil, tampouco muito provável), aí sim, a carreta boiadeira pode levar o bovino para muito além dos excelentes e estáveis* patamares de preços vigentes (*flat com leve viés para cima).
Que sua semana seja regada a muito convívio familiar, muito sucesso e a uma paz tranquilizadora.
Fonte: BeefPoint, Por Rodrigo Albuquerque e Ricardo Heise.

