Cotações em alta ofuscam especulação

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Chicago, EUA – Após mais de três meses de alta praticamente ininterrupta, os preços da soja e do milho estão fortalecidos no mercado internacional. Apesar de terem registrado leve recuo na Bolsa de Chicago nesta quarta-feira, os dois grãos acumulam saldo positivo em 2010. A oleaginosa, que finalizou os negócios do dia valendo US$ 11,765 o bushel (27,2 quilos), ou US$ 25,95 a saca, tem preço 18% superior ao de igual pe-ríodo do ano passado. Cotado a US$ 5,6925 o bushel (25,4 quilos), ou US$ 13,45 a saca, o cereal vale quase o dobro do que valia em outubro de 2009. Na soja, é o maior patamar em mais de um ano. Ainda mais firme, o milho tem os preços mais altos em mais de dois anos.

Os bons preços internacionais devem se sustentar até a colheita brasileira, mas uma série de fatores tornam as cotações atuais atraentes, avaliam analistas entrevistados pela Expedição Safra em Chicago. Eles confirmam que o mercado trabalha com possibilidade de altas, por causa da provável quebra na produção da América do Sul relacionada ao fenômeno La Niña. Porém, frisam que essa quebra ainda não é dada como certa nem pode ser calculada com exatidão. Em relação ao estímulo ao aumento nas cotações que vem da demanda chinesa, lembram que há um grande volume de grãos entrando no mercado a partir dos Estados Unidos.

“Com área limitada para a agricultura, a China continua comprando 1 milhão de toneladas de soja por semana”, aponta Tatiane Miglorini, analista do Price Futures Group. Ela acrescenta que a influência da safra brasileira será cada vez maior a partir de agora, com os mercados voltados para o clima na América do Sul. Porém, como uma safra cheia não pode ser descartada, prefere falar em sustentação dos preços atuais. A especialista conta que a consultoria trabalha com cotações médias perto de US$ 8,5 a US$ 9 por bushel de soja e de US$ 5,25 a US$ 5,5 por bushel de milho para os próximos meses.

Os preços atuais ainda respondem à redução da safra norte-americana pelo relatório do departamento de agricultura do país, o USDA, divulgado semana passada e tendem a variar de acordo com o mercado climático brasileiro, afirma o analista Daniel W. Basse, que preside a AgResource em Chicago. Ele conta que o mapa meteorológico da América do Sul vem sendo examinado pelos corretores e agentes da Bolsa de Chicago pelo menos duas vezes ao dia, por meio de um serviço especializado que custa o equivalente a R$ 12 mil por mês no país.

Em meio à incerteza que vem do La Niña, as cotações atingem picos durante o dia. “Fechamos um contrato de soja para um fornecedor do Brasil com o bushel a US$ 12,01 em maio”, relata Tatiana. O valor atrai a atenção de especuladores, apesar de o momento ser de realização de lucros, frisa. E o produtor paranaense pode receber perto disso. Houve indicação ontem, em Paranaguá, de US$ 12,15 para abril.

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“Por mais que os preços possam subir nos próximos meses, estamos num bom momento para vender de 30% a 40% da produção”, avalia o analista técnico e econômico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), Robson Mafioletti, que acompanha a Expedição Safra nos Es­­ta­dos Unidos. Para ele, a expectativa de preços para a época da colheita brasileira não foi alterada pelo relatório do USDA, e existem fortes indicativos de alta, como a quebra por falta de chuva na América do Sul e a própria redução da safra dos Estados Unidos, mas o momento é bom para garantir parte da renda da safra a cotações recompensadoras.

A colheita dos Estados Unidos evolui rapidamente. Na última semana, o porcentual da área colhida, que era de 37% para soja e milho, passou a 67% e 51%, respectivamente. Nesta mesma época do ano passado, a oleaginosa estava em 22% (45 pontos a menos) e o cereal, em 13% (-38 pontos). Se houver condições climáticas, a tarefa pode ser concluída em duas semanas.

Apesar de produtores dos estados de Iowa, Indiana, Illinois e Minnesota, que respondem por aproximadamente metade da produção do país, estarem relatando produtividade acima das verificadas no início da colheita, os analistas de Chicago afirmam que os números do USDA não devem mudar substancialmente. “Na soja pode haver acréscimo, mas no milho isso será mais difícil. Pode ter inclusive nova queda”, avalia Tatiane.

Mesmo com a produtividade da soja fixada 0,7% abaixo da prevista pelo USDA um mês atrás, o volume a ser colhido (92,75 milhões de toneladas) é recorde. Para o milho, houve redução de 3,77%, o que indica que a produção deve ser de 321,7 milhões de toneladas, a terceira maior da história. Com a queda no milho, o país colhe 10 milhões de toneladas a menos do que na temporada anterior.

“Temos um quadro de oferta e demanda para a época da colheita brasileira que começa a se definir, com indicações novas”, afirma Mafioletti. Em sua avaliação, além de a sustentação dos preços estar se confirmando, haverá mercado para expansão da produção do milho no próximo ano nos Estados Unidos e, dependendo da oferta e demanda internas, também no Brasil.

fonte: Gazeta do Povo


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