Categories: Ciência e Tecnologia

“Sou cientista, mas tenho orgulho é de ser agricultor”

POR VIVIANE TAGUCHI

Ele acorda, diariamente, às 2 horas da manhã. Até às 4, quando o sol ainda nem dá pistas de que vai aparecer, exercita sua mente – mais precisamente o lado direito do cérebro, aquele que comanda as emoções e a capacidade de observar o ambiente – escrevendo poemas, pensamentos e desenhando. Depois, se põe a tocar piano, sobretudo as composições de Vivaldi, até que o dia amanheça. Só aí é que Ernest Götsch pega uma ou duas ferramentas e vai trabalhar. Na roça, em Piraí do Norte, interior da Bahia.

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A sua lavoura tem 10 hectares, fica no meio de uma floresta de 350 hectares, e dela, Götsch retira cerca de 4 mil quilos de cacau de primeira qualidade por safra. Um produto tão bom que 100% é comprado pela indústria italiana de chocolates Amedei, que produz o melhor chocolate do mundo, segundo a Academy of Chocolate of London, e paga quatro vezes mais pelas amêndoas. “Só que também tem aqui todos os tipos de frutas, vegetais folhosos, castanhas, café, milho, frutas exóticas”, diz Götsch.

Ernest Götsch é um cientista genético suíço que fala a quem se aproxima que, apesar da formação acadêmica e os títulos científicos, gosta mesmo é de ser chamado de agricultor, e que escolheu viver no Brasil com uma missão bastante árdua: recuperar as terras degradadas e com baixa produtividade e transformá-las em florestas que produzem alimentos. “É possível recuperar qualquer área neste país, pois aqui temos as condições ideais para recuperar a produtividade e principalmente, produzir todos os tipos de alimentos dentro da floresta”, diz

O agricultor, de 67 anos, é o precursor da técnica atualmente chamada de agricultura sintrópica. O nome ficou conhecido pelo grande público recentemente porque faz parte da trama da novela Velho Chico, da Rede Globo. “É a mesma coisa que sistemas agroflorestais, mas a denominação sintropia faz muito mais sentido para mim”, explica. Segundo ele, sintropia é o oposto da entropia, que é a medida do grau de desorganização de um sistema. “Então, a agricultura sintrópica é um sistema em que você trabalha para organizar o ambiente, de acordo com a dinâmica natural dele.”

De acordo com a técnica desenvolvida e aprimorada por ele, é possível produzir alimentos no meio da floresta, sem o uso de qualquer tipo de insumo, utilizando técnicas de manejo simples. “Se você cria um ambiente equilibrado, é possível ter terra fértil, produção de alimentos, controle de pragas e água, muita água”, revela. Essa experiência ele mesmo testemunhou em sua fazenda. “Era uma propriedade de pastos degradados e encostas de morro improdutivas”, lembra. “Hoje, temos 350 hectares de florestas manejadas, 14 nascentes recuperadas e uma lavoura com custo zero”.

Para chegar a esses resultados – todos catalogados e traduzidos em dados cinetíficos – Götsch passou boa parte da vida plantando árvores e manejando-as. Chegou à Bahia e, com um amigo, comprou a fazenda Fugidos da Terra Seca. “Tinha um pasto cheio de cupim e uma goiabeira”, recorda. O trabalho começou com a capina seguido do plantio de árvores de madeira de lei e nativas, árvores frutíferas e de mandioca. “Tudo planejado: árvores de grande porte, de médio porte e culturas baixas.”

Em três ou quatro anos, quando ele rebatizou a fazenda de  Olhos D’Água, começou a perceber profundas mudanças: as árvores de grande porte cresciam, as frutíferas estavam se desenvolvendo, enquanto embaixo delas, a mandioca e as hortas produziam aos montes. “Aí eu plantei os cacaueiros, hoje são 67 diferentes variedades e, devido ao equilíbrio do ambiente, são frutos da melhor qualidade”.

Os cacaueiros de Götsch convivem harmoniosamente com pragas e plantas daninhas, inclusive a temida Vassoura de Bruxa, praga que devastou a atividade no final da década de 1980 e início dos anos 1990. “É manejo integrado de pragas, todo agricultor deveria usar esta técnica para economizar no agrotóxico”, alerta.

Para adubar a terra, ele utiliza os recursos que a própria natureza oferece. “Você precisa podar as árvores para elas crescerem e é a poda delas que vai alimentar o solo, com matéria orgânica”, ensina. “Com o tempo – e toda planta tem o seu tempo útil de vida – essa árvore vai cair e, então, o agricultor tem o ativo florestal para comercializar”, diz.

Ernst começou cedo a entender sobre a terra e a natureza. Com dois anos de idade, ganhou dos pais um quadrado de terra. “A gente começa cedo a entender como é produzir alimentos para dar valor a isso. É vida”, afirma ele, que tem quatro filhos e também seguiu essa tradição com eles. Hoje, uma das filhas mora na fazenda ao lado da dele e é ela quem comercializa os produtos. “Observar a natureza é uma grandeza, entendê-la, é uma dádiva. Se todos nós tentássemos entender como a natureza funciona e começarmos a trabalhar de acordo com o ritmo da natureza, teríamos um mundo bem diferente, bem melhor”

Revista Globo Rural

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