“Histórias de leilões”, crônica de Eduardo Machado

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POR EDUARDO MACHADO METELLO

O leilão “Nelore Marca É” se desenrolava normalmente no Parque Exposições de Aquidauana.

Os touros robustos, divididos em lotes homogêneos, eram arrematados rapidamente pelos fazendeiros da região.

Dentre eles, o Joaquim de Carvalho era o mais afoito. Depois de “brigar” por um lote que queria, e sair vitorioso, mandou que a pisteira desse um recado aos presentes.

Controlando o riso, a moça cumpriu a missão, declarando, com voz pausada e segura, ao microfone:
 ?  O Sr. Joaquim Carvalho mandar dizer aqui que no recinto pode ter homem mais bonito que ele. Porém, com mais dinheiro não tem!

Se o leilão já vinha animado, após esse desafio, estourou. Nunca vendi reprodutores, tão disputados, como nessa tarde em Aquidauana… 

O Luiz Otávio é um bom leiloeiro.

Voz grossa, cadência, garra e sobretudo, conhecimento da mercadoria que oferece à venda fazem dele um profissional disputado pelas inúmeras firmas especializadas em leilões rurais.

Naquela época, estava iniciando a nova profissão.

O remate era em Andradina. No picadeiro, a égua alazã não conseguia despertar o interesse dos presentes. Querendo esquentar o leilão, o Luiz Otávio explodia elogios ao animal sob pregão:
 ?  Só 20 mil por essa égua soberba? É um absurdo! Se ela estivesse em Mato Grosso do Sul e eu não fosse pagar frete e ICM, como vocês aqui não vão pagar, a compraria, no mínimo, por 80 mil! Acordem!

E o leilão prosseguia no seu ritmo lento.

De repente, alguém, afastando o marasmo, deu o lance sugerido pelo leiloeiro: 80 mil.

O Luiz Otávio, radiante, ansioso para saber quem fora o corajoso arrematante, deu a palavra ao pisteiro, que fez o anúncio de praxe:
 ?  O comprador do lote anterior foi Sr. Luis Otávio. O Sindicato Rural vai pagar o frete e o ICM para que o nosso valoroso leiloeiro possa levar a égua, da qual tenho tanta gaba, para Mato Grosso do Sul! 

Aquele leilão estava animado. Diferente. Variado. Era bicho de todas as espécies. Bovinosequinos, pequenos animais. O João Humberto de Carvalho, dono da festa, em Uberaba, contente, rindo à toa.

De repente chegou a vez de um jumento ser submetido à apreciação dos compradores.

Bonito, bem tratado, as orelhas em riste atestando a altivez do reprodutor. Um friso escuro, correndo lombo afora, principal característica da raça pega, terminava na cauda sedosa, escovada com esmero.

O animal impressionava.

Os lances se sucediam num crescente avassalador até a oferta culminante, feita por conhecido político goiano.

O leiloeiro, entusiasmado com o sucesso do remate, dando as três tradicionais marteladas, divulgou o arremate influente:
 ?  Temos a satisfação de anunciar que o comprador do último lote foi o Sr. FULANO DE TAL, governador eleito do povo goiano!
E, concluindo, sem dar conta da gafe que cometia:
 ?  Mais um jumento para o Estado de Goiás!

 

Revista Globo Rural


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