Desenvolvimento e Inovação com Dendê e Caiaué
Estado da Arte das ações de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação com Dendê e Caiaué.
As palmáceas dendê (Elaeis guineensis), de origem africana, e caiaué (Elaeis oleifera), de origem americana, são espécies oleaginosas da família botânica Arecaceae. Essas palmeiras apresentam níveis expressivos de sequestro de carbono, alta produtividade em campo, necessitam de pouca mecanização e alta viabilidade econômica, dado seu baixo custo de produção. Por essas razões, a indústria de Elaeis sp., no qual predomina o dendê, tem apresentado rápido crescimento a partir de 1990 e o óleo proveniente desse fruto vem ganhando espaço no mercado a ponto de na primeira década dos anos 2000 ter ultrapassado o óleo de soja em termos de consumo. Atualmente, os maiores produtores de dendê são Indonésia e Malásia, com mais de 85% da produção mundial, enquanto que o Brasil, segundo a FAO, encontra-se apenas na 15ª posição nesse “ranking”, embora possua a maior área cultivável global.
Atualmente, o maior consumo de derivados de dendê é na indústria de alimentos para atender os mercados europeu e asiático. O mercado de biocombustíveis também impulsiona o interesse crescente nessa cultura, embora a utilização do dendê para essa finalidade ainda seja baixa quando comparada com outras fontes de biomassas, contribuindo com menos de 5% da produção de biodiesel mundial.
Diante da crescente importância da busca de novas fontes de energia renovável, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolve projetos com Elaeis sp. com parceiros internos e externos, nacionais e internacionais e em diversas frentes, tais como: melhoramento genético, aperfeiçoamento de sistemas de produção e aproveitamento de óleo e resíduos para obtenção de derivados como biodiesel, ração animal e fibras.
Analisando o cenário internacional de produção agrícola e publicações sobre o tema, o Brasil ainda se encontra em posição ascendente. Percebe-se uma forte tendência para ações focadas em produção agrícola e melhoramento genético visando eficiência agrícola. Nota-se também início de ações de aproveitamento do óleo e dos resíduos agroindustriais para outros fins.
De modo geral, considerando o número de artigos científicos publicados e pedidos de patentes depositados, o aumento passou efetivamente a ocorrer nos anos 2000, o que mostra que o interesse em relação a essas palmáceas e às tecnologias a elas associadas só passou a ocorrer nos últimos anos.
Em número de artigos, nota-se um destaque significativo da Malásia em relação aos demais países, enquanto que o Brasil é o décimo primeiro entre os vinte e seis mais significativos. Já em pedidos de patentes, o país de maior número de depósitos são os Estados Unidos da América, totalizando mais de 1100 pedidos no período de 1974 a 2011.
Apesar de Malásia e Indonésia serem os maiores produtores, há grande disparidade entre elas no número de depósitos de pedidos de patente (9ª e 43ª posições, respectivamente). O Brasil ocupa a 13ª posição em pedidos referentes a Elaeis sp., superando a Colômbia, o maior produtor das Américas. Os principais depositantes de pedidos de patentes são a BASF Plant Biotechnology, seguida pelo grupo Unilever, que por sua vez, é a maior compradora de óleo de dendê da Malásia e Indonésia. Analisando pontualmente as publicações científicas entre os anos de 1960 e 2011, 71,6% delas são de responsabilidade de instituições malaias. A Embrapa é responsável por 2,2% das publicações mundiais no tema, sendo a instituição que mais publica sobre este tema no Brasil.
O perfil das empresas que mais publicam e patenteiam é bastante distinto; enquantono primeiro caso trata-se, essencialmente, de instituições de pesquisa, no segundo caso, majoritariamente, as patentes são solicitadas por empresas com objetivos comerciais. A exceção é o grupo malaio Malaysian Palm Oil Board, que é uma agência governamental com significativa atuação em publicações científicas e em proteção das invenções por meio de patentes.
Comparando estes dados com o portfólio formal de projetos da Embrapa em Elaeis sp., composta por 28 projetos, confirma-se a tendência de ações focadas em produção agrícola e melhoramento genético, acrescidas do uso da matéria-prima na produção de energia. As ações de PD&I da Embrapa também apresentam aumento da representatividade do tema Desenvolvimento Rural Sustentável, o que denota preocupação com questões agronômicas associadas à produção sustentável dos pontos de vista ambiental, social e econômico.
Os projetos analisados têm o ecossistema Amazônico como alvo principal (32% das citações), mas o Cerrado e o Meio Norte foram citados em quantidade significativa (somados, equivalem a mais 32% das citações). Esses números demonstram o crescente interesse das unidades da Embrapa na adaptação dessas palmáceas às regiões do Cerrado e do Meio Norte, o que pode representar, no futuro, a expansão da fronteira agrícola para as regiões degradadas nesses ecossistemas, face às restrições ambientais existentes. A adaptação dessa espécie a novos biomas, menos restritivos por questões ambientais ou em áreas degradadas, gerará um potencial competitivo e até viabilizará a produção dessa cultura para a produção de biocombustíveis, além de atender à demanda crescente do óleo proveniente dessa palmácea nas indústrias alimentícia e cosmética.
Os projetos referidos são liderados por Unidades sediadas, na maioria, nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste (onde se encontram os ecossistemas supracitados), tais como: Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Embrapa Amazônia Ocidental, Embrapa Amazônia Oriental, Embrapa Agroenergia, Embrapa Semiárido e Embrapa Agrissilvipastoril. Complementares às ações desenvolvidas pela Embrapa, conta-se com a parceria de diversas instituições nacionais e internacionais como:Georg-August-Universität Göttingen (Alemanha), Instituto Agronômico de Campinas, Mineração Rio do Norte, Produbon Nutrição Animal Ltda., Universidade de Brasília, Universidade Estadual de Campinas, Universidade Federal do Acre, Universidade Federal de Pernambuco, Universidade Federal do Pampa, Universidade Federal de Viçosa e University of Florida (EUA), dentre outras.
Os resultados expressivos publicados, seja em base de patentes ou artigos, mostram que há grande expectativa em relação ao desenvolvimento dessas palmáceas e de seus derivados para as mais diversas áreas tecnológicas (combustíveis, cosmética, alimentação, química de biomassas etc.). A Embrapa está alinhada a essas tendências mundiais com seu portfólio atual de projetos, abarcando as diferentes áreas relacionadas a Elaeis sp. A pesquisa na Embrapa tem gerado muito conhecimento, o que coloca a Empresa entre as dezenove instituições mais produtivas, liderando o “ranking” nacional em publicações sobre o tema.
Somado a isso, é importante relatar que os projetos transcendem as questões agronômicas, mostrando preocupação das equipes de PD&I na aplicação dos resultados na área (agro)energética e produção de energia renovável, além de início em atividades de aproveitamento da biomassa e seus resíduos para fins como enriquecimento de manufaturados e de nutrição animal.
A Embrapa, identificando o grande potencial desta palmácea, nas áreas alimentícia, cosmética e, principalmente energética, conta hoje com projetos relacionados aos mais variados temas associados a Elaeis sp., visando não só promover o seu cultivo local, mas também atender a uma grande demanda mundial, que é a expansão das fronteiras agrícolas em harmonia com as questões ambientais, que hoje limitam a expansão dessa palmácea nas principais regiões produtoras.
Fonte: Maria Iara Pereira Machado, Melissa Braga, Sérgio Saraiva Nazareno dos Anjos
Analistas da Embrapa Agroenergia

