Brasil: Recuperação de pastagem
Recuperação de pastagens aproxima Brasil da meta da COP 15
Integração lavoura-pecuária-floresta é umas das técnicas mais eficientes para uma agricultura racional e sustentável
A recuperação de 19 milhões de hectares de pastagens degradadas poderá ser responsável por reduzir a emissão de 132 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2eq) até 2020. Isso significa 13% do total prometido pelo Brasil na 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 15), em Copenhagen (Dinamarca) – de diminuir entre 36% e 39% a emissão de gases de efeito estufa de forma voluntária. Esse é um dos principais resultados do estudo que está em desenvolvimento pelo Cepagri (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Unicamp – Universidade Estadual de Campinas) e pela Embrapa Informática Agropecuária, com a cooperação da Embrapa Cerrados.
Segundo o professor Hilton Silveira Pinto, diretor associado do Cepagri e coordenador do estudo, o projeto “Mitigando emissões de gases na agricultura: bases para o monitoramento do Programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono)” atua com base em ações como o plantio direto sobre a palha; a recuperação de pastagens degradadas, a integração lavoura-pecuária (ILP) e lavoura-pecuária-floresta (ILPF); a substituição de fertilizantes nitrogenados pela fixação biológica do nitrogênio em culturas como de soja, cana-de-açúcar, milho e feijão; e o reflorestamento. “Entre essas técnicas, a integração lavoura-pecuária-floresta é a que se mostra eficiente tanto com ganho de produtividade para o produtor quanto para a diminuição da emissão de gases de efeito estufa. Para cada árvore plantada, a metade do CO2 produzido na atmosfera é absorvida pela planta no processo de fotossíntese”, explica o professor.
Já o plantio direto, diz o professor, faz com que o solo absorva 500 quilos de carbono por hectare ao ano. E com as bactérias nitrogenadas, ao invés da utilização do adubo com nitrogênio, é possível eliminar a emissão de óxido nitroso, que é 300 vezes pior que o carbono na atmosfera. “Por outro lado, temos hoje 50 milhões de hectares de pastagens degradadas no Brasil: não é um pasto cultivado, o gado é simplesmente levado para outro lugar quando acaba a grama natural. Recuperando essas áreas teremos o sequestro de meio quilo de carbono por quilo de grama alta”.
Conforme o diretor do Cepagri, o Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, com 205 milhões de animais que ocupam 20% da área destinada à atividade. Tecnologias já conhecidas de fertilização, plantio de espécies adequadas e manejo de solo e de pastoreio podem promover a elevação da produtividade vegetal e animal. “Atualmente, a relação é de 0,4 cabeças por hectare. Com a recuperação, o propósito é mais que dobrar esse número e chegar a pelo menos uma cabeça por hectare, utilizando a mesma área e sem interferir no meio ambiente”.
Na primeira fase do projeto, as equipes percorreram as regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil, entre novembro de 2011 e dezembro de 2012. Coletaram 4 mil amostras de 232 áreas de pastagens mapeadas por imagens de satélite, a fim de quantificar seus estoques de carbono no solo e calcular a capacidade de sequestro do gás em pastagens produtivas. Uma das estimativas é de que o manejo adequado e a adubação em 15 milhões de hectares degradados corresponderão à redução de emissões de 83 a 104 milhões de tCO2eq até 2020 – um ganho adicional viria de 4 milhões de hectares da ILPF, com a recomposição de áreas de preservação permanente e implantação de agricultura orgânica e florestas comerciais.
Segundo Paulo Araripe, engenheiro agrônomo e diretor da Araripe Consultoria Agropecuária, a recuperação de 19 milhões de hectares de pastagens degradadas é possível, sim, técnica e economicamente falando. “Porém, penso que os pecuaristas brasileiros levarão muitos anos para concretizar esta meta. Acredito que necessitará um período maior que 10 anos. Devemos lembrar que, para que o saldo seja positivo temos que, além de recuperar esta área, manter as demais no atual estado em que estão, ou seja, evitar mais degradação. Estou me referindo a uma área que representa mais de 10% da área total de pastagens da atualidade; é muita coisa”, afirma.
Para Araripe, o governo se comprometeu com o mundo, mas esqueceu de perguntar ao pecuarista se ele está por dentro do problema e se ele sabe o que tem que ser feito para solucioná-lo. Muitos pecuaristas acreditam que em sua atividade não há problema relativo à emissão de gases de efeito estufa. Recuperar 19 milhões de hectares significa reduzir, na melhor das hipóteses, de um terço a metade da área hoje degradada ou em processo avançado de degradação. “Fazer a recuperação da área degradada é fácil, a grande barreira é criar a necessidade no pecuarista, que é o agente da modificação, e mostrar que isso seria benéfico para ele e que pode executar uma pecuária diferente com resultados econômicos melhores, evitando nova degradação”, avalia.
Conforme o engenheiro agrônomo, não há campanhas governamentais fortes e maciças de conscientização do pecuarista para esta questão. Linhas de crédito específicas para o assunto existem e são muito atraentes, porém elas ainda são de desconhecimento dos pecuaristas, que têm, em geral, medo de se envolver com instituições financeiras. A questão passa ainda por deficiências de estrutura do país no que diz respeito à presença de estradas para levar os insumos necessários à recuperação e escoar a produção maior de pecuária advinda desta operação. Portanto, para Araripe, a execução da meta depende de vários fatores, como o entendimento por parte do pecuarista da questão da degradação e quais os benefícios da recuperação, colocação em prática de campanhas governamentais que incentivem o investimento em recuperação de pastagens e evitem mais degradação e a urgente reestruturação do setor público de assistência técnica que será o veículo da transformação. “É preciso política pública para tudo isso, mas uma política executiva, que saia de fato do papel e atinja a ponta, ou seja, o pecuarista”.
O pesquisador do Cepagri diz que um grande problema para a aceitação das medidas de mitigação pelos produtores é o custo da recuperação da pastagem. “Já propusemos ao governo um financiamento inicial de R$ 8 bilhões para essa finalidade, mas houve pouca procura”, afirma. Segundo ele, os grandes produtores se interessam mais em comprar gado, já que possuem áreas imensas. Por isso, o direcionamento do programa será para os pequenos produtores, que hoje fornecem entre 60% e 70% da alimentação básica do brasileiro, e o crédito de carbono seria uma ótima fonte de renda alternativa. “A ideia é introduzir novas tecnologias – como a integração lavoura-pecuária – em quase 5 milhões de unidades de agricultura familiar, com o objetivo de dobrar a produtividade e diminuir a emissão de gases. Com isso, não teremos problemas com alimentos básicos no horizonte de 30 ou 40 anos”.
De acordo com o Silveira Pinto, este projeto é contínuo e segue as metas do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Após determinada a emissão de gases de efeito estufa pela agricultura regionalmente, a meta é levar esse controle ao nível das propriedades. “Queremos chegar à fazenda para observar a quantidade de tratores, caminhões, combustível consumido e também de adubos, num controle local que chamamos de nível três. Há uma finalidade principal: o agricultor que se dedicar à produção com baixa emissão, usando novas tecnologias, poderá vir a ter acesso ao crédito de carbono, cujo valor é bastante razoável”.
Fonte: Kleffmann

