A pesquisa em melhoramento genético da raça Nelore

Compartilhar

O melhoramento genético do gado Nelore, raça que pertence a espécie dos Zebuínos, originados na Índia, é realizado no Brasil desde 1962. Atualmente, com os investimentos nessa tecnologia, o gado chega a alcançar o peso de 18 arrobas (em torno de 270 Kg) em dois anos, reduzindo em até três anos o tempo necessário para o abate do animal. Isso deixa Mato Grosso em vantagem, pois 90% do rebanho existente são dessa raça, puros ou mestiços (nelorados). Entretanto, mesmo o Estado sendo o maior produtor de rebanho Nelore PO (Puro de Origem) do país – 28 milhões de cabeças – os estudos sobre a raça são realizados longe daqui.

 

É no sudeste que se concentram as maiores pesquisas sobre o melhoramento genético da raça. O mais recente deles é o sequenciamento do DNA do Nelore realizado pelo pesquisador José Fernando Garcia, da Universidade Estadual Paulista de Araçatuba. Trata-se de um avanço para a tecnologia e visibilidade ao país, já que o catálogo desenvolvido por ele poderá ser utilizado para o aprimoramento de outras pesquisas de melhoramento baseadas na genética animal.

 

Nas universidades de Mato Grosso ainda não existem pesquisas em melhoramento que tratem exclusivamente sobre a raça Nelore. Segundo o professor de medicina veterinária da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) André Brito Correa, o que há na UFMT, por exemplo, são publicações referentes aos zebuínos. Um dos motivos apontados pelo professor para a escassez de estudos nessa área é a falta de centros de excelência.

 

Correa defende a realização de pesquisas nessa área no Estado, pois a região possui um clima muito variado, com Pantanal, Amazônia e Cerrado, e existe interação entre o processo genealógico e o meio ambiente. De acordo com o veterinário, os estudos financiados pelas próprias fazendas e realizados por laboratórios particulares são confiáveis, mas ficam guardados e têm acesso restrito.

 

Atualmente, o melhoramento genético é o grande responsável pela evolução da raça Nelore. O professor lembra que no Brasil as carnes não contêm hormônios, pois eles foram proibidos devido às exportações. Assim, as mudanças que ocorreram no rendimento do animal são resultado do melhoramento genético e da alimentação.

Anuncio congado imagem

 

A raça nelore no Brasil – Os pesquisadores José Henrique de Oliveira, zootecnista da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores, Cláudio de Ulhôa Magnabosco, zootecnista Ph.D da Embrapa Cerrados e Arnaldo Manuel Borges, médico-veterinário da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, também pesquisaram a raça Nelore no país. O estudo “Nelore: Base Genética e Evolução Seletiva no Brasil” – publicado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) – mostrou que esse gado se multiplicou com uma velocidade espantosa a partir dos núcleos que se formaram logo depois das importações da Índia, no século XVIII.

 

A grande aceitação deve-se aos índices de desenvolvimento reprodutivo e produtivo de competitividade da raça em climas tropicais. Entre as características que levam a esse índice estão: rusticidade, pois os bezerros são fortes e espertos; alta fertilidade; sistema mamário da fêmea que facilita a vida do recém-nascido para mamar com agilidade; bacia inclinada, que facilita o parto; cores da pele e da pelagem, que protegem o animal dos raios ultravioleta e reflete a luz do sol.

 

O sucesso da raça também está na simplicidade do manejo e no retorno do investimento – com mais carne por área e mais lucro ao produtor. Além disso, o Nelore se adapta aos trópicos nas condições mais adversas.

 

De acordo com a pesquisa, 1962 foi o ano em que se notou o início de uma nova etapa histórica para o gado Zebu, que com a chegada de novos reprodutores e a habilidade dos criadores chegaria aos padrões do Nelore da atualidade. A contribuição do reprodutor para o melhoramento genético é superior a 75%, uma vez que a inseminação artificial pode deixar centenas ou milhares de descendentes.  Hoje, existem várias linhas de Nelore, cada uma com uma característica diferente, que vai desde o estereótipo ao temperamento do animal.

 

Os resultados da pesquisa apontaram que a raça tem evoluído geneticamente graças ao acasalamento entre animais dessas linhagens existentes no Brasil e ao importante trabalho realizado por criadores e técnicos na preservação e formação de novas linhagens. A conclusão mostra ainda que a escolha de um touro para reprodução não deve ser feita simplesmente pelo fato do animal pertencer a uma linhagem distinta, deve-se levar em consideração o mérito genético individual.

 

Benefícios do sequenciamento do DNA da raça Nelore.

O sequenciamento do DNA da raça Nelore, realizado pelo professor José Fernando Garcia, da Universidade Estadual Paulista de Araçatuba (Unesp), é o pontapé nos estudos. O projeto levou dois anos para ser concluído, custou 500 mil dólares e contou com a participação do pesquisador americano Tad Sonstegard, do Agricultural Research Service (ARS), além de estudiosos da Universidade de Maryland, nos EUA, e da Università Cattolica Del Sacro Cuore, na Itália.

 

Essa não é a primeira vez que um touro tem seu DNA sequenciado. Até então existia o sequenciamento de outra subespécie denominada taurino ou europeu. Tal pesquisa foi realizada em 2009 por uma equipe internacional em que Garcia também era integrante.

 

O pesquisador brasileiro comemora as descobertas, pois as medidas, os pesos, a hereditariedade e o ranking dos animais realizado atualmente fazem parte de uma tecnologia “com limitações”, ou seja, falta precisão e certezas e qual será o resultado. Hoje um produtor acha que o animal será bom com base nos dados estereótipos do animal. Já com os estudos que serão realizados a partir do catálogo do DNA dos touros melhorados, vai ser possível fazer uma avaliação externa (física) e interna (DNA) do gado. O nome do touro escolhido para realização do trabalho tem como nome: Futuro POI do Golias.

 

“Para desenvolver o trabalho, a colaboração dos Estados Unidos e da Itália foi muito importante”, ressalta o brasileiro. Como não havia o aparelho necessário para gerar a sequência do DNA no Brasil, foi preciso enviar o material para universidades desses países. Os EUA ficaram também com a junção das sequências para montar os cromossomos. Com o objeto de estudo de volta ao Brasil, foram feitas a interpretação e as comparações.

 

Com o conhecimento do catálogo completo das duas sub-espécies, será possível desenvolver novos testes de DNA para selecionar os melhores animais dentro de uma população; identificar a existência das características mais importantes, como tamanho das peças das carnes, maciez, resistência a parasitas e outras enfermidades e na tolerância ao calor; além de melhorar as tecnologias de rastreabilidade e certificação, condições exigidas para a liderança do setor.

 

O professor conta ainda que enquanto elaborava o catálogo do sequenciamento também começou a fazer alguns estudos comparativos da raça Nelore. A ferramenta utilizada para testar o DNA dos bovinos chama-se “SNP chip”. O grupo de pesquisa descobriu que em uma cadeia de um milhão de marcadores genótipos, foram encontradas mais de 700 mil diferenças no DNA de cada bovino. Segundo Garcia, para desenvolver esse outro projeto, chamado de Seleção Genética, conta com a colaboração de diversas entidades em todo o país, entre elas Associação de Pecuaristas Delta G, na cidade de Comodoro, em Mato Grosso.

 

A expectativa é que a apurácia (grau de certeza de qual é o melhor animal) passe de 50% para 80%. Mas esses benefícios serão conseguidos apenas com a técnica de melhoramento, sem precisar interferir no DNA do gado. O professor acredita ainda que essa técnica não vai alterar muito o custo para o produtor se comparado às despesas que se tem hoje. Ele estima que no futuro o teste para fazer a avaliação comparativa do gado vai custar em torno de R$ 40 por cabeça.

 

O melhoramento genético nas fazendas de MT

Produtor e presidente da Nelore MT, Hermes Botelho conta que entrou no ramo do melhoramento genético com o objetivo de obter em suas terras o chamado gado de elite, conseguido com a Fertilização in Vitro (FIV). A primeira manipulação na fazenda Santa Elina, localizada em Rosário Oeste, foi realizada em 2002 e, desde então, o retorno tem sido alto, garante o produtor sem detalhar números.

 

Botelho explica que essa qualidade da raça não é utilizada para o corte, somente com finalidade de reprodução. Quando cresce, o animal normalmente participa de exposições pecuaristas e é avaliado em um ranking. Os bovinos são criados na cocheira e recebem cuidados especiais, “como se fosse um membro da família”. O criador lixa o casco, apara o pelo e dá banho pelo menos três vezes por semana com sabão específico. A alimentação é diferenciada e quando algum deles fica estressado é devidamente medicado. Mas o pecuarista ressalta que isso acontece com um ou dois entre 100 animais.

 

O melhoramento genético, segundo Botelho, aumentou o rendimento da carne e o tempo necessário para o abate caiu de cinco para dois anos. O retorno financeiro chegou seis anos após implantar a mudança genética e a padronização rebanho foi conseguida depois de 10 anos de trabalho. O pecuarista conta com orgulho que duas de suas vacas foram vencedoras no ranking mato-grossense em 2005 e 2010, realidade que o faz se considerar um homem de sorte.

 

O presidente afirma que quase todos os 140 sócios da Nelore MT – entidade sem fins lucrativos que congrega criadores da raça Nelore em todo o Estado desenvolvem a inseminação artificial. No entanto, implantar essa tecnologia em uma fazenda, apesar de ser vantajoso, não está acessível a qualquer criador. Por isso, defende que a melhor forma para que os pequenos e médios produtores se beneficiem com essa fertilização artificial é por meio da venda do bezerro melhorado, que muitas vezes tem um custo inferior ao do embrião.

 

Como acontece o melhoramento

Só em 2010, Cuiabá foi responsável pela transferência de 2.352 embriões de Nelore PO (Puro de Origem) e 23 de Nelore LA (Livro Aberto). Para entender melhor como isso funciona, o presidente da Nelore MT, Hermes Botelho, explica que o processo de inseminação artificial acontece de forma bem simples e que a técnica permite a multiplicação rápida de um genótipo superior.

 

O veterinário vai até a fazenda, aspira o óvulo da vaca com qualidade superior, leva ao laboratório e insere o sêmen de touro de elite. Oito dias depois, o responsável pela inseminação volta à propriedade para fazer a transferência do embrião em uma fêmea para desenvolver a gestação. Ou seja, o óvulo de uma vaca vai ser colocado para gerar o bezerro em outra vaca.

 

Em Cuiabá, de acordo com Botelho, existem mais de cinco laboratórios que desenvolvem a inseminação artificial. Realidade muito diferente de oito anos atrás, quando não existia nenhum laboratório na Capital que realizasse o processo e os interessados precisavam mandar o material para outros estados.

 

A Fertilização in Vitro (FIV) não é garantia de sucesso – o êxito atualmente é de 45%. Se o embrião não vingar o investidor não precisa ficar preocupado, pois o pecuarista que o comercializou é responsável pelo processo até que o embrião se torne um bezerro e obtenha o registro definitivo, o que acontece depois de 20 meses. Caso isso não ocorra, o fazendeiro deve devolver o dinheiro investido ou fornecer outro embrião. Toda essa negociação tem a intervenção e fiscalização da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ).

 

Fonte: Revistafapematciencia.org


Compartilhar

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *