Melhoramento genético de peixes na piscicultura

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Ao contrário do que muitos pensam, porém, a diversidade existente de espécies nativas de peixes; as condições ambientais favoráveis; o conhecimento, o desenvolvimento e a utilização de biotécnicas de reprodução e práticas zootécnicas adequadas ao cultivo de peixes nativos e exóticos, não são suficientes para elevar a piscicultura continental brasileira ao patamar observado nos principais produtores de peixes do mundo. Por outro lado, a identificação e utilização maximizada de indivíduos geneticamente superiores para características de interesse econômico em condições específicas de cultivo, são elementos essenciais para o desenvolvimento de qualquer atividade pecuária. Dessa forma, os programas de melhoramento genético de peixes são ferramentas necessárias para atender a demanda do setor produtivo por animais mais produtivos e com maior padronização, capazes de promover um maior retorno econômico para a atividade.

Na história recente da piscicultura brasileira foram realizadas diversas ações com o objetivo de introduzir e produzir indivíduos geneticamente superiores. São utilizados programas de cruzamento de espécies diferentes, sejam elas nativas ou exóticas, com o intuito de produção de indivíduos mais adequados e produtivos nas condições brasileiras de produção piscícola.

Contudo, os programas de melhoramento genético baseados na informação individualizada e no uso de avaliação genética com base em metodologias estatísticas validadas em outras espécies animais, estão em fase de implantação para as principais espécies de peixes nativos de interesse econômico e em pleno funcionamento para a tilápia do Nilo.

Ações, como o projeto Bases Tecnológicas para o Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura no Brasil – Aquabrasil, da EMBRAPA, em parceria com diversas instituições e universidades brasileiras permitiram o estabelecimento de programas de melhoramento genético das espécies tambaqui (Colossoma macropomun), cachara (Pseudoplatystoma reticulatum) e do camarão branco (Litopennaeus vannamei), além de fortalecer o programa de melhoramento genético de tilápias do Nilo, implantado na Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Melhoramento genético em tilápias do Nilo

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Dos peixes tropicais exóticos cultivados no Brasil, a tilápia do Nilo é a que apresenta maior avanço em se tratando de disponibilização de animais geneticamente avaliados em condições de cultivo nos trópicos. Desde 2005, os animais da linhagem GenoMar Supreme Tilápia – GST, produzida pela empresa Norueguesa – GENOMAR, têm sido comercializados para os alevinocultores brasileiros.

Além da linhagem citada acima há um programa de melhoramento genético de tilápias em condições brasileiras de cultivo. Este programa iniciou-se em 2005 com a importação de 600 exemplares de 30 famílias da linhagem GIFT – Genetically Improved Farmed Tilapia, originária da Malásia, desenvolvida inicialmente pelo ICLARM (International Center for Living Aquatic Resources Management) atual WorldFish Center. Este processo foi realizado por meio de um convênio firmado entre a UEM, no estado do Paraná e o WorldFish Center, com o apoio da SEAP – Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca, atual Ministério de Pesca e Aquicultura (MPA) e Companhia de Desenvolvimento Agropecuário do Paraná (CODAPAR).

A partir da importação dos animais da linhagem GIFT, foram conduzidas avaliações de desempenho em tanques-rede e em viveiros, de animais fruto de acasalamentos controlados de reprodutores identificados. Estes procedimentos permitem a avaliação individual, e a obtenção de indicadores de qualidade genética (valores genéticos aditivos) de cada um dos animais avaliados, a partir de suas próprias informações e de seus parentes.

Neste programa o objetivo da seleção é aumentar a taxa de crescimento, sendo que, para isso é utilizado como critério de seleção o ganho médio diário. Entretanto, outras características, como medidas corporais e mortalidade na idade comercial, têm sido coletadas para incrementar o número de informações por animal.

Após quatro anos de acasalamentos, o programa de melhoramento genético de tilápias da UEM já apresenta importantes resultados. Para as características ganho em peso diário e peso vivo houve aumento dos valores genéticos ao longo dos anos de seleção, com taxas anuais de mudanças de 0,053 gramas/dia e 13,66 gramas/período de cultivo. Com estes valores, os ganhos genéticos (*) anuais são cerca de 4% para ambas as características e ganhos genéticos acumulados da ordem de 28%, com diferenças de 18% na última geração em relação à anterior.

O impacto da seleção em características de carcaça tem sido evidente. A seleção para ganho em peso diário tem afetado positivamente outras características de desempenho e de interesse econômico. Observou-se aumento do corpo do animal descontados os comprimentos de cabeça e cauda, sem alteração da participação do comprimento da cabeça no comprimento total. Outros resultados indicaram tendência genética positiva (comportamento crescente dos valores genéticos aditivos em função do tempo) para comprimento do animal, descontados a cauda e cabeça, indicando aumento da qualidade genética dos animais ao longo das gerações. Ao realizar uma avaliação para rendimento de filé com irmãos dos animais avaliados na estação de produção de 2010, foi encontrada média de 38% de rendimento de filé (neste trabalho o rendimento não considerou o toilete do filé, que pode variar de acordo com as exigências de cada mercado). Estas informações associadas a outras avaliações de desempenho e rendimento de cortes comerciais permitirão identificar famílias que apresentem maior potencial genético para rendimento de filé. Em se tratando de informações do setor produtivo, um dos parceiros do programa de melhoramento genético de tilápias da UEM, observou redução de 21 dias no período de cultivo em tanques-rede no estado de São Paulo, utilizando animais provenientes do programa de melhoramento. Numa condição em que o custo de produção total para o cultivo de 63.000 peixes por 180 dias em tanques-rede no Norte do Paraná, foi de R$ 75.664,80, resultando em um custo de produção diário de R$ 420,36 e num custo de R$ 2,43 por quilo, verifica-se, hipoteticamente, uma redução de R$ 8.827,56 no custo de produção total, devido a redução de 21 dias descrita acima. Esta economia significa 11% do custo total por usar material genético de qualidade.

Usando estes resultados e supondo que o preço do milheiro de alevinos melhorados fosse 10% superior ao praticado para alevinos comuns (R$ 100,00), temos uma diferença de R$ 10,00 por milheiro. Considerando o caso exposto no parágrafo anterior, com mortalidade de 10% no período de cultivo, seriam necessários 70 milheiros para a realização da produção.

Nesta condição o investimento adicional em genética de qualidade seria de R$ 10,00 por milheiro, resultando um valor total de R$ 700,00 de investimento adicional em alevinos. Considerando apenas o retorno adicional da redução do tempo de cultivo (R$ 8.827,56), o investimento de R$ 1,00 em alevinos melhorados resultou em cerca de R$ 12,00 de retorno (R$ 8.827,56/R$ 700,00). Nestes cálculos, não foram incluídos as diferenças no rendimento de filé, que podem chegar a 5 pontos percentuais e o incremento nos custos devido ao aumento das exigências nutricionais.

Além dos pontos acima descritos, a divulgação, distribuição e utilização de animais geneticamente superiores são os principais resultados de um programa de melhoramento genético. O programa de melhoramento genético de tilápias do Nilo da Universidade Estadual de Maringá realizou a comercialização de reprodutores para alevinoculturores de diversas regiões do país, proporcionou a criação de núcleos satélites (conjunto de animais de 10-15 famílias) em diversas regiões do Brasil, (Recife (PE), Santana do Acaranguá e Santa Fé do Sul, (SP) Sorriso (MT), Camboriú (SC) e em diferentes países (Cuba e Uruguai)).
Segundo levantamento realizado no ano de 2010, 58% dos alevinocultores do estado do Paraná utilizam a linhagem GIFT, destes mais de 80% estão satisfeitos com o material genético disponibilizado.

Perspectivas para o melhoramento genético de tilápias do Nilo no Brasil

A existência de produtores de tilápia na maior parte dos estados brasileiros, em diferentes situações climáticas (variando do clima equatorial e subequatorial na Região Norte ao subtropical na Região Sul, passando pelo semi-árido, tropical e tropical de altitude), com diferentes hábitos de consumo e exigências do mercado consumidor (peixe inteiro, filé, etc…) e variados sistemas de produção, pode conduzir a produção de linhagens específicas, devido a interação genótipo ambiente.

Em função disso, é possível que seja necessário o gerenciamento de várias estações de avaliação de desempenho de tilápias do Nilo espalhadas pelo Brasil, de maneira que sejam produzidos animais geneticamente superiores para as mais variadas condições de cultivo. Para tanto, será necessária a criação de estruturas eficientes de produção, coleta e tratamento estatístico dos dados, demandando investimento em recursos humanos, em equipamentos e instalações.

Todavia, em função do curto ciclo de produção, do rápido crescimento, da precocidade sexual e da facilidade de reprodução em cativeiro, os investimentos em melhoramento genético de tilápias poderão apresentar resultados rapidamente, gerando informações técnico-científicas que auxiliarão o sistema produtivo nas tomadas de decisões, conduzindo a incrementos de produtividade como aqueles observados nas demais cadeias produtivas.

 

Melhoramento genético de espécies nativas no Brasil

 

Conforme descrito anteriormente, os programas de melhoramento genético de peixes nativos encontram-se em fase de implantação. A escolha de uma espécie de peixe para implantação de um programa de melhoramento genético é dependente do domínio das técnicas de produção e reprodução; da adequação às condições específicas de produção e ambiente, e da demanda do mercado consumidor. O atendimento destes “pré-requisitos” indicam que tais espécies apresentam potencial para implantação e estruturação de uma cadeia produtiva específica e consequentemente o estabelecimento de um programa de melhoramento genético.

 

Embora o Brasil possua uma fauna piscícola riquíssima, com inúmeras espécies potencialmente capazes de atender a uma produção de proteína animal de qualidade, um número muito pequeno de espécies é explorado comercialmente. O desenvolvimento de biotécnicas de reprodução impulsionou a produção de alevinos de espécies nativas, principalmente as de “piracema”. Este aspecto, no entanto, não é suficiente para que se determine as espécies com potencial para o desenvolvimento de programas de melhoramento, sendo necessário também observar as condições de produção (domínio das técnicas de produção e reprodução, manejo alimentar estabelecido, aspectos sanitários) e aceitação pelo mercado consumidor.

 

Considerando as premissas citadas acima, foram organizados dois programas de melhoramento genético de espécies nativas: um para o tambaqui (Colossoma macropomum) e outro para o cachara (Pseudoplatystoma reticulatum), nas Regiões Norte e Centro-Oeste do País.

 

O domínio das técnicas de produção e reprodução, a existência de estrutura de beneficiamento e escoamento da produção, o interesse do mercado consumidor regional, o potencial de expansão dos produtos para outras regiões do Brasil e no exterior, apresentaram elevado peso na escolha destas espécies.

 

Estes programas de melhoramento, estão sendo implantados a partir de um esforço conjunto de várias instituições privadas e públicas. Em princípio, as ações são referentes ao projeto “Melhoramento de espécies aquícolas no Brasil”, componente da Rede AQUABRASIL.

 


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