Patamar dos EUA de genotipagem de reprodutores Angus
Brasil deve atingir em dois anos mesmo patamar dos EUA de genotipagem de reprodutores Angus.
Segundo chefe da Embrapa Pecuária Sul, Fernando Cardoso, grande contribuição da genômica para a pecuária brasileira virá exatamente da predição de característica de alta importância econômica, como resistência ao carrapato e eficiência alimentar.
Em dois anos, o Brasil deve atingir o mesmo patamar de genotipagem de reprodutores Angus dos Estados Unidos. Resguardadas as proporções dos rebanhos, a meta é ter um em cada dois animais avaliados no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) genotipado, projeção apresentada pelo geneticista e chefe da Embrapa Pecuária Sul, Fernando Cardoso, na noite desta terça-feira (24) durante a 3ª Jornada Técnica Angus.
Segundo ele, a previsão de genotipar 50% dos reprodutores avaliados/ano é realista e factível. Neste ano, a jornada foi promovida totalmente de forma virtual. O trabalho de genômica dos rebanhos Angus do Brasil vem sendo acompanhado de perto pelos geneticistas norte-americanos, principalmente por ofertar análises para características inéditas e de difícil mensuração, como a resistência ao carrapato.
Participando da transmissão, o pesquisador canadense e diretor da Angus Genetics Inc (AGI), Stephen Miller, apresentou a expansão consistente da genômica no rebanho dos EUA. O trabalho iniciou-se em 2010. Em 2012, eram 11 mil animais genotipados, marca que atingiu 873 mil em 2020 e, dentro de um ano, deve passar das históricas 1 milhão de cabeças.
Segundo ele, é essencial o avanço das análises de fenótipo para formação da base de dados para as avaliações genômicas, garantindo que o levantamento mantenha-se atualizado e a acurácia do sistema aumente rumo a um novo futuro para a pecuária. “A taxa está crescendo de forma consistente. Tão logo colocamos as avaliações para uso dos criadores, eles mesmos começaram a genotipar seus animais. Isso foi o que impulsionou o banco de dados”, ponderou ele. Processo similar vem ocorrendo no Brasil, uma vez que importantes criatórios já genotiparam seus rebanhos e, inclusive, forneceram seus dados para compor a base de referência da raça como a Casa Branca Agropastoril, de Silvianópolis (MG).
Miller explicou que, quanto maior a dificuldade de avaliação de uma característica, maior precisa ser sua população de referência. Um exemplo é a análise de conformação de patas, o que a Associação Americana de Angus chama de tolerância à altitude, e a capacidade de pelechamento, algo essencial para regiões com altas temperaturas. Com 10 mil animais genotipados para essa característica, os EUA avaliam a adaptação desse gado a regiões de climas quentes e a capacidade de perder a pelagem de inverno. Pesquisa realizada com animais no Missouri e na Carolina do Norte indicou diferentes níveis de pelechamento. “Constantou-se que a herdabilidade para perda de pelo é alta, e a genômica contribuiu com as DEPs para essa característica. A genômica está tendo uma influência importante nas DEPs nos Estados Unidos”.
O avanço consistente da genômica frente às DEPs gerou dúvidas entre os próprios criadores norte-americanos. Mas, afinal, será que esse novo rumo de seleção estava levando os rebanhos para um caminho seguro? O assunto gerou tanta preocupação que motivou uma pesquisa. Miller explicou que os criadores resolveram olhar o passado com novos olhos, avaliando se as informações genotípicas realmente se confirmaram com as progênies. O estudo considerou 178 touros com ao menos 25 filhos com avaliações de porcentagem de gordura intramuscular, peso ao nascer, peso a desmama e peso ao ano. A análise das predições desses reprodutores foi feita em recortes diferentes: avaliando apenas os dados de pedigree, avaliação de pedigree + desempenho próprio do animal, apenas genômica e os dados foram comparados com a análise da progênie.
A conclusão foi que o maior índice de confiabilidade de seleção encontra-se na análise conjunta entre dados genômicos e o histórico do animal. “Usando apenas a genômica, temos resultados superiores às antigas DEPs. Avaliando o genótipo, o valor do fenótipo fica menor. Se olharmos para o touro pós-progênie, fica claro que o genótipo tem melhor resultado”, concluiu.
Em sua palestra, Fernando Cardoso ainda indicou que a grande contribuição da genômica para a pecuária brasileira virá exatamente da predição de característica de alta importância econômica, como a resistência ao carrapato e a eficiência alimentar. Outra tendência na mira do pesquisador é a avaliação da longevidade de vacas e do perfil de ácidos graxos, critério que pode ser decisivo para definição de animais capazes de produzir uma carne cada vez mais saudável. “A adoção da genômica no Brasil vai trazer aceleração de ganho genético e permitir que se selecione por características de alto valor econômico”, ponderou. O avanço deste trabalho significa dar ao selecionador Angus a oportunidade de desenvolver linhagens completas de animais superiores e, por consequência, de alto valor de mercado.
A 3ª Jornada Técnica Angus foi aberta pelo presidente da Associação Brasileira de Angus, Nivaldo Dzyekanski, que reforçou o ganho em exportações de Carne Angus Certificada obtido em 2020. “A Angus avança no mercado interno e externo. Essa 3ª Jornada Técnica é um momento importante para crescimento para que se consiga atender à demanda crescente por proteína de qualidade.” Ao seu lado, o vice-presidente Técnico e presidente do Conselho Técnico da Angus, Márcio Sudati, lembrou que o avanço da raça também pode ser observado pelo aumento na demanda de sêmen nacional dentro do Brasil.
“Com o foco de pesquisa genômica para carrapato, confio em ainda mais incremento na venda de sêmen”, estimou. Representando a ministra Tereza Cristina, o secretário nacional de Agricultura Familiar e Cooperativismo do Ministério da Agricultura (Mapa), Fernando Schwanke, enalteceu o trabalho da Angus pelo avanço do agronegócio e para a produção de carne Premium do Brasil no mercado interno e externo, o que “a Angus sabe fazer como ninguém”. Para ele, os próximos anos serão desafiadores, mas há confiança de que Brasil se manterá como grande produtor de alimentos. “Nós do Mapa temos dito que somos o ministério dos pequenos, médio e grandes produtos que alimentam não só Brasil, mas boa parte do mundo”, completou.
Quem participou do evento também contou com uma aula de genômica. Os pesquisadores pontuaram o caminho percorrido até o início da utilização da tecnologia, que compreende uma jornada árdua de formação de uma população de referência capaz de elevar a acurácia dos estudos. A grande revolução de bovinos de corte, indicou Cardoso, começou com o sequenciamento do genoma bovino em 2008. Até então, havia um número limitado de marcadores que explicavam determinadas características de forma limitada. A partir desse momento, milhares de marcadores foram disponibilizados.
No Brasil, informou Cardoso, a genômica está iniciando com uma população de referência de aproximadamente 7 mil exemplares. Na resistência ao carrapato, por exemplo, a população de referência é de 1.200 animais, um trabalho que deve seguir continuamente como forma de atualizar o rebanho a novas tendências. Para viabilizar o projeto, a Associação Brasileira de Angus e a Embrapa firmaram, em 2020, uma parceria público-privada que prevê a geração de mais 1.500 genótipos até 2022. “Esse estudo permitirá o crescimento da população de referência para o carrapato, avançando na produção de um Angus para adaptação aos trópicos.”
Cardoso ainda apresentou estimativas que consideram o ganho que o controle do carrapato, por meio da genômica, pode trazer à pecuária nacional. Segundo ele, se 50% do sêmen de touros Angus utilizados no Brasil fossem de animais resistentes ao carrapato, a pecuária nacional teria um acréscimo de receita médio de R$ 168 milhões. “O desenvolvimento de um Angus de pelo mais curto e mais resistente ao carrapato que, ao mesmo tempo, retenha as característica básicas da raça farão o diferencial do Angus brasileiro. Essa vai ser a cereja do bolo do Angus do Brasil.”
FONTE: DATAGRO.
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