Falta apenas um “detalhezinho” para o boi gordo subir

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A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”.

Na Copa do Mundo de 1958, um dia antes do jogo contra a Rússia, o então técnico da seleção brasileira de futebol dava as instruções para a equipe executar em campo no dia seguinte. A estratégia incluía o nosso “mestre das pernas tortas”. Ele teria que fazer uma série de dribles e passar a bola para o Vavá marcar o gol. No final da explanação, Garrincha disse: “Vocês já combinaram tudo isso com os russos também”?

Vejamos abaixo o que o Garrincha diria atualmente para nós, pecuaristas…

1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?

Estaria a estabilidade querendo ceder seu lugar para a alta no mercado do boi? Será? Com relação ao indicador, saímos de R$ 141,07/@ (variando de R$ 140 a R$ 143,50) e chegamos em R$ 142,53/@ (variando de R$ 139 a R$ 145,50), o que definiu a semana passada como a segunda seguida de alta (leve) da arroba.

Alguns estados estão tendo alterações de preços pequenas e pontuais para cima, como SP, MS, MG e GO. Mas a tendência flat ainda prevalece como tendência dominante.

Quanto ao encerramento do mercado físico da semana passada, o nosso BeefRadar apontava para o intervalo de R$ 139 a R$ 144/@ à vista, ou seja, R$1 de alta na banda máxima. A “terra do tuiuiú” chegou a ter o boi de R$ 137/@ ao durante a semana, mas com a “melhorinha” obtida na compra, “derrissou” de volta para o R$ 135/@.

No tocante às escalas das Terras Bandeirantes, o dia “DIA D” continua na terça, dia 08/set, mas apenas por conta do feriado da segunda (07/set), caso contrário teria encurtado um dia (este tênue encurtamento é o fato motivador desta “altinha” paulista da semana).

O STATUS DO BEEFRADAR mantém o “norte magnético” na estabilidade, mas desloca o peso da sua bússola um pouco mais para a alta:

22.5% queda (leve) : 45% estabilidade : 32.5% para alta (leve)

2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?

E o boi goiano segue a “toadinha” de fervura da semana passada, mas “igual a bule de muié casadinha de véio, fervendo devagarinho”. Agora o balcão mais comum passou a ser R$130/@av x R$ 132/@ap (prêmio EU variando de acordo com cada indústria, entre R$ 0 e R$ 2/@). O adicional “personalité” de R$ 1/@ está bem mais frequente, assim como a especulação, também em alta neste momento (fato comum no início de uma alta).

O feriado de 07/set faz a “boca de jacaré” das escalas ficar um pouco mais aberta. Há indústrias para os dias 08 a 09/set, mas há outras ainda sem fechar a semana que vem completamente, o que deixa o “bule goiano” mais quente um pouco.

O diferencial de base não conseguiu furar os R$10/@ de deságio, ficando “enroscado” nesta resistência, enquanto a vaca segue com preço bem próximo ao boi, entre 3.5 e 4.5% de deságio.

3) HORA DO QUILO: “Fazer o que se gosta é liberdade. Gostar do que se faz é alegria” (autor desconhecido).

4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: O que você compraria: coxa com sobrecoxa de frango a R$ 5.99/kg ou coração bovino congelado a R$ 7.99/kg? Este que vos escreveu viu estas “ofertas” no feira do supermercado do último domingo… Isto é o que eu chamo de concorrência forte de uma proteína alternativa.

5) O LADO “B” DO BOI:

5.1.) O NÚMERO QUE ERA DADO COMO CERTO E PODE NÃO SER

É o número de animais confinados no Brasil em 2015. Aumento era a bola da vez das estatísticas no primeiro semestre. Um dia, tive a oportunidade de opinar e quase fiquei com vergonha de dizer o contrário. Mas, parece que a coisa não era tão pujante quanto ao total de bois confinados em 2015 como parecia. A Assocon relata um aumento menor (7.65% em fev/15 e 5.33% em jun/15) e não descarta uma queda de até 10% na próxima pesquisa. Motivos: boi magro em alta e BMF sem “aquele baita ágio” para a entressafra.

5.2.) O NÚMERO QUE ERA DADO COMO CERTO E DE FATO FOI

Mas foi pior que o esperado. O PIB do 2º Trimestre de 2015 (2T15) caiu 1,9% em relação ao 1T15, o qual por sua vez havia caído 0,7% em relação ao 4T14. Com dois trimestres em queda, entramos na chamada “recessão técnica”. A queda foi capitaneada pela indústria, que teve retração de 4,3%.

Com relação ao 2T14, o 2T15 caiu 2,6%. O acumulado jan a jun 15 aponta queda de 2,1% em relação ao mesmo período do ano passado. Portanto, a queda de 2015, independente de como se olha para 2014 está acima dos 2%…

Se analisarmos o somatório da variação do PIB dos dois trimestres de 2015 de todos os setores (indústria, agropecuária, serviços, consumo das famílias, investimentos), vemos que só a agropecuária apresenta valor positivo no somatório. Continuamos a “salvar a pátria”, portanto.

De uma lista de 35 países mais importantes, só ganhamos de Rússia e Ucrânia, pasmem… E Crescem as apostas para termos, não um, mas sim dois anos seguidos em recessão. Nem os pessimistas acreditavam em números tão ruins.

Não bastasse tudo isto, ainda temos a crise política: começamos a semana com o Temer saindo (da articulação política) e terminamos com o Lula entrando (na corrida presidencial de 2018).

5.3.) O NÚMERO QUE ERA DADO COMO INCERTO E QUE DE FATO, ESTÁ INCERTO

Logo na segunda passada os mercados das bolsas, petróleo e commodities foram chacoalhados pelas notícias da China. Medidas tomadas pelo governo chinês com o intuito de ativar a economia geraram a desconfiança de que algo possa estar pior do que realmente está. E se a China vai mal, isto afeta a todos, principalmente para nós, que tem naquele País oriental o destino principal de nossas exportações.

No fundo, a palavra chave disto tudo é “desconfiança”. Como o governo é ditatorial, nunca se sabe ao certo tudo, e isto gera receio, que impede negócios. É o medo do que não se sabe ao certo. De repente, este “incerto” nem é tão ruim assim, mas só por não ser totalmente conhecido, gera temor aos mercados.

5.4.) PASTINHO DA PORTA LOTADO

A safra de bezerros que será desmamada em 2016 começa a nascer. A sorte está lançada, portanto. Enquanto isto, o bezerro apresenta uma queda de preços não homogênea ainda em vários estados do Brasil.

Parece ser o início de um movimento de queda que deve se intensificar nos próximos anos, com o aumento da oferta que virá. Como o movimento ainda não é homogêneo, relatos desencontrados de preços firmes e de preços em queda pipocam e geral controvérsias e espanto. Obs.: por falar em espanto, a chuva caiu com força nesta quarta e quinta passadas, em alguns lugares com incríveis 140mm em uma pancada só. Lá se foi a bucha para o resto da seca nestas regiões. O gado vai ficar somente por conta do brotinho. O problema é que geralmente a chuva “não firma” agora, e aí… Nada de broto e nem de bucha. O fato chegará a ter repercussão no preço da reposição. Pode ser… Pouco provável, mas não é impossível.

5.5.) QUAL É O BENDITO “DETALHEZINHO” QUE FALTA?

Sendo verdadeiro, este detalhe já foi exposto aqui… Cresce no mercado bovino a expectativa e a especulação de uma nova onda de alta. Esperamos que ela venha realmente.

Mas vamos lançar um olhar mais atento aqui. O que estamos vendo é que realmente a oferta encurtou e em função disto, reajustes pontuais são vistos em algumas praças como MS, MG, GO e até mesmo SP (em menor grau). Mas, após “soltar o novo preço no estradão”, ao menor aumento de liquidez e preenchimento das escalas, os compradores voltam a se retrair. Tínhamos alertado para este tipo de movimento de quem está com foco em não voltar a perder margem. E é o que ocorre até agora.

Pelo boi, analisando só o lado da oferta, o mercado é para cima, pois os vendedores são escassos (especialmente de boi não EU). Mas as altas que vemos, são como as citadas, ou seja, são mais fracas que sinaliza a oferta restrita.

E porquê? Resp.: os compradores não “soltam a rédea dos preços para cima” porque a carne no atacado segue sua toada “de lado com viés para baixo”, como dito no jargão do mercado. Nem na virada do mês, as vendas deixaram de patinar. Basta ir ao supermercado, como fiz nos dois últimos domingos pela manhã… Esperava enfrentar uma enorme fila, mas ao não encontrá-la perguntei à moça do caixa (tenho isto como costume) o motivo. Ela me respondeu, “na lata”: “é a crise e o final de mês”. Experimentem entrar numa loja de rua, geralmente vazia, e sair sem comprar nada. Os vendedores não te deixam sair… Muito simples a conclusão que se apresenta límpida: as famílias estão consumindo menos.

E consumindo produtos mais baratos. Neste ponto, está mais um entrave para as vendas de carne: as carnes alternativas. Elas estão muito competitivas em relação à carne bovina. Vamos aos números: nos últimos doze meses, a carne bovina subiu cerca de 9,5%, enquanto que a de frango e a suína, caíram 3,6% e 24,4%, respectivamente. A carne bovina, subiu pois está com a produção menor. As de frango e suíno, muito embora venham de cadeias de produção que realizam ajuste à demanda mais facilmente, esbarram no consumo em baixa. E olha que a exportação de ambas está bem… Imagina se não estivéssemos vendendo bem para fora do País…

Ao olharmos os movimentos de suínos e de aves, que mesmo com exportações em alta, estão em retração de preços em função de consumo, fico imaginando como ficaria o boi caso não tivessem ocorrido os ajustes de produção? Em resumo: como já dissemos em textos anteriores, a oferta restrita é quem está impedindo de termos um cenário grave de derretimentos de preços da arroba. Mas a demanda fraca tem limitado a alta.

Finalizando: o cenário para uma alta mais pujante está montado. Mas esta alta só vai deixar de ser ficção e se tornar realidade, caso a demanda interna e externa passem a ajudar.

O nosso Garrinha da pecuária (o cenário da alta) já sabe o que fazer. Resta saber se “nós já combinamos tudo isso com os CONSUMIDORES também”? É isto que o Garricha nos diria. E é este o detalhe que falta: COMBINAR COM OS CONSUMIDORES!

Por “derradeiro”, desejamos que você tenha uma semana proveitosa e que ela seja um tempo em que as suas reais necessidades (e não os seus desejos) sejam atendidas pela Divina Presença.

Fonte: NOTÍCIAS DO FRONT.

Rodrigo Albuquerque (@fazendaburitis) &

Ricardo Heise (@boi_invest),

Num trabalho feito a 4 mãos…


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