Como as borboletas se automedicam
Segue abaixo a transcrição e o vídeo da palestra proferida, em novembro de 2014, por Jaap de Roode para a TED (Veja mais informações abaixo) tendo como inspiração seus estudos com borboletas.
Assim como nós, a borboleta-monarca fica doente por causa de um parasita desagradável. Mas o biólogo Jaap de Roode percebeu algo interessante nas borboletas que estudava: borboletas fêmeas infectadas escolhiam pôr seus ovos em um tipo específico de planta que ajudava suas crias a não adoecerem. Como elas sabem escolher essa planta? Digamos que seja “o outro efeito-borboleta”, que pode nos ensinar a criar novos medicamentos para tratar doenças que acometem seres humanos.
Abaixo: Vídeo original em HD com legenda para 11 línguas diferentes. Acesse no canto inferior direito a lista de legendas disponíveis. Alguns celulares podem não dispor da tradução para o português. Sugerimos nesse caso o acesso ao vídeo pelo computador.
Abaixo: Transcrição da palestra
Por Barbara Natterson-Horowitz
0:11 Doenças infecciosas, certo? Elas ainda são a principal causa de sofrimento e morte de pessoas em todo o mundo. A cada ano, milhões de pessoas morrem de doenças como tuberculose, malária e HIV em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos. A cada ano, milhares de americanos morrem de gripe sazonal.
0:28 Mas nós humanos, é claro, somos criativos, não? Criamos formas de nos proteger contra essas doenças. Temos medicamentos e vacinas. Somos conscientes, aprendemos com nossas experiências e inventamos soluções criativas. Achávamos que éramos os únicos assim, mas hoje sabemos que não. Não somos os únicos médicos. Hoje sabemos que há vários animais que fazem o mesmo. Os mais famosos talvez sejam os chimpanzés. Não muito diferentes de nós, eles usam plantas para se livrarem de parasitas intestinais. Nas últimas décadas, vimos que outros animais também fazem isso: elefantes, porcos-espinhos, ovelhas, cabras e muitos outros. Ainda mais interessante é que descobertas recentes têm nos mostrado que insetos e outros pequenos animais com cérebros menores também usam medicação.
1:10 O problema das doenças infecciosas, como todos sabemos, é que os patógenos continuam a evoluir e diversos medicamentos que desenvolvemos vêm perdendo a eficácia. Por isso, há grande urgência por encontrar novas formas de criar medicamentos que possamos usar contra nossas doenças.
1:25 Mas acho que devemos observar esses animais para aprendermos com eles a tratar nossas próprias doenças. Como biólogo, tenho estudado borboletas-monarcas nos últimos dez anos. Elas são bastante conhecidas por sua migração espetacular dos Estados Unidos e do Canadá para o México, todos os anos, quando milhões delas se reúnem, mas não foi por isso que comecei a estudá-las. Eu as estudo porque elas adoecem. Elas adoecem como você e como eu. E acho que elas podem nos ensinar muito sobre medicamentos que podemos desenvolver para os humanos.
1:56 Os parasitas que infectam as borboletas-monarcas são os ophryocystis elektroscirrha, nome difícil de pronunciar. Eles produzem esporos, milhões de esporos no exterior da borboleta, que aparecem como pequenos ciscos na carapaça da borboleta. Isso é muito prejudicial para a borboleta-monarca. Diminui sua expectativa de vida, prejudica sua capacidade de voar e pode até matá-la antes que se torne adulta. Um parasita muito prejudicial.
2:20 Como parte do meu trabalho, passo muito tempo na estufa cuidando de plantas, isso porque as borboletas-monarcas são exigentes demais para comer. Quando larvas, elas só comem asclépias. Felizmente, há várias espécies de asclépias que elas podem usar, e todas essas asclépias contêm cardenolídeos, substâncias tóxicas para a maioria dos animais, exceto para monarcas. Na verdade, elas utilizam essas substâncias em seu próprio corpo, o que as torna tóxicas para predadores, como os pássaros. Elas mostram essa toxicidade através de belas cores que servem de alerta: laranja, preto e branco.
2:53 Durante meu trabalho, criei plantas diversas na estufa, asclépias diversas. Algumas eram tóxicas, incluindo a asclépia tropical, com concentrações altíssimas de cardenolídeos. Outras não eram tóxicas. Então, eu alimentava as monarcas com elas. Algumas monarcas estavam saudáveis, sem doença alguma, mas outras monarcas estavam doentes e descobri que algumas dessas asclépias são medicinais, reduzindo os sintomas das borboletas-monarcas doentes, o que significa que vivem mais tempo, apesar de infectadas, por se alimentarem dessas plantas medicinais.
3:24 Quando descobri isso, tive uma ideia e muitos disseram que era uma ideia louca, mas pensei: “Será que as monarcas fazem isso? Será que elas usam essas plantas como uma espécie de medicamento? Será que são capazes de agir como médicos?”
3:37 Então, eu e minha equipe fizemos testes. Nos primeiros testes, tínhamos lagartas e lhes demos uma escolha: asclépia medicinal e asclépia não medicinal. Então, medimos quanto de cada espécie elas comiam ao longo da vida. Como sempre acontece na ciência, o resultado foi sem graça: 50% de asclépias medicinais e 50% de asclépias não medicinais. As lagartas não faziam nada por seu próprio bem-estar.
4:01 Então, passamos às borboletas adultas e começamos a nos perguntar se eram as mães que medicavam suas crias. Poderiam as mães pôr ovos em asclépias medicinais que fariam com que suas crias ficassem menos doentes? Faz alguns anos que temos feito esses testes e os resultados são sempre os mesmos. Nós colocamos uma monarca numa grande gaiola, uma planta medicinal de um lado e uma não medicinal do outro lado. Então, verificamos a quantidade de ovos que ela põe em cada planta. E sempre vemos o mesmo acontecer: as monarcas têm uma forte preferência pela asclépia medicinal. Em outras palavras, as fêmeas põem 68% de seus ovos na asclépia medicinal. O intrigante é que, na verdade, elas transmitem os parasitas quando põem seus ovos. Isso é inevitável. Elas também não podem se automedicar. Porém, os testes nos mostram que essas mães monarcas podem pôr seus ovos em asclépias medicinais que farão com que suas crias fiquem menos doentes.
5:01 Essa é uma descoberta realmente importante, eu acho, não só porque nos ensina algo legal sobre a natureza, mas porque pode nos ensinar algo novo sobre como descobrir medicamentos. Esses animais são bem pequenos e tendemos achá-los muito simples. Embora tenham cérebros minúsculos, eles utilizam uma forma bem sofisticada de medicação. Sabemos que, mesmo hoje, a maioria dos medicamentos é derivada de fontes naturais, incluindo plantas, e, em culturas indígenas, curandeiros observam os animais para descobrir novos medicamentos. Assim, os elefantes nos ensinaram a tratar dores de estômago e porcos-espinhos nos ensinaram a tratar diarreia hemorrágica. Mas acho importante não nos restringirmos a mamíferos de cérebro grande e darmos mais crédito a esses carinhas, a esses animais simples, a esses insetos que tendemos a julgar como extremamente simples, com cérebros minúsculos. A descoberta de que esses animais também são capazes de usar medicação abre horizontes totalmente novos e acho que um dia, talvez, trataremos doenças em seres humanos com medicamentos originalmente descobertos por borboletas. Acho que essa é uma oportunidade incrível, que vale a pena buscarmos.
6:07 Muito obrigado.
6:08 (Aplausos)
O que é a TED: é uma fundação privada sem fins lucrativos dos Estados Unidos mais conhecida por suas conferências na Europa, Ásia e Estados Unidos destinadas à disseminação de ideias. (acrônimo para Technology, Entertainment, Design; em português: Tecnologia, Entretenimento, Design)
Jaap de Roode Jaap de Roode estuda a ecologia e evolução de parasitas, focando naqueles que atacam a borboleta monarca.
Em seu laboratório na Universidade de Emory, Jaap de Roode e sua equipe estudam parasitas e seus hospedeiros. Veja algumas perguntas que eles fazem:
Se um parasita depende da sobrevivência do seu hospedeiro para o seu próprio bem-estar, por que a existência de muitos deles causar danos?
De que forma os hospedeiros são capazes de se automedicar, a fim de tornar-se menos desejável para os parasitas?
A habilidade para prejudicar os hospedeiros e, também, a capacidade dos hospedeiros se automedicar é favorecida pela seleção natural?
O laboratório De Roode estuda sobre a borboleta monarca e seus parasitas. A equipe fez uma descoberta fascinante: borboletas fêmeas infectadas por um parasita escolhem colocar seus ovos em uma planta específica e esse fato ajuda evitar que seus filhos fiquem doentes. De Roode espera que essa percepção possa trazer no futuro novas abordagens e medicamentos para os seres humanos.
Fonte: Ted.com
Traduzido por Leonardo Silva
Revisado por Elena Crescia
Bibliografia:
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00:12
Find out more about malaria, HIV/AIDS and Tuberculosis from the World Health Organization.
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00:24
Here are estimates from the CDC about the number of people killed in the US by Influenza.
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00:49
Michael A. Huffman and Mohamedi Seifu, “Observations on the illness and consumption of a possibly medicinal plant Vernonia amygdalina (Del.), by a wild chimpanzee in the Mahale Mountains National Park, Tanzania,” Primates, January 1989
Richard W. Wrangham and Toshisada Nishida, “Aspilia spp. Leaves: A puzzle in the feeding behavior of wild chimpanzees,” Primates, April 1983
Here are some of the earliest papers describing self-medication in chimpanzees.
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00:55
Michael A. Huffman, “Animal self-medication and ethno-medicine: Exploration and exploitation of the medicinal properties of plants,” Proceedings of the Nutrition Society, May 2003
Juan J. Villalba et al., “Ruminant self-medication against gastrointestinal nematodes: Evidence, mechanism, and origins,” Parasite, 2014
See these two papers for examples on self-medication in porcupines and sheep and goats.
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01:02
Jaap de Roode and Thierry Lefèvre, “Behavioral immunity in insects,” Insects, 2012
Evidence for self-medication has been found in monarch butterflies, woolly bear caterpillars, honeybees and wood ants. For a review, see the above article.
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01:36
Monarch Watch and Journey North are citizen science programs that track the migration of monarchs.
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01:56
Judith H. Myers and R. E. McLaughlin, “Ophryocystis elektroscirrha sp. n., a Neogregarine pathogen of the Monarch Butterfly Danaus plexippus (L.) and the Florida Queen Butterfly D. gilippus berenice Cramer1,” Journal of Eukaryotic Microbiology, April 2007
The parasite Ophryocystis elektroscirrha was first described by Myers and McLaughlin.
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01:56
Jaap de Roode et al., “Virulence-transmission trade-offs and population divergence in virulence in a naturally occurring butterfly parasite,” PNAS, May 27, 2008
The detrimental effects of the parasite are well described in this article and on this monarch parasites website.
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02:34
Lincoln P. Brower and Linda S. Fink, “A natural toxic defense system: Cardenolides in butterflies versus birds,” Annals of the New York Academy of Sciences, 1985
The incorporation of chemicals as protection against birds is summarized here.
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02:34
While spending these long hours in the greenhouse, I began growing different varieties of milkweeds, such as the nontoxic swamp milkweed and the toxic tropical milkweed, which contain many of these cardenolides. I fed them to sick monarchs. In doing that, I found that some milkweeds are medicinal: Monarchs fed on these medicinal plants did not become as sick — that is, they lived much longer as adults — as those that ate non-medicinal plants.
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02:34
Jaap de Roode et al., “Host plant species affects virulence in monarch butterfly parasites,” Journal of Animal Ecology, January 2008
Eleanore D. Sternberg et al., “Food plant-derived disease tolerance and resistance in a natural butterfly-plant-parasite interaction,” Evolution, November 2012
Our work describing the medicinal effects of milkweeds is described in these papers.
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03:38
Thierry Lefèvre et al., “Behavioural resistance against a protozoan parasite in the monarch butterfly,” Journal of Animal Ecology, January 2012
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05:00
Although this work demonstrates that Asclepias curassavica acts as a medicinal plant, reducing infection and disease in monarch butterflies, this does not mean that this plant should be planted in efforts to “cure” monarchs of the parasites. Asclepias curassavica is a tropical species, and not native to most regions of the US, and instead of planting this species, efforts should be made to plant native milkweeds appropriate for the specific region. Information on appropriate species can be found at the Xerces Society.
Recent research suggests that planting Asclepias curassavica in the US could in fact increase disease burdens in monarch butterflies. This is because it does not die back as easily as native milkweeds, allowing monarchs to breed on it through the winter in some areas. This results in a buildup of parasites and increases parasite prevalence, as demonstrated in a 2015 paper by Satterfield et al. Some people have suggested that planting Asclepias curassavica may work well as long as it is cut back in the fall (this reduces buildup of parasites). This should only be used as a temporary solution. The ultimate goal should be to plant native milkweeds.
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05:03
Jaap de Roode et al., “Self-medication in animals,” Science, April 12, 2013
Vídeo abaixo do Uoutube em Inglês
