Guru americano ensina crianças a inovar em cinco passos
Método de John Kao, ex-professor da Universidade Harvard, pretende estimular estudantes a encontrar respostas criativas e a solucionar problemas reais.
Descrever John Kao é uma tarefa complexa. Formado em filosofia e medicina, o americano filho de chineses foi consultor para questões ligadas à inovação de multinacionais como Nike, Intel e Basf e também de governos da Finlândia e Cingapura. Professor da Universidade Harvard por 14 anos, fundou ali o curso de inovação em larga escala, o que lhe rendeu o apelido de “senhor cratividade”, conferido pela revista britânica The Economist. Kao tem muito mais no currículo. Na década de 1960, fez uma turnê tocando teclados na banda de Frank Zappa, uma lenda do rock, e nos anos 80 faturou uma Palma de Ouro, em Cannes, pela produção do filme Sexo, Mentiras e Videotapes, um clássico cult daquele período.
Há dois anos, Kao, de 63, decidiu mudar de rumos outra vez. Juntou conhecimentos adquiridos nas diferentes áreas em que atuou e trocou as reuniões em sedes de empresas e de governos por salas de aula de escolas básicas. O desafio que se impôs foi o de ensinar a estudantes com idades entre 11 e 16 anos a transformar ideias em projetos inovadores. “As crianças são o recurso mais subutilizado pelas nações. Gastamos bilhões de dólares no desenvolvimento de tecnologias de ponta, mas mantemos modelos de ensino que formam pessoas para o passado”, disse Kao, em entrevista ao site de VEJA.
Ele esteve no Brasil na semana passada para divulgar o EdgeMakers, metodologia criada por ele para levar a inovação aos jovens. O projeto é baseado na busca de soluções para problemas que incomodam os estudantes – na escola, no bairro, no país. O desafio é trabalhar em grupo para encontrar respostas criativas e solucionar as questões.
“Há crianças com excelentes projetos que podem fazer do mundo um lugar melhor. Porém, elas não sabem como começar. Eu decidi ensiná-las”. As atividades sugeridas por Kao são dignas de um curso de MBA e visam desenvolver cinco habilidades nos estudantes: criatividade, empreendedorismo, colaboração e as capacidades de transformar ideias em projetos (design thinking) e de construir narrativas, reais ou ficcionais (storytelling).
Nas aulas, todo tipo de problema é analisado, desde a organização da escola até a crise energética mundial. As soluções que surgem são colocadas no papel, prós e contras são considerados e, então, as crianças começam a pôr em prática a melhor solução encontrada, usando ou não recursos tecnológicos. “O objetivo não é dizer a elas qual é o problema ou qual a melhor solução, mas sim ensinar como colocar as próprias ideias em prática, pois é isso que elas precisam para ser bem-sucedidas neste mundo, não só financeiramente, mas como cidadãos”, explica.
Desde o início deste ano, o projeto está em curso em duas escolas, uma nos Estados Unidos e outra em Bali. Na ilha na Indonésia, a metodologia de Kao foi incorporada ao projeto de ecologia sustentável da escola. A Green School é integrada à natureza: suas salas de aulas, armários e mesas são feitos de bambu e produzidos pela mão de obra local, que vem sendo incentivada por projetos criados pelos estudantes. No Brasil, o programa acaba de ser testado em fase piloto com 250 alunos em três escolas de São Paulo: COC, Pueri Domus e Dom Bosco. “O Brasil tem uma peculiaridade: o povo tem muita criatividade, mas sente dificuldade em colocar ideias em prática. Quis vir para cá para lidar com esse desafio”, diz.
A ideia de ensinar pela prática, diz Kao, foi desenvolvida em parte por sua experiência com universitários em Harvard, mas também pela criação dos três filhos. “As ideias que não são colocadas em prática se perdem. Ao mesmo tempo, quando incentivadas, elas crescem e se desenvolvem. Eu via isso com meus filhos e alunos.” Kao acredita que escolas e universidades priorizam a teoria e deixam de incentivar seus estudantes a criar. “Se você vai ensinar alguém a cozinhar, vai mandá-lo para a cozinha. Mas parece que as instituições de ensino ficam apenas lendo o livro de receitas e olhando para as fotos. No mundo de hoje, o correto seria dizer: vá e faça, depois se preocupe em escrever a teoria.”
Promovido por VEJA.com em parceria com Companhia de Talentos, Abril Plug and Play e Chivas, o concurso vai identificar e encorajar estudantes ou recém-formados com idades entre 18 e 34 anos com espírito de liderança e comprometimento permanente com a busca da excelência. O objetivo maior é ajudar a preparar líderes capazes de desatar os nós dos setores público e privado que ainda impedem o Brasil de avançar. O concurso vai premiar dez finalistas com iPads e troféus; quatro grandes vencedores ganharão também bolsas de estudo no exterior e um ano de orientação profissional (“mentoring”). Nesta edição, haverá uma categoria adicional voltada a empreendedores com idades entre 25 e 34 anos: um prêmio de 100.000 reais será destinado ao projeto ou empresa do vencedor.
Gerencie a criatividade
A criatividade parece ser um processo aleatório, que surge sem hora nem lugar, como um flash. Para John Kao, entretanto, o processo criativo pode ser sistematizado e colocado em prática em quatro fases. O primeiro passo é entender a própria ideia. Para isso, Kao sugere conversas com colegas e análise de projetos bem-sucedidos. Em seguida, é preciso trabalhar a ideia com outra pessoa. Kao explica que o ganho nessa fase é entender o raciocínio alheio e agregá-lo a uma proposta. O terceiro nível é organizar o projeto e, se necessário, reinventar as ideias já pensadas. A última atividade para gerenciar a criatividade é pensar no projeto em larga escala. “Nosso cérebro não vem com um manual do usuário, mas é possível aprender a organizar as ideias de maneira lógica e concisa”, diz Kao.
Elabore um projeto
A segunda orientação de Kao está relacionada ao conceito de design thinking. Ele resume o processo de transformação das ideias em projetos consistentes, baseado em análise de dados, dos interesses dos envolvidos e também em ferramentas de visualização, que ajudam na apresentação das propostas. Kao acredita que os jovens estão se tornando designers, porque cada vez mais estão pensando em estratégias para melhorar as organizações em que estão envolvidos. Aprender técnicas analógicas e tecnológicas de apresentar essas propostas é um passo essencial para ser inovador.
“Venda” o projeto
Desenvolver narrativas para apresentar o projeto para outras pessoas é outra dica sugerida por Kao. Em inglês, essa prática é chamada de storytelling. Ela sugere utilizar elementos da literatura, como personagem e narrativa com começo, meio e fim, para descrever por que o projeto é importante e deve ser levado adiante. Vídeos, fotos e textos podem ajudar a contar a história. Segundo a metodologia do EdgeMakers, a maneira como esses elementos são usados, principalmente na internet, pode garantir a ampliação do projeto pelas redes sociais.
Empreenda
Como as empresas colocam seus projetos em prática? Entender esse processo permite, segundo Kao, dar escala ao projeto que foi elaborado. Não significa necessariamente que a ideia deve se tornar um modelo de negócio que vise lucro, mas sim que tenha pretensão de atingir um número maior de pessoas. Pensar nos custos de implantação, prever etapas e número e envolvidos faz parte desse processo.
Coopere com outras pessoas
Segundo Kao, a colaboração deve estar por trás de todo o trabalho de tirar uma ideia do papel e colocá-la na prática. Quando incentivada em estudantes de escola básica, ela ajuda a desenvolver cidadãos mais otimistas, curiosos e capazes de compreender as necessidades de outras pessoas. Para Kao, com o trabalho colaborativo, os jovens se tornarão adultos capazes de pensar em ideias inovadoras a partir dos problemas alheios e de apresentar suas aos demais.
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Fonte: Veja oline.

