REFLEXÕES INQUIETANTES APÓS O ESFRIAMENTO DA ARROBA

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NOTÍCIAS DO FRONT

A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”

Prezados Companheiros,

Alguns temas são polêmicos na sociedade e no segmento da pecuária não é diferente. Discussões quentes e polarizadas brotam como fedegoso em pastaria mal manejada logo que estes temas aparecem.

E três destes assuntos foram catapultados para os holofotes do mercado bovino com a recente onda de esfriamento da arroba. São eles:

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Boi a termo: salvação ou maldição?

Parar de vender agora é solução imediata ou complicação futura?

Bezerro de R$ 1.500,00: é uma loucura ou boa visão de futuro?

Vejamos um pouco mais sobre eles, então. Afinal de contas, debate com pessoas bem intencionadas é o melhor caminho para o entendimento e o seu posterior posicionamento.

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Continuamos com a ladeira abaixo… O indicador ESALQ/BMF iniciou a semana passada em R$ 144,58/@ (variando de R$ 143,50 a R$ 147) e atingiu R$ 141,79/@ (variando de R$ 140,50 a R$ 144,75), configurando uma queda forte, na nossa escala de variação de preços.

Após o pico da arroba, ocorrido em 20/abril, quando o boi SP atingiu R$ 150,36/@ à vista, tivemos 11 semanas de mercado. Destas 11 semanas, apenas 2 sinalizaram fechamento em alta. As demais 9 fecharam em queda. Já é um movimento que dura quase três meses, portanto. Cremos que a maior parte deste movimento de correção do preço da arroba já teria sido implementado.

Durante este tempo, muitas plantas pararam de compra boi, o atacado subiu e o boi caiu. Foram aproximadamente R$ 9/@ de queda, culminando com o menor indicador do ano, obtido nesta última sexta-feira (dia meio “morto”, em função do feriado de quinta das terras paulistas). O movimento de ajuste segue seu caminho, fazendo seus efeitos, portanto.

No fechamento da semana, já não se viam ofertas frequentes no R$ 146/@, configurando o intervalo de R$ 141 a 145/@ à vista, como o mais comum em SP.

Na “terra do tuiuiú” (nosso querido MS), o mercado está estável por volta dos R$ 138/@ ap para o animal não EU.

As escalas seguem estáveis com o dia “DIA D” na SEGUNDA (20/julho) e o “PLACAR” em 5 dias úteis (entre o dia do acordo da venda e o abate). O STATUS DO BEEFRADAR teve pequena acomodação e agora aponta para:

45% queda (leve) : 45% estabilidade : 10% para alta (leve).

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

Mais um recuo no preço balcão dos frigoríficos que passaram a usar o R$ 130/@ av x R$ 132/@ ap. Há negócios não muito incomuns cerca de R$1 acima disto, porém, o bônus EU começa a ser eliminado da negociação de algumas plantas. Muito ruim isto.

A escala do estado segue o padrão da semana passada, bem folgada, igual a cinturão de soldado, com a semana que se inicia resolvida, bem como a seguinte já bem encaminhada.

Alheios a mudanças de rumo, estão o diferencial da vaca em relação ao boi (segue estacionado entre 4 e 5% de deságio) e o diferencial de base GO x SP, que também segue bem aberto, tendo atingido nesta última terça um dos maiores valores do ano: –R$12.99/@. Isto mostra que a oferta fora da base se mantém razoável.

3) HORA DO QUILO: recentemente a UNESCO aprovou como patrimônio mundial uma histórica planta frigorífica do Uruguai, na cidade de Fray Bentos, veja o link: http://www.elobservador.com.uy/el-anglo-es-patrimonio-mundial-n657770. E com esta notícia nos enviada pelo Prof. Pedro de Felício, fica a sugestão: porque não incluir na UNESCO ou mesmo no IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) uma de nossas plantas, como a do Anglo da cidade de Barretos, atualmente de propriedade do JBS, na lista de nossos patrimônio? E digo mais, porque não incluir o nosso churrasco no “Livro dos Saberes”, o qual registra os Bens Culturais Imateriais do nosso País, no mesmo IPHAN? As baianas do acarajé e o modo artesanal de se produzir o Queijo de Minas nas regiões da Canastra e Alto Paranaíba-MG já foram agraciados. Como diz o Miguel: temos que contar mais a nossa história. Como o modo gaúcho de fazer churrasco pode não ser considerado um Bem Cultural Imaterial de nosso País, p.ex.?

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: .. Segue o link para o download dos dados do Rally 2015 – http://www.rallydapecuaria.com.br/login. Imperdível.

5) O LADO “B” DO BOI:

5.1.) CINCO BALANÇAS, APENAS UM SONHO

A matéria traduzida no BeefPoint tráz à tona o tema da transparência no relacionamento (sempre polêmico e conturbado) pecuarista x frigorífico. Em foco, o modelo uruguaio de cinco balanças. Veja o que está acontecendo por lá: http://www.beefpoint.com.br/cadeia-produtiva/giro-do-boi/federacao-rural-do-uruguai-quer-que-preco-do-gado-seja-fixado-ate-a-terceira-balanca/

O raciocínio dos uruguaios é pegar o peso da carcaça antes da toalete, estabelecendo um padrão, visto que o “dressing” (toalete) varia de indústria para indústria. Interessante seria saber o que as indústrias nacionais que tem planta naquele País acham do sistema de lá!

Acho que todos ganhariam se adotássemos um conceito deste dentro do nosso País. Fica a dica para a CNA e as Federações de Agricultura!

5.2.) MAIS DO MESMO

A frase “fechar uma planta de um frigorífico é melhor que quebrar um frigorífico”, do André Bartocci, a qual li esta semana em um grupo de zapzap, diz muito sobre o momento do mercado, em termos de preço. Alguns números importantes sobre o mercado podem ser vistos na matéria do BeefPoint a seguir: http://www.beefpoint.com.br/cadeia-produtiva/giro-do-boi/frigorificos-fecharam-44-plantas-no-pais-no-ano/?utm_source=Newsletter&utm_campaign=077daa6fa0-150707_diaria_Newsletter&utm_medium=email&utm_term=0_adde331ed2-077daa6fa0-193260949

O fato é claro: no mercado de hoje temos uma oferta não abundante! Mas ainda assim ela é grande o suficiente para pressionar o boi, visto que a capacidade de absorção da produção está muito retraída neste momento. Veja que nesta semana o FMI deu mais um input sobre isto, deixando claro que o buraco era mais embaixo. O fundo revisou a queda do nosso Pib 2015 para -1.5%. Muitos analistas daqui já falam em -2%. E para 2016 a ideia do +1% cai por terra, assim como a questão de termos um segundo semestre de 2015 melhor. Em resumo para os PIB´s de 2015 e 2016 saímos da previsão de -1% e +1%, respectivamente, para -2% e 0%… Nada alentador do ponto de vista de demanda por nossa produção, portanto.

Assim, estão “pesando” no mercado e pressionando o boi os seguintes fatores:

– venda de carne fraca em função da economia;

– margens desconfortáveis obtidas pela indústria nos últimos 12 meses;

– má administração operacional de uma parte dos frigoríficos que levou a ociosidade e capacidade de abate acima da necessidade;

– concentração das empresas alavancada pelo governo limitando em algumas regiões a concorrência de mercado;

– aumento da produção de carcaça por cabeça abatida em função da pressão na engorda feita pela reposição “salgada”, fato que é potencializado pela rápida evolução tecnológica da engorda (notadamente nutrição) e relação de troca com milho excelente;

Tudo isto é importante e ajuda, mas é coadjuvante. O principal, como muito bem ponderou o nosso amigo Rogério Goulart, é: “existem mais vendedores do que compradores neste momento” (em que pese, os vendedores sejam poucos).

Em nossa visão, pode haver ambiente para uma retomada, mas a oferta vai ter que sofrer um stress grande. E nesta (possível) retomada, deverá haver freio de mão puxado, pois a medida que o mercado voltar, acho que a força vendedora do hedge não vai dar sossego (principalmente ao futuro).

5.3.) REFLEXÃO #1

No ambiente citado e com o movimento de preços das últimas semanas, ficou bom para quem travou e usou as ferramentas de proteção de preço que tanto falamos aqui. Quantas vezes recomendamos “aproveitar a alta e ir vendendo aos poucos”?

Com isto surge a primeira reflexão: o boi a termo é uma salvação ou maldição? A melhor resposta à esta pergunta eu identifiquei no excelente texto abaixo do nosso amigo Leandro Bovo, do BESI, nosso corretor da BMF, material que está publicado também no Informativo Boi e CIA #1138 da Scot Consultoria. Segue:

“Com a recente queda de preços no mercado físico e futuro de boi gordo, uma velha discussão que estava “esquecida” nos últimos anos voltou à tona, com muitos colocando a culpa pela queda nas compras a termo e/ou contratos de fornecimento. Como essa discussão já é bastante antiga, “resgatei” um texto que escrevi nesse espaço em julho de 2010 expressando minha opinião sobre o tema.

As discussões a respeito dessa forma de comercialização são muitas vezes acaloradas e defensores e críticos muitas vezes apresentam as razões para seu ponto de vista de forma mais “apaixonada” do que racionalmente. O objetivo desse artigo não é defender e nem criticar essa importante ferramenta de comercialização, mas apenas tentar analisar da forma mais isenta possível suas consequências nos preços.

A afirmação que mais se ouve em relação ao boi à termo é que ele é o grande culpado pela queda de preço na entressafra nos últimos anos. O argumento é que com a escala de abate garantida, os grandes frigoríficos teriam força suficiente para forçar quedas de preços aos demais pecuaristas que vendem no mercado “spot”. A meu ver tanto a afirmação quanto a justificativa são simplistas demais e merecem uma análise mais detalhada.

A comercialização a termo é uma ferramenta extremamente difundida nas mais diversas commodities, sendo inclusive muito mais antiga e mais amplamente utilizada em outros mercados que não o do boi, como soja e café por exemplo. Analisando isoladamente, o impacto de maior número de animais comprados a termo seria nulo, já que seria exatamente igual à diminuição dos animais disponíveis para venda no mercado spot. Porém pelas características do mercado de boi gordo, principalmente na entressafra, onde o custo de confinamento inviabiliza o carrego de estoques de animais prontos, o fato de grandes indústrias já terem sua programação de abate fechadas poderia em teoria exercer uma pressão adicional baixista no mercado.

Ao analisar o mercado nos últimos anos, a conclusão mais lógica a que se chega é que o termo amplifica a importância da demanda por carne na precificação do boi gordo. Se imaginarmos que as duas principais influências na precificação são a demanda por carne e a oferta de animais, e que elas teriam forças iguais sobre o preço, num ambiente com grandes frigoríficos com boa parte da escala comprada a termo, a influência da demanda se amplifica. Explico-me: num ambiente de demanda fraca, como observado no 2º semestre de 2008 e 2009, o impacto do termo é realmente baixista, já que as grandes empresas saem das compras e com a demanda fraca, os demais participantes não têm incentivo suficiente para subir preços e absorver a oferta disponível no spot, pagando preços mais baixos, e ampliando a queda.

O contrário também é verdadeiro: num mercado de demanda aquecida, como foi 2007, 2010, o efeito do termo é o inverso do esperado, exacerbando a alta dos preços. Num cenário em que os grandes frigoríficos estão com as escalas completas por boi a termo e, portanto, não comprando no mercado spot, eles saem da base de cálculo do índice ESALQ, que passa a ser composto em sua maioria pelas industrias menores, que com boa demanda, pagam mais pelos bois disponíveis, subindo o Índice ESALQ a vista, amplificando a alta e potencialmente causando alta nos mercados futuros.

O comportamento do mercado em 2007, 2008, 2009 e 2010, reforça a viabilidade dessa hipótese e se for esse mesmo o caso, ao ampliar a importância da demanda na precificação, o boi a termo não tem a consequência sempre baixista que a maioria aborda, mas ele pode amplificar movimentos de alta ou de baixa conforme a variação da demanda, agregando volatilidade aos preços e não tirando volatilidade como seria o esperado. Independente do impacto, essa modalidade de comercialização é mais uma ferramenta à disposição dos pecuaristas e é uma realidade que tende a aumentar à medida que a cultura de gerenciamento de risco se aprofunda na pecuária é bom conhecer e estudar para poder tira proveito disso”.

Finalizo esta reflexão “travar ou não travar” com mais uma sábia frase do pecuarista Carlos Kind: “quem não pode mandar no que tem, não merece ter. Negócio bom é aquele que o dono manda nele”, no caso, no preço dele.

5.4.) REFLEXÃO #2

Mesmo a oferta atual sendo pequena, ela ainda se configura como grande, para o nível da nossa demanda. Portanto, a frase “a nossa única arma é parar de vender”, vem à cabeça… E funciona? Digo que não, por três motivos, à saber:

O boi de confinamento castra do produtor esta possibilidade, em função dos custos altos de carrego das arrobas, a não ser que haja alta capacidade de conversão dos animais em carcaça e (muito) caixa suficiente para suportar a decisão;

Não me parece ser uma estratégia de implementação uniforme pelos produtores, mas sim atitudes isoladas que não mudam o perfil do mercado como um todo;

Esta estratégia tem bastante chance de piorar o problema lá na frente, pois mesmo com a diminuta chance de funcionar, se conseguir represar bois, produzirá um efeito contrário na saída dos mesmos…

5.5.) REFLEXÃO #3

Um bezerro de R$ 1.500,00/cab, que leva a @ reposta a um horizonte de R$ 215 a R$ 250 (dependendo do peso do animal), é loucura ou visão de futuro? A minha melhor resposta para esta pergunta é: organize os seus registros financeiros e zootécnicos, apure o seu custo fixo, seu custo variável, as suas despesas e mensure como seus animais performam. Com estes dados na mão, caso não saiba extrair os indicadores financeiros e zootécnicos importantes, peça ajuda, contrate um consultor e depois compartilhe a sua informação com seus pares. Estes indicadores irão te dizer se o bezerro de R$ 1.500,00 é loucura ou visão de futuro.

Cada um tem a sua definição, adequada ao seu sistema de produção. No meu caso, considero esta faixa de valor de @ de reposição uma enorme preocupação para a safra de animais a serem terminados em 2015/2016. A maior preocupação no momento, visto que a safra 2014/2015 já está resolvida do ponto de vista de comercialização e de fluxo de caixa.

Desejo que as suas reflexões sejam regadas de luz, traduzidas em decisões estratégicas e que estas, o conduzam a consequências tranquilizadoras. Que o seu caminho seja calmo nesta semana que se inicia, com abundância de saúde, convívio em família e prosperidade.

Fonte: BeefPointRodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) & Ricardo Heise (@boi_invest), Num trabalho feito a 4 mãos…


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