Quando o cirurgião é contra cirurgias
Como cirurgião eu conheço mais do que ninguém os riscos que envolvem uma cirurgia, por mais segura que ela possa parecer.
Você gostaria de ser operado?
Em caso de uma resposta positiva, PARE imediatamente de ler este artigo e marque uma consulta urgente com o seu psiquiatra!! Há algo de muito errado com você e o tratamento não é cirúrgico!!
É assim que costumo dizer aos meus pacientes no momento de uma indicação cirúrgica.
Pode parecer contraditório, mas não é. Veja bem, como cirurgião eu conheço mais do que ninguém os riscos que envolvem uma cirurgia, por mais segura que ela possa parecer. Mesmo com todos os cuidados e protocolos que os profissionais rotineiramente seguem, com a finalidade de mitigar riscos e ampliar a segurança, existe a possibilidade de intercorrências e complicações.
Por tais motivos, quando penso em precisar de tratamento, gostaria de me internar em um hospital que fosse contra internações, ou mesmo tomar um remédio de um laboratório que lutasse pelo desaparecimento das doenças e, só assim, eu estaria convicto de que não haveria nenhuma alternativa melhor….
A mesma coisa com a cirurgia!
Por outo lado, após a correta indicação de um procedimento cirúrgico, precisamente avaliado por um especialista, iniciamos uma luta, seja contra o convênio, seja contra o Sistema único de Saúde (SUS) para convencê-los de que o procedimento é necessário. Não parece incrível? O que está acontecendo?
Quando precisamos de uma operação, parece que temos muitos obstáculos a ultrapassar e, quando dispomos de alternativas menos agressivas de tratamento, somos estimulados a realizá-las?
Não, a verdade não é bem essa. Mas precisamos exigir o atendimento médico que tenha o paciente como foco principal. O que o médico tem de oferecer é o melhor ao cliente, o que, assustadoramente, pode não representar aquilo que o profissional mais se beneficiaria em propor.
Estamos diante do que podemos chamar de um arriscado potencial conflito de interesse.
Não podemos aceitar que o médico receba benefícios de indústrias farmacêuticas ou mesmo de instituições que visam o lucro através dos altos custos de materiais e medicamentos; não podemos admitir que um determinado especialista ganhe do laboratório porcentual sobre a medicação que prescreve e, muito menos, fazer isso sem que seu paciente tenha conhecimento do fato. Também não podemos justificar consultas médicas a preços irrisórios! Onde e como encontrar o equilíbrio?
O fato de ser um cirurgião contra as cirurgias apenas me obriga a pensar, várias vezes, se eu fosse o paciente ou mesmo se alguma das minhas filhas o fosse, e aí sim, analisar com base em todo o meu conhecimento, se eu gostaria que aquele procedimento, – mesmo que minimamente invasivo -, fosse indicado.
Por isso, prezados leitores, acho que estamos diante de uma mudança de conceito, de uma quebra de paradigma e, assim como cirurgiões contra cirurgias, deveríamos encontrar bancos que preservassem o nosso dinheiro (conquistado com tanto suor), policiais que fizessem de tudo para não nos prender, juízes que lutassem para que ninguém precisasse ser condenado e – por que não? – sonhar até com políticos que se preocupassem com a sociedade?
Isso parece mais um conto de fadas, mas na verdade deveria ser o esperado todos os dias das nossas vidas. Arregacemos as mangas e lutemos por todas essas conquistas!
Fonte: Veja / Blog. Por: Ben-Hur Ferraz Neto.

