DOS FINS PARA OS MEIOS: A DEMANDA COMANDA
A pecuária Goiana e Brasileira descrita por quem a vive e “carrega o pó da viagem”.
Se você fosse um frigorífico, como você agiria? Compraria o boi, o “desmontaria”, comporia seus custos e a margem desejada, calcularia por qual preço teria que vender a carne, para então sair ao mercado para tornar a operação exitosa?
Ou você iria primeiro no mercado da carne no atacado, checaria o preço dos cortes ou carcaça, faria a “engenharia reversa” do preço de venda/seus custos e com isto calcularia qual o valor da arroba que poderia pagar, verificando por último se este valor é factível ou não no mercado físico do boi. Seria este o caminho a ser adotado?
Pelo pouco que entendemos deste mercado, parece que a coisa era de um jeito até algum tempo atrás e de uns anos para cá mudou…
E com você, como funciona? Vamos ao mercado.
1) COMO ESTÁ O NOSSO TETO (SP/MS)?
De olho firme na “baliza da nossa cerca de preços”, vimos na semana que se encerrou o indicador Esalq/BMF sair de R$ 142,48/@ (variando de R$ 140 a R$ 145) e descer para R$ 140,94/@ (variando de R$ 140,25 a R$ 141,25). Desde o dia 20/abril o indicador mostra uma tendência de queda, pois as semanas de baixa prevalecem desde então. Foram 13 semanas, sendo 10 de baixa (quase 80% das semanas) e apenas 3 de alta.
A onda de ajuste de preço já parece ter feito seu maior curso, mas há ainda algum espaço para ajuste e queda do indicador, visto que o mercado físico já pratica preços abaixo da mínima captada do intervalo de negociação acima exposto.
O físico do encerramento da semana já evidencia preços de R$ 137 (indústrias maiores) até R$ 142 (indústrias menores) por @, base SP, à vista. Enquanto isto, na “terra do tuiuiú”, vemos preços de R$ 135/@ ap.
As escalas ainda deixam bem confortáveis os compradores paulistas. Eles estão “folgados igual a noivo de filha única e rica”. A esmagadora maioria está com a próxima semana pronta, com algumas indústrias já avançando “mês de agosto a dentro” (entre o dia 03 até o dia 15/ago). Desta forma, o dia “DIA D” avança para TERÇA (04/ago) e o “PLACAR” sobe para 6 dias úteis (entre o dia do acordo da venda e o abate). O STATUS DO BEEFRADAR vai para:
45% queda (leve) : 45% estabilidade : 10% para alta (leve)
2) E AQUI, NA TERRA DO PEQUI?
O preço balcão de GO, segue “crescendo igual a rabo de égua de viúva”, ou seja, houve novo recuo e no fechamento da semana, o intervalo de negociação mais comum era R$126/@ av x R$ 128/@ ap, e com mais uma novidade ruim: o ágio EU, que ainda era pago por várias empresas, agora praticamente sumiu do mercado.
Na “mesma batida” que SP, as escalas seguem folgadas, até um pouco mais que nas “terras dos Bandeirantes”. Bois de termo dão grande sustentação a empresas que adotaram esta estratégia de compras. Assim, as escalas estão entre 04 a 12/ago, em geral.
Sem novidade quanto ao diferencial de vaca x boi, o qual segue fechado (entre 4 e 5% de deságio) e também quanto ao diferencial de base GO x SP, que continua bem aberto, entre – R$ 11 a 12/@.
3) HORA DO QUILO: O Ministério Público Federal colocou no ar o site da Operação Lava Jato, esclarecendo a população quanto ao maior assalto que já sofremos na história deste pais! A transparência, em rede social, é uma arma do MPF para evitar casos como o ocorrido na Argentina, em que a acusação do Governo acabe em morte… Veja: http://www.lavajato.mpf.mp.br/
4) TO BEEF OR NOT TO BEEF: “Você conhece a genética que você compra”? Esse VT que está no Canal do Boi é o tema da campanha desse ano da CFM. Haverá inclusive um “tira dúvidas” online sobre o Megaleilão CFM, dia 04 de agosto, terça-feira, a partir das 18:40h, com transmissão ao vivo no portal BeefPoint e Canal do boi. Independente de comprar o touro da CFM ou de qualquer outra fonte, esta iniciativa beneficia quem demanda este produto, pois “ergue a barra” do mercado como um todo, ao ofertar conhecimento e incentivar a compra técnica. Parabéns ao Luis Adriano Teixeira por mais esta inovadora iniciativa. Segue o link: https://www.youtube.com/watch?v=zv-B2k7dazg&feature=youtu.be
5) O LADO “B” DO BOI:
5.1.) O AJUSTE AINDA EM CURSO
Em suma, o “caldo que dá para extrair” de tudo o que o mercado nos ofereceu de inputs para raciocínio nesta última semana é que o movimento de ajuste continua, mas que já deve ter percorrido a maior parte do seu curso. O “pacote de maldades” para com o preço da arroba pode já ter sido quase todo aberto…
Ainda nesta semana foi anunciado mais uma planta que interrompe suas atividades, neste caso, em Anastácio, no MS. Aliás, o MS foi o local de aproximadamente 50% do ajuste dos frigoríficos feito no Brasil, segundo cálculos do nosso amigo e profundo conhecedor de mercado, o Rogério Goulart, fato que ele chamou de “mini-aftosa”.
Mas, como disse e agora reforço: parece que o “grosso da tempestade” (ajuste) está passando. Entretanto, não dá para comemorar, pois ficaram os estragos e a bonança não virá de imediato. O mercado vai ter que contabilizar quais foram estes estragos, bem como consertar as “marcas de barro que ficarão nas paredes da demanda” e o que foi destruído.
Importante notar “algumas destas marcas”, tais como:
5.1.1) O boi cedendo: desde 20/abril o mercado está em queda (base SP). Naquele dia o indicador av batia R$ 150,65/@ em SP. Em GO, o recorde do ano e também da história foi de R$ 142,65/@ av quase no mesmo dia que o de SP. Foram praticamente R$ 10/@ em SP e cerca de R$ 12 a R$ 16/@ nos estados, pois o diferencial de base abriu de maneira geral;
5.1.2) O atacado cedendo: não por acaso, quase concomitante ao boi, em 15/abril o atacado anotava o maior valor do ano, com o equivalente físico em aproximadamente R$ 147/@. De meados de abril, o atacado caiu cerca de R$ 10/@ até início de junho, corroendo as margens operacionais. Com o ajuste das plantas frigoríficas iniciado por volta de 10/jun, houve recuperação do valor do atacado, mas nas últimas duas semanas, apesar da queda de produção de carnes ocorrida em função da redução de abates (via fechamento de plantas), o preço da carne começou a ceder novamente, estando hoje próximo de R$ 140/@ (equivalente físico). Portanto de abril para cá, o boi caiu mais que a carne;
5.1.3) A margem bruta operacional de frigorífico melhorando: definitivamente entre set/2014 e jun/15 se passaram os piores 9 meses da história em termos de margem bruta operacional obtidas pelos frigoríficos em nossos registros. Durante estes 9 meses, foi gestado uma operação inédita de ajuste de produção, que nasceu no início de jun/15, combatendo a ociosidade de plantas no nosso País. Esta operação recuperou um pouco o preço do atacado inicialmente, mas de maneira não duradoura, como está acima, pois a demanda pesou. Porém, como o boi caiu mais que a carne, as margens brutas recuperaram, senão até os maravilhosos níveis de 2012, mas sim, até os melhores níveis do estável ano de 2013. Nada de achar que está um mar de rosa para a indústria, pois nossos registros são os Equivalentes da Scot Consultoria, os quais não contabilizam os custos, não sendo portanto o mesmo que lucro. Sabemos que este período de ajuste envolve demissões, que tem altíssimo nível de encargos no nosso País. Portanto, a “tarefa de casa” ainda não terminou para a nossa indústria. Isto não é um problema nosso, dos produtores, mas nos afeta pois tira dela, nosso parceiro comercial, a vontade em pagar mais pelo nosso produto;
5.1.4) A reposição cedendo: sim, a pressão vai permeando ao longo da cadeia… O indicador do preço da BMF para o bezerro (base MS) anotou o maior preço do ano (e da história) em 26/maio/15, quando marcou R$ 1.461,91/cab. O valor da última sexta marcou exatos R$ 200,17 de queda por cabeça. Em GO, o mesmo raciocínio com os dados da praça do CEPEA Goiânia mostra uma queda de R$ 225/cab. Já o boi magro goiano, mostra queda de R$ 450/cab;
5.1.5) A crise político-econômica aumentando: paralelamente a tudo isto, que é particular de nossa cadeia, o País aprofunda a crise econômica e cria perspectivas de um maior aprofundamento ainda, na mesma medida em que a estabilidade política e institucional do nosso País se fragiliza, à luz do excelente trabalho do MPF e da PF, que desvendam a pesada, impensável e talvez inigualável roubalheira em nosso governo. Mas dizem que tem coisa ainda mais pesada no BNDES… O 7 x 1 de 2014 vai se transformar em 9 x -2 em 2015 (9% de inflação e 2% de recessão). Com isto perde-se o poder de consumo das famílias, fato que não ocorria desde 2003. Só este ano foram R$ 16 bilhões de perda. A cadeia da carne não tem como ser imune a isto. Veja: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/07/1660481-familias-brasileiras-perdem-r-16-bi-de-seu-poder-de-compra-mensal.shtml?cmpid=newsfolha;
5.1.6) O dolar se valorizando: atingimos o maior valor dos últimos 12 anos. Isto trás esperança ou preocupação? Sim, pode nos dar competitividade externa, nos 20% que exportamos (este ano até menos que isto). Mas nos 80% que comemos de nossa produção pode nos trazer mais problemas, visto o efeito inflacionário da valorização da moeda americana e a sua correlação com inflação interna por aqui (o que pioraria mais ainda o potencial de consumo)… Além disto, a variação cambial tem seus efeitos negativos também sobre a indústria (dívidas). Não soltemos fogos por isto aqui, portanto;
5.1.7) O BGI se valorizando na BMF: nos últimos pregões, o boi deu uma respirada na bolsa, voltando o contrato de novembro a ter um valor acima de R$ 145/@. O mercado estava realmente “sobre-vendido” com diz o jargão desta turma. Por ora é só, mas parece que ao menos até aqui, o mercado encontrou um nível que entende ser muito próximo do fundo do poço.
Finalizamos voltando ao raciocínio do início deste. A muitos anos atrás, o frigorífico comprava o boi gordo e depois calculava por qual valor deveria vender a carne para remunerar a operação. Ultimamente, a conta é feita dos fins para os meios. Ou seja, o nível do mercado do atacado é a baliza mais importante e primeiramente considerada para a compra do bovino. E não mais o inverso, para evitar que o boi se torne um “passivo operacional”, se comprado fora da faixa “ideal”.
Falamos acima em “baliza”. O atacado é “a” baliza, atualmente, como também são o boi a termo, os indicadores e o mercado futuro da BMF. Mas, é óbvio que quem forma preço é a relação oferta x demanda, quem manda mesmo são estes dois “personagens”. Estas balizas são importantes, mas são apenas satélites orbitando ao redor do sol chamado relação oferta x demanda. No universo dos preços do bovino, a estrela central que define preços é esta relação. Igual ao sol, a relação oferta x demanda é quem dá a temperatura do mercado.
Ultimamente, o driver “oferta restrita” tem sido o piloto. Mas com o robusto desequilíbrio de preços ao longo da cadeia e o aprofundamento do péssimo momento político-econômico do nosso País, o “cockpit do mercado” ficou menor. E quem assumiu a direção deste “diminuto cockpit” (com cerca de 50 plantas frigoríficas a menos), dando novos rumos ao mercado, passou a ser a “demanda em frangalhos”. Ainda bem que estamos em um ano de baixa produção de carne. Isto tem nos deixado (até agora) imunes a grandes derretimentos de preços, conforme falamos desde o ano passado. Só para lembrar, em que pese estarmos passando a cerca de 90 dias por um momento de baixa de mercado, estamos com uma considerável alta neste ano (+20.9%, comparando a média diária de preços do primeiro semestre de 2015 com 2014).
A pergunta do momento passa a ser: até quando esta baixa, que já dura 90 dias, vai? Nossa opinião: obviamente a “demanda em frangalhos”, hoje o nosso flagelo, deixa qualquer possibilidade de retorno da fase de alta mais distante e potencialmente menos pujante, visto que “gato escaldado tem medo de água fria” (a pressão do hedge virá forte após a recuperação dos primeiros patamares psicológicos de preço, tal como o R$ 150/@).
Mas esta possibilidade de retorno para uma curva ascendente de preços existe, num mercado de produção também pouco pujante (vale lembrar que o abate se reduziu em 7.7% no primeiro trimestre, com queda de 14% no abate de fêmeas). E para nós, a maior possibilidade reside num possível vácuo de oferta entre o primeiro e o segundo giro (final de agosto/setembro), e também se houver redução do real fechamento de animais em confinamento do segundo giro, frente à intenção inicial de tal operação (externada previamente em pesquisas de mercado como muito forte para 2015) em função da perda das máximas cotações da entressafra.
Na espera destas respostas, ficaremos monitorando o mercado e repassando as informações/nossas opiniões aqui, para que você forme as suas próprias.
Que a sua vida esteja alinhada aos melhores propósitos e valores; que a sua família seja o seu melhor porto seguro e que seus amigos sejam seu maior patrimônio. É o nosso desejo a você, que nos dá o privilégio de sua atenção. Até a próxima, se Deus permitir.
Fonte: BeefPoint, por Rodrigo Albuquerque e Ricardo Heise.

