Ameaças do La Niña às colheitas de trigo da China aos EUA
As culturas do trigo na China, maior produtor e consumidor mundial e dos Estados Unidos, maior exportador mundial, estarão ameaçadas pela seca se persistir o fenômeno La Niña, segundo os meteorologistas.
Segundo o Serviço Britânico de Meteorologia, estes países devem ser os últimos a sair do tempo seco vinculado ao La Niña, um resfriamento ocorrido no Oceano Pacífico, prolongando as atuais condições por mais dois meses. O preço médio do trigo poderá atingir 8,50 dólares por bushel em Chicago a partir de agora até 30 de junho, segundo AbahoFan, analista de commodities agrícolas do Standard Chartered Bank, em Cingapura. Isto é 12% acima do preço de hoje.
O trigo subiu 5% na última quinta-feira, diante da disparada dos preços dos cereais após a divulgação de que os estoques de milho nos EUA caíram para 6,52 milhões de bushels no início de março, a maior queda desde 2007, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA. Os custos globais dos alimentos subiram para um nível recorde em fevereiro passado, de acordo com as estimativas da FAO, contribuindo para a instabilidade política do norte da África e do Oriente Médio.
“Se a seca persistir por mais dois meses, vamos estar com sérios problemas”, disse Jim Dale, meteorologista sênior da Agência Britânica de Meteorologia, em uma entrevista. “O tempo é a essência. Se você perder tempo, estará perdendo dinheiro, quantidade e qualidade”.
Se as condições de seca continuarem na China e nos Estados Unidos, irão ressecar as culturas que já se deterioraram no Texas e em Oklahoma e que estão se desenvolvendo na China e em alguns outros países.
Elevação dos preços futuros
“O tempo é fundamental”, declarou Sudaksina Unnikrishnan, analista do Barclays Capital, em uma entrevista em Cingapura na última quinta-feira. “Mesmo que tenhamos um movimento para cima no plantio, não se traduz automaticamente em um aumento na produção”. Os trigos de inverno representam 71% da produção de trigo dos EUA e são colhidos a partir de junho, de acordo com o USDA.
As cotações do trigo nos mercados futuros subiram muito, mesmo com o anúncio de uma área 8,2% maior de 58 milhões de acres (23,5 milhões de hectares).
No estado do Texas, o segundo maior produtor de trigo de inverno dos EUA, está havendo a sua pior seca em 44 anos, de acordo com os climatologistas do estado e esta situação se derrama sobre os estados vizinhos de Oklahoma, Colorado e Kansas.
O território do sul de Oklahoma até as áreas central e leste do Texas estão com condições de seca extremas, que podem se intensificar “se as chuvas não se concretizarem em breve”, segundo relatório semanal do Monitor da Seca, divulgado pelo Centro Nacional de Mitigação da Seca, em Lincoln, Nebraska, para a semana iniciada em 29 de março.
Alguns triticultores estão abandonando os plantios
A cultura do trigo nas planícies do sul dos Estados Unidos está “susceptível de ser reduzida porque alguns agricultores estão abandonando as lavouras, porque o solo não tem nada a oferecer e os rendimentos do trigo provavelmente serão muito baixos”, segundo Bryce Anderson, Meteorologista Agrícola do DTN. “As áreas de trigo dos Estados Unidos e da China devem ser os últimos a se recuperarem”, concluiu.
A China produziu cerca de 115,1 milhões de toneladas na temporada passada, o que representa 17% da colheita global, segundo mostram os dados do USDA.
“Não há nenhum sinal de chuva prolongada na China ainda, que possa ajudar a minimizar a seca nos próximos 10 dias”, disse Dale, que previu corretamente a seca na Argentina e mais frio no Reino Unido em dezembro último.
O efeito meteorológico do La Niña pode surgir após oito meses, ameaçando todo o plantio seguinte. “Temos que ter cuidado: o La Niña não está morto. Está apenas adormecido por algum tempo. Não temos certeza se esta sua sesta será prolongada ou não”, conclui.
“Níveis perigosos de preços”
Um retorno do La Niña pode destruir os esforços dos agricultores para aumentar a produção de milho, trigo e outras culturas, desencadeando uma nova elevação nos preços. O trigo subiu 62% no ano passado, atingindo a cotação mais alta dos 30 meses anteriores. O milho mais do que duplicou no mesmo período, enquanto a soja avançou 49%.
Os preços do milho, da soja, do trigo e do arroz subiram para o seu ponto mais alto desde 2008, neste ano, quando os seus altos custos estimularam revoltas do Haiti ao Egito. Cerca de 44 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza desde junho passado pelos “níveis perigosos” dos preços dos alimentos, segundo o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick declarou em fevereiro.
A área plantada com milho neste ano nos Estados Unidos será de 92,17 milhões de hectares, a segunda maior desde 1944, os lucros agrícolas deverão subir enquanto a demanda por alimentos e biocombustíveis se mantiver crescente e os estoques se mantiverem curtos. “Os novos plantios não deverão recompor os estoques em medida significativa, mantendo os preços desta temporada em níveis elevados”, afirmou o relatório sobre os Mercados Agrícolas, do Rabobank, nesta sexta-feira.
Com informações da Bloomberg
Fonte: Trigo & Farinhas

