Dados da missão Rosetta

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Dados da missão Rosetta ajudam a confirmar teorias científicas.

Primeiros dados divulgados mostraram que o cometa é composto por gelo e possui moléculas orgânicas, informações que ajudam a aumentar a precisão dos modelos científicos.

Os primeiros resultados obtidos a partir dos dados enviados à Terra pelo módulo Philae mostraram que o cometa é composto por gelo duro e possui moléculas orgânicas. O robô passou quase três dias realizando estudos científicos na superfície do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. Apesar de previstas nas teorias sobre esses corpos celestes, as informações recolhidas são importantes porque confirmam e ajudam a aumentar a precisão dos modelos científicos.

O cometa é um objeto de estudo relevante para pesquisas sobre o surgimento dos planetas e a origem da vida na Terra porque são considerados “fósseis” da formação do Sistema Solar, há 4,6 bilhões de anos. “Eles são os objetos mais antigos do Sistema Solar e permanecem protegidos do calor do Sol, pois passam a maior parte do tempo em locais distantes e muito frios. Isso conserva suas características originais”, explica Enos Picazzio, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.

Por essa razão, um dos principais objetivos do Philae na superfície do cometa era buscar a água e material orgânico presente nesse corpo celeste. De acordo com algumas teorias, cometas podem ter trazido para a Terra água ou componentes orgânicos necessários ao surgimento da vida.

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Formação da vida — A existência de moléculas orgânicas no cometa foi confirmada pela Agência Espacial Europeia (ESA), embora os detalhes sobre essas substâncias ainda não tenham sido divulgados. A presença delas já era esperada pelos cientistas, que as observam da Terra de forma indireta, por meio da análise do espectro de luz emitido por esses corpos celestes – diferentes comprimentos de onda indicam diferentes tipos de moléculas.

“Os resultados por enquanto estão confirmando a teoria mais aceita, mas certamente o Philae vai encontrar dados que até agora a gente não tinha, porque não podem ser observados pelo telescópio”, afirma o professor. Análises mais detalhadas dos dados enviados pelo módulo vão ajudar a determinar se essas moléculas poderiam ter constituído as bases necessárias para o surgimento da vida na Terra. Nos meteoritos, por exemplos, também já foram encontradas moléculas orgânicas, mas muito diferentes daquelas que formam a vida no nosso planeta.

Água — Outra teoria posta à prova é a de que a água da Terra poderia ter sido trazida pelos cometas. Para isso, o módulo foi programado para estudar se a composição química da água do cometa é semelhante à do planeta azul. Na Terra, a água é mais comumente formada por átomos de oxigênio com oito prótons e oito nêutrons em seu núcleo (o oxigênio 16) e de hidrogênio com um próton e nenhum nêutron. Mas esta não é a única opção. Ela também pode ser composta por isótopos (átomos de um mesmo elemento químico que diferem em massa) mais pesados, o oxigênio 18 (oito prótons e dez nêutrons) e deutério, também conhecido como hidrogênio pesado, com um próton e um nêutron em seu núcleo.

“O satélite Encélado, de Saturno, por exemplo, é riquíssimo em água, mas essa água é diferente da água terrestre. Ela tem mais deutério”, explica Picazzio.  “A água encontrada nos cometas Halley, Hyakutake, Helo-Bopp, Turtle, Ikeya-Seki, que foram cometas brilhantes, se parece mais com a água de Encélado. Já os cometas Hartley 2 e 45/P têm água parecida com a água da Terra”, completa o pesquisador. Isso significa que, ainda que os dados enviados pelo Philae mostrem que a água do cometa 67P é composta por oxigênio 16, como a da Terra, não vai ser possível afirmar que o mesmo ocorre com todos os cometas ou deduzir que ela certamente foi trazida para cá por esses corpos celestes.

Relevância —“É importante lembrar que isso não diminui em absoluto a importância da missão Rosetta”, alerta Picazzio. A ciência se baseia em modelos teóricos, que aos poucos vão sendo “calibrados” ou provados, de acordo com o avanço das pesquisas. “Quando os astronautas trouxeram amostras lunares, os pesquisadores não encontraram coisas que nunca haviam imaginado, mas puderam fazer experimentos de alta precisão e ajustar seus modelos e teorias”, afirma. “Os experimentos que estão sendo feitos pelo Philae e pela Rosetta serão únicos porque é a primeira vez que tal façanha é realizada”.

Entenda a missão Rosetta:

Quando começou a missão Rosetta?

Em 1993, a Missão Internacional Rosetta foi aprovada pela Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), com o objetivo de programar a expedição a um cometa, considerado um vestígio dos primórdios do Sistema Solar que continua vagando pelo espaço. Ela custou 1 bilhão de euros.

Por que a missão é tão importante?

Rosetta é a primeira missão a pousar na superfície de um cometa. Acredita-se que os sistemas planetários se formam a partir de uma estrela, que são nuvens de gás e poeira que colapsam sob a gravidade. Em torno delas, com o tempo, as partículas de poeira vão se unindo e gerando areia, pedras e rochas que, ao adquirirem massa suficiente, se tornam asteroides, cometas e planetas.

De acordo com algumas teorias, os cometas podem ter sido os responsáveis por trazer a água, ou até mesmo a vida, para o planeta. “Acredita-se que [os cometas] tenham surgido no início do Sistema Solar, há cerca de 4,5 bilhões de anos, e que se mantenham quase idênticos ao que eram em seu nascimento”, afirma Nicolas Altobelli, um dos cientistas da ESA que participam da missão. Por isso, decifrar um cometa é também decifrar o princípio da formação do Sistema Solar.

Por que Rosetta?

A sonda foi batizada em homenagem à Pedra de Roseta, uma rocha vulcânica descoberta por soldados franceses em 1799, no Egito. Ela ajudou a desvendar o Egito Antigo para os exploradores, por possuir escritos em hieróglifos – linguagem egípcia escrita, que até então era desconhecida – e sua tradução em grego, que já era conhecido.

A comparação entre os escritos permitiu que os pesquisadores decifrassem os códigos da civilização egípcia – assim como os cientistas esperam que a sonda Rosetta desvende as peças mais antigas do Sistema Solar, os cometas.

O que é Rosetta? O que é Philae?

Rosetta é uma larga caixa de alumínio que pesa 3 toneladas com dimensões de 2,8 metros por 2,1 metros por 2 metros, que carrega o robô Philae em sua lateral. Ela é equipada com diversos instrumentos científicos para as medições e transmissões de imagens, além de antenas de comunicação e seus 24 propulsores. Ela também possui duas grandes “asas”, compostas, cadauma, por cinco painéis solares (em um total de 32 metros quadrados).

O módulo Philae, que pousou no cometa, é feito de fibra de carbono, tem 100 quilos e o tamanho aproximado de uma máquina de lavar roupas. É equipado com três pernas que podem girar, inclinar ou se levantar, e dois arpões que devem fixá-lo ao cometa. Uma antena transmite seus dados à Terra, via Rosetta. Ele carrega instrumentos para nove experimentos científicos, que pesam 21 quilos, e um sistema para extrair amostras da superfície do cometa.

Por que foi escolhido um cometa tão afastado da Terra se há outros próximos ao nosso planeta?

Para estudar a origem do Sistema Solar, o ideal é um cometa com órbita definida, que mantenha as mesmas características de quando foi formado. Quando chegam próximo à Terra, em geral, os cometas são apenas fragmentos e já sofreram a ação intensa dos raios solares, o que é um obstáculo para o propósito dos cientistas.

E por que esse cometa, em especial?

O 67P/Churyumov-Gerasimenko foi escolhido, dentre tantos outros, porque viveu bilhões de anos no espaço profundo até que uma passagem perto de Júpiter mudou radicalmente sua órbita, em 1959. Dessa forma, ele quase não sofreu com a ação dos raios solares. “Esta cápsula do tempo está fechada há 4,6 bilhões de anos. Chegou o momento de abrir a arca do tesouro”, explicou o astrofísico da ESA Mark McCaughrean.

O 67P/Churyumov-Gerasimenko vai atingir seu ponto mais próximo ao Sol em agosto de 2015, enquanto Rosetta seguirá orbitando ao seu redor e colhendo dados. “Pela primeira vez seremos capazes de analisar um cometa durante um longo tempo, e isso nos dará uma visão interna de como ele trabalha, para nos ajudar a decifrar o papel que desempenha no Sistema Solar”, sintetiza Matt Taylor, cientista que atua na missão.

Quando a missão foi lançada?

A sonda foi lançada em 2 de março de 2004, a bordo do foguete Ariane 5, do Centro Espacial Europeu de Kourou, na Guiana Francesa, pesando 3 toneladas. A previsão é que funcione até 31 de dezembro de 2015.

Ela foi diretamente para o cometa?

Até hoje, não há tecnologia capaz de impulsionar naves para acertar um alvo de 4 quilômetros de diâmetro — praticamente uma agulha em um palheiro diante dos 10 bilhões de quilômetros de diâmetro do sistema solar — a uma distância de 500 milhões de quilômetros.

Por isso, os cientistas aproveitaram a força da gravidade para acelerar a sonda até a velocidade necessária, de cerca de 50.000 quilômetros por hora. Para ganhar impulso, Rosetta deu três volta ao redor da Terra (em 2005, 2007 e 2009) e uma ao redor de Marte, em fevereiro de 2007.

Qual a trajetória Rosetta percorreu até chegar ao cometa?

Assim que ganhou impulso, Rosetta seguiu em trajetória circular e, no caminho, passou por Júpiter e se tornou o primeiro objeto a se aproximar do planeta, usando seus painéis solares como principal fonte de energia. Em julho de 2010, a sonda sobrevoou o asteroide Lutetia, um denso resíduo do que os cientistas chamam de planetesimais, grandes blocos rochosos que vieram a formar os planetas do Sistema Solar.

Ali, captou cerca de 400 imagens, mostrando várias crateras do asteroide situado a 450 milhões de quilômetros da Terra e descoberto em 1852. Em seguida, a sonda hibernou entre junho de 2011 e 20 de janeiro de 2014. Em agosto de 2014, ela entrou na órbita do cometa e começou a colher informações para escolher o local ideal para o pouso. Estava a 400 milhões de quilômetros da Terra e se posicionou a 100 quilômetros do cometa.

Por que ela hibernou?

Ao se afastar ainda mais da Terra e do Sol, Rosetta foi colocada em um estado de “hibernação” em junho de 2011. A uma distância tão elevada, a luz solar era fraca demais para carregar os painéis da sonda, tornando necessária a pausa para economia de energia.

Apenas um computador e alguns aquecedores ficaram ativos durante esse período, no qual a sonda se aproximava de seu cometa de destino. Nesse período, que terminou em 20 de janeiro de 2014, ela atingiu a marca de 800 milhões de quilômetros distante do Sol.

Onde está Rosetta agora?

Em 12 de novembro de 2014, o módulo Philae pousou no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. Às 14h03 (horário de Brasília) chegou à Terra a confirmação de que a aterrisagem havia sido bem sucedida.

Philae estava a 22,5 quilômetros do cometa (aviões comerciais voam a metade desta distância quando estão em altitude de cruzeiro) e caiu em queda livre. O cometa está a 509 milhões de quilômetros de distância da Terra, viajando a 64.800 quilômetros por hora.

Por que os cientistas estimavam que o pouso tinha 50% de possibilidade de dar errado?

Há 20 anos, quando a missão inciou, os astrônomos sabiam muito pouco sobre o 67P/Churyumov-Gerasimenko e a probabilidade da missão dar certo sempre foi de 75%. Com a observação de Rosetta, os cientistas descobriram que o cometa que tem 3 a 5 quilômetros de diâmetro e, em julho, os astrônomos chegaram a pensar que a missão estivesse perseguindo um cometa duplo.

No entanto, as observações posteriores mostraram que o cometa tem formato semelhante a um pato de borracha e o solo muito irregular — mesmo nas melhores imagens da superfície captada por Rosetta não era possível ver rochas de alguns metros, o que seria um obstáculo para o pouso. Outro risco era de o módulo tocar o cometa e quicar de volta para o espaço, devido à baixa gravidade no local. Com esses agravantes, as possibilidades do sucesso da missão caíram a 50%.

Quais são os próximos passos da missão, a partir de agora?

Rosetta continua sua órbita ao redor do cometa, recolhendo informações, até seu ponto de aproximação máxima com o Sol, que deve ocorrer em agosto de 2015. Philae seguirá colhendo amostras do cometa até esse momento e vai transmitir as informações aos centros de comando. A missão está prevista para terminar em dezembro de 2015.

Fonte: Veja online.


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