Pecuária brasileira: Demanda, mercado e preço
VAMOS ABATER A CAÇA. DEPOIS A GENTE DISCUTE QUEM COME O FILET.
NOTÍCIAS DO FRONT
A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”.
Prezados Companheiros,
Esta semana eu vi uma citação de um criador reclamando dos invernistas que ficam torcendo para o preço do bezerro cair. Vi também um invernista se colocando em posição antagônica e diametralmente oposta à indústria frigorífica, posicionando os lados como céu e inferno.
Entendo estes posicionamentos. Entendo-os, mas não concordo com os mesmos. Realmente, os integrantes da cadeia tem motivos/ambições comerciais opostas. Mas, acho que é hora de a cadeia agir como uma cadeia, ou seja: todos os elos se posicionarem como uma grande corrente. Se um elo cair, a corrente toda cai. Sim, isto pode ser utopia e um pouco de inocência de minha parte. Mas não consigo imaginar que seja produtivo primeiro discutir quem vai comer o filet mignon antes mesmo de se abater a caça.
Vamos primeiro colocar a caça no chão, e aí sim, vamos passar discutir quem de nós vai comer a carne do traseiro dela. Caso contrário, corremos nós mesmos o sério risco de ter o nosso traseiro…, rs. Bom deixa para lá. Vamos aos fatos da semana.
1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?
O nosso indicador, mais precisamente a sua máxima está dando pano para manga. Ela está vindo no estilo “tô rico, tô pobre”, variando muito de um dia para o outro. Parte disto é potencializado pela baixa liquidez do mercado, mas seria só isto? Polêmicas à parte, o indicador saiu de R$ 140,94/@ (variando de R$ 140,25 a R$ 141,25) e subiu para R$ 141,41/@ (variando de R$ 136,50 a R$ 146,50).
Foi uma queda de quase R$ 4/@ na mínima e uma alta de quase R$ 5/@ na máxima, fazendo o intervalo de preços ficar no estilo “boca de jacaré com sono”. São praticamente R$ 10/@ de variação, dentro da base SP? Muito não???
De toda a forma, em linhas gerais, está ocorrendo o que falamos na semana passada: “a onda de ajuste de preço já parece ter feito seu maior curso”. É fato!
No físico do final da semana era ainda comum o R$ 137 (indústrias maiores) até o R$ 142 (indústrias menores) por @, base SP, à vista. Nada de alterações portanto, nesta semana passada. O mesmo na “terra do tuiuiú”, o MS, onde se manteve o nível de R$ 135/@ ap.
O “cinturão de soldado” deu uma arroxada e as escalas paulistas encurtaram um tanto. Estão entre 06/ago (próxima quinta) à 11/ago (outra terça). Assim, o dia “DIA D” cai para 4.5 dias úteis (entre o dia do acordo da venda e o abate).
O STATUS DO BEEFRADAR mostra a tendência de alta maior que de baixa depois de semanas na posição inversa. Mas nada de euforia. O rumo mais provável é a estabilidade:
25% queda (leve) : 45% estabilidade : 30% para alta (leve).
2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?
Os “comedores de pequi” vão até tirar uns grãozinhos do freezer para comemorar. Nada de euforia também, mas o balcão, depois de semanas caindo, resolver dar uma “arribadinha”. Agora aponta para R$126/@ av x R$ 128/@ ap, mas com uma ótima novidade: a volta do personalitè, de R$ 1 ou até R$ 2/@. Porém, o prêmio EU ainda anda escasso.
As escalas, antes consistentemente mais folgadas que SP, já começam a mostrar plantas sem fechar a semana, mudando o contexto. Porém, outras unidades avançam para o meio do mês. É o “estilo boca de jacaré” aqui também.
Quanto aos diferenciais, o da vaca x boi, não muda a tendência, o que só deve ocorrer após o início das chuvas (deve permanecer entre 4 e 5% de deságio). Já o diferencial de base GO x SP, abriu mais, está em quase –R$ 14/@, na média semanal. O recorde do ano foi nesta terça, -R$ 14,28/@, o que mostra que são as bases (GO, MG, RO, MT, dentre outros) que sustentam a baixa do boi no curto prazo. Olho atento no encurtamento das escalas destes estados.
3) HORA DO QUILO:
Como pode? Esta semana recebi uma ligação de uma empresa vendendo produto veterinário de qualidade duvidosa pelo telefone, do prefixo daquela cidade que você já sabe qual é. E a conversa, com menos de 10 segundos, iniciou com a oferta de um canivete para mim. Ainda devem vender, porque isto existe aos montes, mas é uma forma absolutamente sem nexo, pensando em ter um parceiro para contribuir para com o resultado de sanidade de uma fazenda. Meu Deus…
4) TO BEEF OR NOT TO BEEF:
Não me canso de ver este vídeo: http://www.beefpoint.com.br/cadeia-produtiva/giro-do-boi/comercial-do-super-bowl-faz-homenagem-aos-produtores-rurais/?utm_source=150602-+Leads+gerados+interrupt&utm_campaign=4880746ad2-150622_Endoctrination_Nova_Lista_BeefPoint&utm_medium=email&utm_term=0_2a49ca68b6-4880746ad2-193871397
5) O LADO “B” DO BOI:
5.1.) O TERMÔMETRO DO CAMINHÃO
Não é do painel de controle do bólido que estamos falando, mas sim da situação dos negócios de gado. Simples: com menos negócios, menos serviço para caminhões boiadeiros. Dê uma perguntada para amigos seus como está este prestador de serviço de nossa cadeia produtiva. Você verá que a liquidez de negócios está em nível muito baixo neste momento. Faça o teste.
5.2.) QUEM VAI COMER O FILET MIGNON?
Eita tema polêmico: o grande preço do “pequeno animal”, o bezerro, como diz o Rogério Goulart. É só tratar do assunto que discussões quentes brotam igual a tiririca em pasto sujo.
Esta semana fiz duas palestras por Rondônia, um “baita” lugar para a pecuária. Os rondonienses estão de parabéns! Especial saudação aos meus novos amigos da Associação de Pecuaristas de Ariquemes e da Crediari, que fazem um belo trabalho por lá.
A visita à Rondônia me fez valer a frase: “só não cai o que está no chão” (Sr. Jesus, nosso amigo). Por lá houve o maior ajuste de preços do Brasil. Foi uma queda de aproximadamente R$ 20 a R$ 25/@ no preço do boi gordo que estava para lá de R$ 140/@ e hoje está em aproximadamente R$ 118/@. Uma série de conjunturas levaram Rondônia a ter um diferencial de base bem fechado (mais até que GO, por exemplo) por anos, mas agora, assume o extremo oposto.
O que interessa aqui é o que ocorreu com os negócios de reposição neste cenário… Houve uma queda do pico de preço de R$ 1.250 a R$ 1.300/bez para os atuais R$ 1.000,00. Além disto, o mercado está travado. O criador não quer entregar o seu animal por estas novas balizas de preço e o recriador/invernista está muito inseguro com o que ocorreu com o preço da arroba, e está “fora das compras”. Quem precisa vender bezerro mesmo, aceita negociar preços menores ainda e oferece prazos longos… E olhe que não há oferta em abundância…
Não adianta a gente brigar estre nós. A relação oferta-demanda é quem manda no preço. RO é mais uma comprovação. Esta relação é quem define quem vai comer o filet mignon. Em que pese, haja exemplos pontuais como os de Rondônia, 2014 e 2015 são anos da cria. É a vez de quem cria. E está tudo bem!!! Faz tempo que não era. A cria também tem que ganhar dinheiro… Espero que estejam aproveitando o mignon…
5.3.) VAMOS DERRUBAR A CAÇA
E quem seria a “caça”? Resp.: o consumidor no varejo, que opta e paga pela carne bovina. Ele é o nosso foco, ou pelo menos deveria ser.
Esta conversa tem tudo a ver com o mercado atual. Parece que a frouxidão dos preços da arroba está indo embora? Será? Vamos ver abaixo a ligação entre esta pergunta e a questão da caça…
O primeiro passo para uma nova fase de alta foi dado… As escalas estão encurtando e o volume de ofertas está caindo. O fato de o primeiro passo ter sido dado, não quer dizer que o segundo será também executado, pois o mercado por dar um passo e ficar parado… E é isto que está fazendo. A oferta precisa cair mais, precisa cair mais contundentemente nas bases. Isto está apenas começando a ocorrer e ainda de maneira não homogênea. Em SP e no MS, não há oferta abundante. Em GO, havia, mas parece estar diminuindo. Vamos acompanhar as próximas semanas, pois esta diminuição pode (e deve) aumentar.
Este movimento que normalmente antecede a uma onda de alta está muito claramente identificado. E com mais uma pulga atrás de nossa orelha: o dólar, que sobe nos maiores níveis em mais de uma década, em função de um possível aumento de juros americanos e da desaceleração da China. Então, podemos soltar os rojões? Resp.: não!
Em função de um fato: o que mais nos chama atenção é a postura inédita dos frigoríficos. Eles dizem rasgadamente, ao serem pegos de calça curta (neste caso, escala curta) numa negociação com o pecuarista que quer R$ 1/@ a mais para entregar o lote: “não posso pagar R$ 0,01/@ a mais. Se não comprar, é melhor pular abate. A carne não vende, estou alugando contêiner pois não tenho lugar onde estocar”. Frases reais de uma negociação desta semana (agradecimentos ao Gustavo Garcia, pelo relato).
Ou seja, a escala está encurtando, mas não há nem sombras, nem rumores de preços novos rasgados para cima de maneira geral e pujante. Altinhas de R$1/@ aqui e ali, já são vistas, mas o ânimo da indústria pagar mais, está ainda longe, anos-luz do mercado.
E o motivo está aí em cima e atende pelo nome de demanda. Demanda na ponta final, ou “a caça” que falamos neste informe. Estamos entrando provavelmente numa das maiores quedas de braço da história do mercado pecuário, senão a maior.
Justamente, na mesma medida que entramos na maior crise de consumo dos últimos anos. Os números são recordes. O mercado está em extremo negativo… A taxa de juros do cheque especial está no maior nível em 20 anos. A 20 anos atrás, eu estava saindo da faculdade e ainda tinha cabelos… São 240% ao ano nos juros do cheque especial e cerca de 370% para o cartão de crédito. As contas do governo não ficavam negativas desde 1997… A nossa inflação é uma das maiores do mundo…
Isto tudo que está no parágrafo acima pressiona a demanda da ponta final, que é a nossa caça verdadeiramente pensando como cadeia produtiva. Veja a matéria sobre a pressão da demanda de carne bovina mais clara que saiu nos últimos meses:
Recebi de um amigo a variação de vendas de grandes empresas de alimentos e bebidas, veja: venda de aves (-10,9% QoQ); venda de Suínos (+20,9% QoQ); venda de Bovinos (-71,8% QoQ); venda de Cerveja (-8,6% YoY); venda de Refrigerante (-6,0% YoY); venda de Biscoitos (-3,3% YoY) e venda de Massas (-4,9% YoY). Obs.: “Q” reflete a variação sobre o quadrimestre anterior e “Y” a variação sobre o ano anterior.
Com os números e argumentos acima, resta alguma dúvida??? Ou seja, precisamos pensar como cadeia produtiva. Precisamos pensar em oferta e demanda, e não só na oferta. É claro que não tem boi em abundância, considerando o padrão de oferta para o ano de 2015 de forma geral. Isto deixa o mercado muito firme. E firmeza quer dizer: altas ou resistências contra quedas. Enquanto tivemos um momento razoável de consumo (Q1 de 2015), o movimento foi de alta. Mas, depois, quando as ondas da crise atingiram a população mais fortemente, o momento passou a ser de resistência contra quedas. E a resistência está enorme, salvo exceções, como Rondônia (o Brasil é continental e diferenças regionais existem). Mas, de maneira geral, a resistência é grande do boi em cair. Veja, apesar de todas as nuvens negras, terminamos o primeiro semestre com alta de 20% frente ao primeiro semestre de 2014. Dá para reclamar?
Sabe quando você, à cavalo, toca a boiada para o lado do bebedouro e do cocho de sal, e ela vai meio desorientada, até que acha o “trieiro fundo da aguada e aí alinha e pega descendo”? Depois que achou o “trieiro fundo”, a boiada não costuma querer sair dele, não desvia nem para cima e nem para baixo… O “boi no trieiro fundo da aguada”, parece ser o nosso caso…
Pois bem, este cenário combinando produção em queda e demanda péssima, tende a produzir um preço flat, ou estável. Não há bois para derreter o mercado (mesmo considerando as exceções, como RO), mas também não há demanda para sustentar uma decolagem de preços como foguete, à partir do nível de preços em que estamos…
Imagine uma Ferrari, com limitador de velocidade… O motor tem potência (a produção de animais terminados está em queda grande este ano, particularmente de fêmeas ao abate) para rasgar na estrada (para os preços rasgarem rumo aos 170), mas ao atingir a velocidade do limitador (ao atingir o freio da demanda) o carro perde o ímpeto (o comprador de boi não tem ânimo para soltar novos preços). Entendeu?
O que seria muito positivo neste contexto? Uma bela campanha de marketing da cadeia de carne para com o nosso consumidor final. Na falta de uma campanha da cadeia, surgiu recentemente uma, em rede nacional, que você sabe qual é. Esta campanha foi muito combatida e inclusive eu tenho as minhas restrições em alguns pontos importantíssimos dela… Mas, em terra de cego… Pelo menos ela falava da carne… Era ótima neste sentido. Portanto, neste momento, pergunto: cadê o Tony??? E mais do que isto: cadê os “Tonys” do restante da cadeia??? É agora que mais precisamos dos “Tonys”, ou seja, das campanhas de marketing para combater o maior (e talvez único) limitador do aumento do preço do boi neste momento: a baixa demanda (pela carne).
Olhem aqui um belo exemplo, ocorrido neste final de semana em SP. Um evento espetacular, porém não acessível para a população de massa, mas que poderia ter a sua “versão popular 1.0”. Veja: http://vejasp.abril.com.br/materia/churrascada-quinze-chefs-cortes-carnes-especiais-a-vontade
É disto que precisamos. Mesmo porque existem aos montes materiais contra o nosso produto, ou que pelos menos fazem nosso consumidor questionar o seu consumo. Porque não uma campanha de “consumo consciente de carne”???
Espero que a sua semana seja simples e produtiva, igual a vida no campo. Até a próxima, se Deus permitir…
Obs.: a inspiração do raciocínio “caça e filet mignon” é de Osler Desouzart.
Fonte: Notícias do Front.

