Alterações e cuidados no periparto de vacas leiteiras

Compartilhar

Período crítico na vida da vaca.

A vaca de leite na fase final de gestação prepara-se para o parto e para a produção de leite, passando de um período seco para um produtivo. O intervalo de três semanas antes e três semanas após o parto é denominado período de transição. A maioria das doenças, como hipocalcemia, retenção de placenta, ocorre nas duas primeiras semanas da lactação. Além disso, a maioria das doenças infecciosas como, por exemplo, a mastite torna-se clinicamente aparente durante este período sendo, portanto, um período de grande desafio para a saúde das vacas.

Nessa fase, ocorre menor ingestão de alimentos e maior demanda por nutrientes, levando a vaca de leite a um balanço energético e protéico negativo. A redução na ingestão de matéria seca pode variar em vacas e rebanhos, mas redução de 30% ou mais é comum de ocorrer nesse período.

Nos últimos dias de gestação há aumento da demanda energética pela mãe e o bezerro. Esta não é compensada por uma maior ingestão de alimentos, levando ao quadro de depressão do sistema de defesa da vaca.

Durante o início da lactação, a quantidade de energia necessária para a manutenção dos tecidos corporais e para a produção de leite é superior à quantidade de energia que a vaca ingere. Após o parto, o balanço energético negativo persiste em função do início e do pico de lactação. A ingestão de alimentos não é suficiente para atender as demandas da glândula mamária entre o pico na produção de leite que ocorre entre a quarta e oitava semanas pós-parto e o momento em que ocorre o pico na ingestão de alimentos que acontece entre a 10º e 14º semanas pós-parto. O atraso na recuperação plena da capacidade de ingestão de alimentos intensifica a mobilização dos tecidos corporais agravando o balanço energético negativo. Em vacas adultas observa-se uma maior queda na ingestão de alimentos quando comparado aos animais jovens. Deficiências de energia, proteína, minerais e vitaminas, evidentes nesta fase, são associadas à depressão do sistema de defesa da vaca.

Anuncio congado imagem

Todas as mudanças descritas acima ocorrem nas vacas de leite com maior ou menor intensidade. No entanto, principalmente as vacas de alta produção estão próximas do desequilíbrio fisiológico, o qual é determinado por características individuais bem como por práticas de manejo incorretas adotadas, como: alta densidade animal, dietas desbalanceadas, instalações inadequadas, ambientes desafiadores, e outros, causando um somatório de fatores predisponentes, resultando no desequilíbrio fisiológico manifestado como doença. Quanto maior for o impacto na redução da ingestão de alimentos, maiores serão os impactos negativos na vida produtiva e reprodutiva da vaca, culminando em menor produção de leite e aumento do tempo entre o parto e a próxima gestação.

Período de transição:

Três semanas antes e três semanas após o parto – momento de grandes alterações e desafio para a saúde das vacas.

Fornecer uma dieta bem balanceada e adequada às exigências da vaca, manter esses animais em um ambiente limpo, minimizar ao máximo o estresse e, principalmente, provê-los do maior conforto possível, são medidas fundamentais para um bom manejo durante a fase de transição (pré e pós-parto).

Bom manejo alimentar:

Essencial para o período de transição, com foco em maximizar a ingestão de matéria seca e minimizar a depressão no consumo de alimentos.

Uma avaliação que pode ser feita nos animais no período pré-parto é o controle do escore de condição corporal (CC) dos animais ao parto. É uma maneira subjetiva de se avaliar as reservas subcutâneas de tecido adiposo e também a massa muscular de vacas de leite.

Escore corporal

Não é recomendado que as vacas chegassem ao momento do parto muito gordas (CC>4). Nessa condição, elas apresentam maior depressão do consumo de matéria seca durante o pré-parto e o início da lactação.

Assim, como a demanda por nutrientes para a produção de leite é maior, ocorre grande mobilização de reservas corporais de gordura. Isso acarreta em maior incidência de desordens metabólicas e um menor desempenho reprodutivo, com um período de serviço (tempo entre o parto e a concepção) mais longo. Por outro lado, vacas que chegam ao parto muito magras (CC<3), apresentam menor reserva para ser mobilizada para produção de leite, acarretando em um menor pico de produção durante sua lactação. Dessa forma, o ideal é que os animais não estejam nem muito gordos nem muito magros ao parto, com escore de condição corporal entre 3,25 e 3,75 para raças europeias. Para mestiças (Europeu x Zebu), esses valores podem ser entre 3,5 e 4,0.

A meta é que os animais devem parir com condição corporal de 3,25, 75% das vacas devem estar nesta condição na secagem e também ao parto. Para atingirmos o escore corporal desejado ao parto, precisamos de um bom manejo nutricional das vacas durante a lactação anterior e no caso das novilhas, durante o início e o meio da gestação. Restrições alimentares ou mesmo aumento da densidade das dietas, com aumento do uso de concentrados não é uma boa opção para estes animais durante a fase de pré-parto. Os estudos mostram que mais importante que maximizar a ingestão de matéria seca no período pré-parto, talvez seja minimizar a depressão no consumo de alimentos pelos animais.

Além de um bom manejo alimentar, deve-se proporcionar aos animais um ambiente limpo e bem dimensionado, minimizando fatores de estresse.

Conforto

Uma das maiores preocupações que se deve ter no período é em relação ao conforto das vacas. Em aspectos gerais, controlar quaisquer situações que provoquem estresse ao rebanho.

Uma medida bastante eficaz e relativamente simples seria o sombreamento dos piquetes e demais locais onde esses animais permanecerão até o momento do parto, de modo a minimizar ao máximo o estresse térmico. Esta medida terá impacto direto na produção de leite durante a lactação. Os bovinos preferem sombra natural à artificial, mas esta deve ser uma medida adotada quando não for possível sombra natural. O importante é garantir no mínimo 5m² de sombra por animal. Além disto, é importante utilizar áreas bem drenadas, com média inclinação, sem acúmulo de barro e matéria orgânica, principalmente nas áreas de cocho e sombreamento.

Os animais, durante a fase de transição, estão altamente sujeitos a infecções intramamárias que levam à mastite, podendo causar casos clínicos no pré-parto e mesmo durante o início da lactação. Por isso, a maternidade nas fazendas deve se apresentar o mais limpa, seca e confortável possível. O acúmulo de esterco neste local aumenta o risco de novas infecções intramamárias, sendo que, na sua maioria, os casos irão se manifestar de forma clínica durante a próxima lactação.

Quando se opta por sombreamento natural, devem-se evitar árvores com copa muito largas, pois estas não permitem a incidência direta de raios solares, importantes como desinfetantes naturais e mantendo o ambiente mais seco.

Deve-se evitar a mudança frequente de lotes e evitar o transporte desses animais durante este período. Ao entrarem em um novo ambiente, as vacas passam por uma fase de adaptação, podendo ocorrer competição entre os animais no lote e consequente redução no consumo de alimentos.

A tabela mostra o efeito da mudança de lote no comportamento das vacas. No primeiro dia após a mudança, é observada redução do tempo de consumo (tempo que os animais ficam no cocho), os animais vão menos ao cocho, ficam menos tempo deitados ruminando ou descansando e o número de confrontações é muito maior.

Outro importante aspecto no manejo neste período é a saúde dos cascos. Ambiente limpo e bem drenado, utilização de pedilúvio, casqueamento preventivo e pronto atendimento dos casos clínicos de manqueira e evitar grandes deslocamentos, principalmente em áreas com cascalhos ou pedras, podem ser medidas úteis para a manutenção de uma boa saúde do sistema locomotor dos animais.

Outro aspecto que deve ser levado em conta é o fornecimento de comida e água de boa qualidade e em quantidade sempre disponível nos cochos e bebedouros. No entanto, só isso não basta. É necessário evitar piquetes com superlotação, observando o espaço de cocho por animal (mínimo de 70 e 80 cm), o que possibilita maior acessibilidade à água e ao alimento. Estar sempre atento à posição dos cochos em relação às aguadas, de modo que os animais caminhem o mínimo possível maximiza a ingestão do alimento pelas vacas.

Uma atenção especial deve ser dada às novilhas neste período. Elas normalmente comem menos e necessitam de maior quantidade de nutrientes para produção de leite e para seu crescimento. Se possível, procure dividir o lote de pré-parto em 2, separando novilhas de vacas.

Os vários aspectos abordados, juntos contribuem com a tranquilidade no periparto. A busca pela a máxima saúde e produtividade do rebanho, deve, sem dúvida, passar por um bom manejo no período da transição, evitando transtornos que podem prejudicar toda a vida produtiva e reprodutiva do animal. Um bom manejo no período de transição garante ao produtor uma melhor rentabilidade, influenciando na viabilidade de sua empresa leiteira.

Escrito em 08/06/2015 por Patrícia Vieira Maia, Ernane Ferreira Campos Médica Veterinária – Equipe Rehagro.

Fonte: Rehagro.


Compartilhar

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *