Opinião: 2012/2013: uma safra de incertezas
Por * Glauber Silveira
Através do projeto Soja Brasil tive a oportunidade de percorrer as principais regiões produtoras do Brasil. Ao percorrer essas regiões, percebi como é incrível um país como o nosso, onde você tem produtores colhendo soja nos estados do Paraná e Mato Grosso, enquanto outros iniciam o plantio no Pará. E a notícia que se propaga desde o início da safra é que o Brasil tem tudo para ser o maior produtor de soja mundial, que deve colher mais de 82 milhões de toneladas, superando os EUA. É claro que esperamos que isto ocorra nesta safra, mas pelo que temos visto no campo, pode ser que ainda não assumiremos a liderança mundial na soja.
Vários fatores têm contribuído negativamente para que, infelizmente, a safra de soja não seja do tamanho esperado. E de uma coisa temos certeza, o grande vilão nesta safra foi o clima. Com chuvas mal distribuídas e irregulares no início do plantio e durante o crescimento, fazendo com que houvesse inúmeros replantios e agora que precisamos de sol, temos chuvas constantes na colheita.
No Rio Grande do Sul, novamente, o clima tem castigado diversas regiões, na Bahia tivemos seca e chuva de granizo, no Mato Grosso muitos replantios como há muito não acontecia e assim vai. O risco maior está justamente quando temos um clima irregular e diversos outros problemas associados como o ataque intenso de pragas e doenças, exatamente como neste ano. No início da colheita tivemos ataques de lagartas, lesmas, Buva e agora com a volta das chuvas, há o risco de uma explosão dos números de casos de ferrugem asiática. E é justamente na colheita que os esporos se disseminam mais intensamente pelo ar, o que com a elevada umidade favorece o desenvolvimento do fungo da ferrugem.
Mas, apesar dos percalços, a maioria dos especialistas não espera uma safra de grandes quedas de produção, apenas não será uma daquelas safras extraordinárias que já tivemos, onde superamos a produção potencial projetada. Safra esta, que é tão esperada pelo mercado mundial, principalmente depois da quebra expressiva na safra dos EUA. Entretanto, confrontando com as condições mais recentes das lavouras, os últimos levantamentos do USDA e Conab tem noticiado números acima da realidade vista em janeiro.
O relatório do USDA, embora tenha sacudido os mercados de milho e trigo, com previsões nas alturas, elevou em apenas dois milhões de toneladas a próxima safra mundial de soja. A mudança ficou restrita justamente aos EUA que tiveram aumento projetado para produção e consumo entre a previsão de dezembro e janeiro. A nova safra norte-americana que será colhida a partir de setembro deste ano deve alcançar a marca dos 82,06 milhões de toneladas. A novidade, contudo, é que o relatório acabou reduzindo muito a diferença entre a produção brasileira e norte-americana. Na projeção do órgão o Brasil deve 82,50 milhões de toneladas. Para a Argentina, o órgão previu uma produção um pouco menor, de 54 milhões de toneladas, contra os 55 milhões do relatório anterior.
Já o 4º Levantamento da Safra de Grãos da Conab trouxe de novo um pequeno incremento de 100 mil hectares na área brasileira de soja, o que fez a produção sair de 82,63 milhões de toneladas para 82,69 milhões toneladas. De qualquer forma, a área total de soja continua crescendo 9% e a produção 24,5% na comparação com a safra 2011/2012.
É notório que o mundo todo esperava números maiores para a safra da América do Sul, números que devem ficar pouco abaixo do esperado, sendo assim os estoques mundiais de soja continuarão apertados e com esses estoques de milho ainda mais apertados, o cenário de preços é positivo para ambos os mercados. Com o atraso no plantio da soja e as irregularidades climáticas, o tamanho da próxima safra de milho também se tornou uma grande incógnita e não será nenhuma surpresa se os números finais de produção recuarem e ficarem abaixo das 70 milhões de toneladas, daí vem o grande desafio do governo em gerenciar o estoque.
Contudo, o que realmente nos preocupa enquanto produtores é a previsão de chuva ao longo da colheita. Dias chuvosos vem por ai, e muita soja já está no ponto para ser colhida, enquanto isso aguardamos o momento para plantar o milho. E nós sabemos que com as chuvas vêm inúmeros problemas. É como se a chuva anunciasse, tocasse uma melodia tendo como cenário as estradas em péssimo estado, a alta umidade nos grãos e os descontos exorbitantes na classificação e assim vai.
Para muitos este artigo pode parecer um pouco mais do mesmo, mas na verdade é apenas o retrato da realidade da vida do produtor, suas incertezas, suas dificuldades, mas tudo justifica quando entramos com a colhedeira e ouvimos aquele som maravilhoso o nosso trabalho caindo no graneleiro da colhedeira. Que venha 2013, com seus problemas que iremos correr atrás de resolvê-los.
Fonte: Diário de Cuiabá, por Glauber Silveira, presidente da Aprosoja Brasil

