Produtores de cana temem perder ainda mais terreno
Entre 2005 e 2009, mais de cem novas usinas de açúcar e álcool entraram em operação no país. O boom de investimentos totalizou aportes da ordem de US$ 20 bilhões, segundo a União da Indústria da cana-de-açúcar (Unica) e ajudou a colocar o setor produtor de derivados da cana-de-açúcar em novo patamar no contexto energético brasileiro.
Nesta década, a participação do petróleo e seus derivados na matriz brasileira de energia diminuiu cerca de oito pontos percentuais, de acordo com levantamento da Unica: passou de 45,5%, em 2000, para 37,9%, em 2009. Ao fim desse período, cerca de 18% da energia consumida no país já provinha de derivados da cana-de-açúcar.
Essa ascensão, em boa parte, é explicada pelo largo uso de carros-flex, que permitem que o consumidor opte por etanol ou gasolina, conforme o preço lhe convier. Esse modelo contribuiu para que o consumo de etanol, que em 2000 não chegava a representar metade do consumo de gasolina, superasse a demanda do combustível fóssil pela primeira vez, em 2009.
Apesar do forte fluxo de investimentos, ainda há incertezas sobre se esse ganho de participação da cana na matriz vai perdurar.
Em 2010, por exemplo, as vendas de etanol caíram 3,86% de abril até 1º de dezembro, e a participação das usinas nos leilões de biomassa também vem declinando.
Parte desse movimento de relativa retração no ritmo de crescimento do setor se explica pelo forte movimento de consolidação em curso. Nos últimos dois anos, segundo dados do Itaú BBA, cerca de 120 milhões de toneladas de capacidade de moagem de cana foram negociados e trocaram de mãos. O movimento foi decisivo na entrada de capital estrangeiro no setor, que passou a deter 25% da capacidade instalada no Centro-Sul, ante 6% de cinco anos atrás.
A consolidação trouxe profissionalismo na gestão e contribuiu para robustez financeira do setor, que vinha de um período de crise. Mas também está trazendo um longo período de baixos investimentos em aumento da capacidade instalada – o setor ainda está na fase de "digerir" os ativos incorporados.
Antes da crise mundial se tornar aguda, em 2008, as usinas, que já vinham de uma safra de preços baixos para etanol e açúcar, passaram a entrar no vermelho, pois vinha justamente de uma forte fase de alavancagem.
Em apresentação feita em novembro na Conferência da Datagro, em São Paulo, Alexandre Figlioni, diretor do Itaú BBA, informou que uma parcela importante de usinas já saiu da crise, e estariam aptas a investir.
Mas não é o que está ocorrendo, pelo menos por enquanto. Em 2010, foram raros os projetos de usinas novas que começaram a ser executados. No total, nove usinas foram concluídas e entraram em operação no Centro-Sul na safra 2010/11, ante 19 em 2009/10 e 30 em 2008/09. Para 2011, estão sendo esperadas entre três e quatro novas unidades, segundo a Unica.
O presidente da associação das usinas, Marcos Jank, também não vê apetite de indústrias de açúcar e álcool em investir em novos projetos. Isso porque, de acordo com ele, ainda há uma preocupante instabilidade das políticas públicas para o etanol e para a bioeletricidade.
Para Jank, a retomada dos investimentos em expansão dependerá do nível de segurança que a indústria terá para voltar a gastar. "Os custos de produção estão altos, em patamares que neste ano foram suportados pelos preços recordes do açúcar – e que não vão durar para sempre."
Autor: Fabiana Batista. Fonte: Valor Economico

