Os donos do mundo
Como a Marvel se tornou um império sem paralelo na história da indústria do entretenimento.
No fim de semana do 1º de Maio, quando a bilheteria da estreia americana de Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, Estados Unidos, 2015) for computada, o longo inverno que a Marvel atravessou um dia vai recuar ainda mais na memória. Espera-se que este segundo episódio de Vingadores – que está em cartaz no Brasil desde quinta-feira – supere as marcas estratosféricas do primeiro: 207 milhões de dólares no fim de semana inaugural nos Estados Unidos, 1,5 bilhão de bilheteria mundial – a terceira maior da história, atrás apenas dos colossos Avatar e Titanic. Joss Whedon, o exausto diretor dos dois Vingadores, vai passar o bastão do terceiro e do quarto episódios para os irmãos Anthony e Joe Russo, de Capitão América – O Soldado Invernal. Terá deixado uma contribuição ímpar para a consolidação de um império como nunca se viu antes: é sua também a concepção de Agentes da S.H.I.E.L.D., a série que inaugurou as agora múltiplas investidas da Marvel no formato. Provavelmente continuará a ser consultado a toda hora, sobre muitas coisas, por Kevin Feige, o presidente da Marvel Studios e figura central dos cada vez mais vastos domínios da marca. Com uma fieira de lançamentos programados para os próximos meses e anos (Homem-Formiga em julho, Capitão América 3 e Doutor Estranho em 2016, Guardiões da Galáxia 2 em 2017, e por aí vai), pouca gente há de se lembrar do tempo em que o futuro da Marvel parecia cinzento.
Maior editora de quadrinhos do mundo nos anos 60 graças ao gênio do criador Stan Lee, no fim daquela mesma década a Marvel iniciou uma trajetória de altos e baixos que conduziria, no meio dos anos 90, a um processo de concordata. Salva da falência na última hora por Isaac Perlmutter, um investidor à moda antiga – arguto, econômico, reservado – que a adquiriu e a fundiu a uma companhia que fabricava os brinquedos baseados em seus heróis, a Marvel ganhou algum abrigo das intempéries. E logo vieram também os sinais de degelo: Perlmutter tanto insistiu que fez com que dois grandes estúdios soprassem a poeira dos direitos (adquiridos muito antes, por uma ninharia) sobre os mais valiosos heróis gerados na Marvel: os mutantes X-Men, da Fox, e o Homem-Aranha, da Sony. Sua ideia era que os filmes ajudassem a vender brinquedos e a valorizar as ações de sua companhia. O plano saiu melhor que a encomenda. O X-Men do diretor Bryan Singer, de 2000, e o Homem-Aranha de Sam Raimi, de 2002, inauguraram uma nova era dos super-heróis no cinema e fizeram o cacife desses personagens disparar. A esse sucesso, a Marvel assistiu como espectadora. De outros êxitos e fracassos, ela participou sem direito à palavra final: Elektra, O Demolidor, O Justiceiro, O Quarteto Fantástico, um Hulk com Eric Bana e outro com Edward Norton – seus heróis iam passando à tela grande em versões execradas pelo público, ou claudicantes, ou até simpáticas, mas sempre perdendo um tanto de seu sentido original na tradução. Entre 2005 e 2006, a Marvel decidiu pagar para ver: reuniu um financiamento de meio bilhão de dólares para formar seu próprio estúdio e fazer seus filmes, com seus personagens, do seu jeito.
Passada uma década, a Marvel é hoje um tipo de império que não tem precedente na história da indústria do entretenimento. É um gigante do cinema, da televisão, dos quadrinhos. Atua na Disney, na Sony, na rede ABC, no Netflix – Demolidor, a série que há algumas semanas inaugurou o que será um pacotão com o Netflix, aponta diferentes rumos criativos, com violência realista e uma estética mais suja e urbana. A Marvel não descansa: tem uma escala oficial de lançamentos que alcança 2019, e uma escala extraoficial até 2028. O sui generis, porém, é a maneira tentacular como esse império se articula: por meio de uma multidão crescente de personagens e histórias que conversam entre si e se conectam, ampliando mais e mais o escopo do “Marvelverse”, ou “Universo Marvel”.
A primavera da Marvel e esta sua fase de colheita farta devem quase tudo a dois nomes. Um deles dispensa apresentações: trata-se da Disney, que adquiriu a Marvel, em 2010, por 4 bilhões de dólares. Fato inesperado: a compra fez cair as ações da Disney. Sem os X-Men e o Homem-Aranha, avaliou o mercado, a Marvel não passava de um repositório de personagens de segundo escalão. Sabe-se quem é que está dando risada agora. O outro nome é pouco conhecido fora da indústria ou do círculo dos fãs devotos: trata-se de Kevin Feige, que tem 41 anos e o histórico que se esperaria de alguém envolvido com esse mundo – cresceu adorando Star Wars, Star Trek, Super-Homem, Robocop. Feige, porém, tem um conhecimento de sua matéria-prima, uma originalidade de raciocínio, uma força de vontade e uma capacidade de impô-la que o vêm tornando quase tão lendário quanto os super-heróis que ele maneja. “Kevin é a Marvel”, disse a VEJA Joss Whedon. É mesmo, em vários sentidos. Um dos primeiros trabalhos de Feige foi junto ao diretor Bryan Singer e à produtora Lauren Shuler Donner em X-Men. Feige já era conhecedor do universo da Marvel; tratou de virar especialista. Avi Arad, bambambã da Marvel Entertainment e futuro CEO da Marvel Studios, chamou-o para ser seu segundo. Quando Arad saiu, Feige assumiu o posto e começou a instaurar o que agora, mais e mais, parece um mirabolante plano de dominação mundial.
O primeiro filme lançado pela Marvel Studios depois daquele atrevido levantamento de capital foi Homem de Ferro, produzido em associação com a Paramount. Em retrospecto, percebe-se que está tudo lá: o tratamento do material original como evangelho canônico (é preciso agradar a todo mundo, mas, se os aficionados acharem que o personagem foi desvirtuado, o jogo acaba); muito barulho, muita luta, muitos efeitos, mas foco bem fechado na personalidade do herói e seus dramas; e pelo menos um lance de uma audácia danada – no caso, a escalação para o papel-título de Robert Downey Jr., que amargava ainda o rescaldo de seus problemas com as drogas e a lei. “O personagem é rei. O nome dele é que tem de estar em destaque na marquise do cinema. Essa é uma maneira liberadora de escolher elenco, porque não é preciso pesar a popularidade do ator; basta ele ser o cara certo, e pronto”, explicou Feige a VEJA. Lançado em 2008, Homem de Ferro fez 585 milhões de dólares. Homem de Ferro 2 fez 624 milhões, e Homem de Ferro 3 bateu em 1,2 bilhão. Esse é o tipo de progressão que a Marvel gosta de ver, pelo que ela representa de palpável (o dinheiro) e de intangível (a adesão da plateia ao seu universo em constante expansão). Nada exemplifica melhor o instinto de Feige do que Guardiões da Galáxia, um quadrinho de “nicho” em que figuram um guaxinim falante e um homem-árvore – e que arrasou na bilheteria. Próximo desafio: atingir o mesmo resultado com o não muito atraente Homem-Formiga.
Mas por que, se a Marvel já tinha o sucesso de Homem de Ferro no bolso, sua compra fez cair as ações da Disney? Porque àquela altura ainda não se havia entendido a estratégia a longuíssimo prazo de Feige. O que ele estava propondo era uma inversão da lógica do cinema em favor da lógica dos quadrinhos: em vez de começar com um filme coletivo e dele tirar filmes dedicados a cada personagem em particular, a Marvel estava apresentando os personagens individualmente, como nas revistinhas, e criando empatia e familiaridade com eles antes de reuni-los. Thor e Capitão América foram muito bem – e, quando o primeiro longa feito inteiramente na parceria chegou aos cinemas com a artilharia promocional da Disney na sua retaguarda, o estrondo que a Marvel acabara de se tornar revelou-se para a indústria. Até segunda ordem, o mundo, hoje, é da Marvel. Nós só moramos nele.
Fonte: Veja online.

