Aditivos zootécnicos: Quando usar?

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Escrito em 07/07/2014 por Bolivar Nóbrega de Faria, médico veterinário, doutor em ciência animal – Rehagro.

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O termo aditivo refere-se a todas substâncias ou microrganismos adicionados intencionalmente, que normalmente não se consomem como alimento, tenham ou não valor nutritivo, que afetem ou melhorem as características do alimento ou dos produtos animais (MAPA, 2010). Os aditivos zootécnicos consistem em substâncias utilizadas para influir positivamente na melhoria do desempenho dos animais, enquanto os anticoccidianos são substâncias destinadas a eliminar ou inibir protozoários. Os principais representantes desses grupos são enzimas, probióticos, prebióticos, nutracêuticos, ácidos orgânicos, promotores de crescimento e/ou eficiência alimentar, antibióticos não ionóforos e ionóforos.

 

Para se utilizar um aditivo alguns parâmetros importantes devem ser analisados. O primeiro é a qualidade da dieta e do manejo empregado. A simples utilização de um aditivo não promove aumentos na produção de leite, ganho de peso ou saúde animal. Os aditivos devem ser utilizados como um refinamento da dieta, para que essa possa ser utilizada com a máxima eficiência pelos animais, demostrando assim todo o potencial genético do mesmo.

 

É muito comum a utilização de aditivos para se corrigir dietas mau formuladas. Nestes casos, tem que se salientar que, provavelmente, não se está obtendo o máximo desempenho do aditivo, podendo o custo:benefício desta utilização ser desfavorável. O mais correto e barato é a preocupação com as exigências nutricionais da categoria animal que se está sendo trabalhada.

 

Não existem requisitos determinados para os aditivos zootécnicos, nem um roteiro específico para a sua utilização. Portanto, a utilização de aditivos na dieta animal não é de fundamental importância para a produção de leite. Algumas questões são fundamentais para a determinação do uso ou não de um aditivo. A dieta está balanceada corretamente? As vacas estão ingerindo a quantidade certa de dieta? Tem água de boa qualidade e abundante para os animais? A separação de lotes está correta? As vacas estão saudáveis?

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Se todas estas respostas forem afirmativas, provavelmente está na hora de se utilizar um aditivo para obter o máximo rendimento. Com os grandes desafios de produção e o rápido melhoramento genético dos animais, a utilização de aditivos ficou quase que obrigatória para se tentar maiores níveis de produtividade e longevidade animal.

 

Outros parâmetros são importantes na escolha específica de uma aditivo, como a resposta esperada de sua utilização, a confiabilidade de seus resultados, seu retorno financeiro e a mensuração das respostas após sua suplementação, para uma nova tomada de decisão.

 

Resposta:

Refere-se às futuras mudanças de desempenho esperadas quando se incluir um novo aditivo à dieta. Exemplos incluem a maior produção de leite (leite de pico e/ou persistência de leite), o aumento nos componentes do leite (proteína e/ou gordura), maior ingestão de matéria seca, estimular o crescimento microbiano ruminal, aumento da digestão, estabilizar ambiente ruminal e pH, melhorar a eficiência alimentar, minimizar a perda de peso, reduzir o efeito de stress de calor, e / ou melhorar a saúde (por exemplo, menos de cetose, reduzir a acidose, ou melhorar a resposta imunitária).

 

Pesquisa:

É fundamental se prever quais são as respostas obtidas a partir de um aditivo. Para tanto se faz necessário o uso de mensurações de outros técnicos ou pesquisadores. É essencial para determinar se as respostas medidas experimentalmente podem ser esperadas no campo. Estudos devem ser realizados sob condições controladas e imparciais, além de analisados estatisticamente os resultados (determina se as diferenças são repetíveis). Além disso, se torna de fundamental importância saber se os estudos foram realizados sob delineamentos experimentais que seriam semelhantes às situações de campo.

 

Nos dias atuais esse procedimento de captura da informação se tornou muito fácil. São várias as revistas científicas de qualidade que possuem seus artigos disponíveis na internet. Com a globalização da informação é fácil se obter os resultados observados pelos principais pesquisadores do mundo em cada área. Para os aditivos isso não é diferente.

 

Apesar da grande facilidade e da quantidade de informações obtidas através da internet (Tabela 1), nem todas são de qualidade. Neste sentido, deve ser preferir as informações de pesquisadores e revistas científicas de grande impacto e, dentro dessas, os artigos de revisão e metanálise (tabela 1). A metanálise é uma técnica estatística especialmente desenvolvida para integrar os resultados de dois ou mais estudos (geralmente vários estudos científicos), sobre uma mesma questão de pesquisa, em uma revisão sistemática da literatura.

 

Tabela 1 – Quantidade de artigos científicos sobre aditivos alimentares de bovinos de leite no Journal of Dairy Scinece que possuem no título a palavra metanálise.

Tema da Metanálise

Quantidade de Trabalhos de Metanálise

Ionóforos

4

Sais Aniônicos

3

Aminoácidos protegidos

3

Inoculantes de Silagens

1

Probióticos

1

Colina

1

Biotina

1

Niacina

1

Selênio

1

Total

16

Fonte: Journal of Dairy Scince

 

 

A grande vantagem dos estudos de metanálise é a sua capacidade de síntese de informação. Em um só estudo é possível fazer convergir os resultados de muitos trabalhos de investigação. Os estudos de metanálise são vantajosos, não só por permitirem estabelecer medidas de síntese, mas também, por permitirem analisar as diferenças metodológicas e de resultados dos estudos, propondo padrões que justifiquem as diferenças encontradas e, desse modo, as expliquem, dando, assim, uma ideia mais abrangente sobre qual será a verdadeira resposta à questão levantada.

 

Figura 1 – Pirâmide de Prática Baseada em Evidências para identificar literatura relevante quanto a diferenciação entre resultados de alta qualidade e de baixa qualidade.

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Retorno:

É a rentabilidade da utilização de um aditivo selecionado. Ele pode ser calculado a partir de uma resposta mensurável. Neste caso, um ponto de equilíbrio pode ser determinado.

 

Por exemplo, um consultor recomenda um aditivo para se elevar a produção deleite da propriedade. Neste caso, a melhora na produção de leite é a resposta mensurável. A utilização do aditivo vai ter um investimento, que por sua vez aumenta o custo de alimentação, no caso, de R$ 0,10 por dia. Se o leite está avaliado em R$ 1,00 por litro, cada vaca deve produzir 0,10 kg a mais de leite/dia para cobrir o custo adicional associado somente à compra do aditivo, sendo este o ponto de equilíbrio. Se a resposta mensurável tiver um aumento menor que o ponto de equilíbrio, no caso inferior a 100 ml de leite vaca/dia, esse aditivo não deve ser utilizado.

 

No entanto, outras considerações são importantes sobre o custo benefício dos aditivos. Será que todas as vacas vão responder da mesma forma? Se não responderem, as vacas que respondem conseguirão cobrir os custos do aditivo para todas as vacas (vacas sensíveis e não-sensíveis)? E os custos de manejo, da mistura e adição de um novo produto, mão de obra, etc, será que serão pagos?

 

Segundo Hutjens (2008) uma boa diretriz a ser utilizada é a que um aditivo deve retornar no mínimo o dobro do capital investido para cobrir as vacas não-responsivas e condições de campo, que poderiam minimizar a resposta esperada. Ou seja, de acordo com Hutjens (2008), no exemplo em questão, para se utilizar o aditivo a resposta em leite teria de ser no mínimo de 0,20 litros de leite/vaca/dia ou um retorno a mais de RS 0,20 vaca/dia.

 

Resultados:

Produtores, gerentes de fazendas e nutricionistas devem ter dados para comparar e medir as respostas. Várias ferramentas para medir os resultados (para avaliar as respostas em uma fazenda) podem ser utilizados, entre eles os índices de produção de leite (leite de pico, persistência da curva de lactação e perfil dos componentes do leite), índices reprodutivos, contagem de células somáticas, ingestão de matéria seca, gráficos de crescimento de novilhas, gráficos de condição corporal e os perfis de saúde do rebanho. A discussão desses índices de forma individual ou combinada que permitirá a avaliação crítica de um aditivo selecionado e sua continuidade.

 

Cuidados extras na avaliação de um produto comercial:

A qualidade do aditivo a ser utilizado pode variar em concentrações, tipo de molécula ou microorganismos, proporções diferentes de associações, recomendações, e, até mesmo, em pureza e qualidade do produto. Por isso, mesmo após a escolha correta do princípio ativo do aditivo que irá se utilizar, se faz necessário vários cuidados na hora de analisar o produto comercial.

 

Segundo Hutjens (2008), existem três situações distintas e importantes em relação aos produtos comercializados, pois existem vários “produtos iguais” no mercado, que podem ter a mesma base, ser genéricos ou semelhantes.

 

“Produto igual” com mesma base:

Os “produtos iguais” podem realmente ser quimicamente ou estruturalmente idênticos. O produto comercial “original” conduziu extensos estudos, publicados em revistas científicas, e estabeleceu uma base sólida para o campo aplicações. Um segundo produto (marca) aparece no mercado, utilizando das informações produzidas e divulgadas pelo produto inicial. O novo produto (“produto igual”) realmente é a mesma base, mesma concentração, mesma indicação, o produto realmente é o mesmo, mas com uma diferença de preço a seu favor. Normalmente quando isso ocorre o gestor da fazenda ou nutricionista pode indicar a mudança do produto para o mais barato visando melhor custo benefício.

 

O bicarbonato de sódio é um exemplo deste tipo de produto. O bicarbonato de sódio é um produto quimicamente definido, com vastas pesquisas e de fabricação dominada. Existem várias empresas que conseguem vender o aditivo com preços diferentes, mas com mesmas características de resposta.

 

“Produto igual” genérico:

O “produto igual” possuem características semelhantes a um outro do mercado. No entanto, o “produto igual” apresenta diferenças de pureza, concentração, cepas ou atividade em relação ao produto original. O novo produto muitas vezes se utiliza das pesquisas desenvolvidas pelo original para a determinação de sua dose e seus efeitos. Normalmente, o novo produto apresenta custos inferiores em relação ao original justamente devido às diferenças na qualidade do produto. Os resultados obtidos com a utilização do novo produto normalmente são inferiores aos descritos na literatura, sendo o seu custo benefício inferior ao produto original.

 

Os produtores de leite e nutricionistas devem pedir dados de pesquisa dos produtos específicos para determinar se o aditivo foi avaliado em estudos controlados e verificar os seus resultados.

 

“Produto igual” similar:

O ” produto igual” possui características diferentes em relação a um outro do mercado. No entanto, “o mesmo produto” apresenta diferenças de bases, podendo também apresentar de forma concomitante alterações de pureza, concentração, cepas ou atividade em relação ao produto original.

 

O novo produto se utiliza das pesquisas desenvolvidas pelo original para explicar os seus efeitos, mas estes são bem diferentes do original. Normalmente, o novo produto apresenta custos muito inferiores em relação ao original justamente devido às diferenças na base do produto. Os resultados obtidos com a utilização do novo produto normalmente são inferiores aos descritos na literatura, sendo o seu custo benefício inferior ao produto original.

 

Isso é uma situação que pode ocorrer com os probióticos, onde existem produtos que reivindicam a mesma eficiência produtiva e benefícios mas possuem componentes diferentes, microorganismos, enzimas, e/ou ingredientes. No caso dos probióticos, estes produtos podem ter variável contagens bacterianas (unidades formadoras de colônia), diferentes bactérias, viabilidade e/ou recomendações.

 

Os produtores de leite e nutricionistas devem pedir dados de pesquisa dos produtos específicos para determinar se o aditivo foi avaliado em estudos controlados e verificar os seus resultados.

 

Avaliação dos custo:benefício dos principais aditivos:

Hutjens (2007) fez uma avaliação dos principais aditivos trabalhados em bovinos de leite nos EUA. Os valores de custo benefício descritos por ele não podem ser transferidos com o mesmo valor para o Brasil, pois dois pontos são de fundamental diferença entre os países: o preço dos aditivos e o preço pago pelo litro de leite. Para a realidade brasileira se faz necessário um novo cálculo do custo:benefício para se tomar a decisão de suplementar um rebanho ou lote com um determinado aditivo. No entanto, os valores de custo:benefício descritos por Hutjens (2008) mostram uma idéia valiosa da importância do aditivo para a bovinocultura de leite.

 

Além disso, Hutjens (2008) também resumiu as principais funções, os níveis de utilização na dieta, as estratégias empregadas por ele e sua indicação de recomendação, que pode ser: recomendado, o aditivo deve ser incluído conforme necessário; experimental, mais trabalhos científicos são necessários até que se possa recomendar o uso do aditivo para determinada propriedade; avaliar, situação onde se deve avaliar muito bem o uso do aditivo e verificar a resposta, que nos trabalhos científicos é muito variada, ou seja, tem que se testar na fazenda; Não recomendado: atualmente carece de resposta econômica confiável.

Tabela 2 – Principais aditivos alimentares utilizados na nutrição de bovinos de leite, seus custo:benefício e indicação de uso nos Estados Unidos

Aditivo

Custo Benefício EUA

Indicação para EUA

Aspergillus oryzae

6:1

Avaliar

Bicarbonato de Sódio

4 a 12:1

Recomendado

Biotina

4:01

Recomendado

Colina (protegida)

2:1 (protegida)

Recomendado

Enzimas (fibrolíticas)

2 a 3:1

Experimental

Enzymas (amilase)

3:1

Experimental

Estimuladores de Imunidade

7:1 início lactação  3:1 lactação inteira

Experimental

Inoculantes Bacterianos para Silagens

7:1

Recomendado

Ionóforos

5:1

Recomendado

Metionina Hidroxi-análago

2:1

Avaliar

Niacina

3:1

Avaliar

Óleos Essenciais

7:1

Experimental

Óxido de Magnésio

Não disponível

Recomendado

Prebióticos

Não disponível

Experimental

Probióticos (DFM)

Não disponível

Avaliar

Propileno Glicol

Não disponível

Recomendado

Propionato de Cálcio

Não disponível

Recomendado drench

Sais Aniônicos

10:1

Recomendado

Fonte: Adaptado de Hutjens (2008)

 

 

Considerações Finais:

Os aditivos podem ser utilizado de forma eficiente para aumentar a produção de leite, melhorar a saúde doa animais e aumentar sua eficiência alimentar

 

Sua utilização pode trazer grandes benefícios econômicos, desde que sua escolha seja feita em função de uma necessidade real, através de conhecimento sobre o método de ação do aditivo e uma avaliação dos resultados obtidos de literatura de qualidade.

 

Grande quantidade de aditivos está sendo testada e seu uso na alimentação de vacas leiteiras ainda não pode ser recomendado de maneira generalizada. São necessários estudos envolvendo a aplicabilidade destas substâncias em diferentes sistemas de produção, principalmente em função da sua viabilidade econômica.

 

Referências Bibliográficas:

HUTJENS, M.F. FEED ADDITIVES: THE GOOD, THE BAD, AND THE USELESS. ADVANCES IN DAIRY TECHNOLOGY: PROCEEDINGS OF THE … WESTERN CANADIAN DAIRY SEMINAR, V. 19, P. 87-101, 2007.

HUTJENS, M.F. Feed additives: Which, when and why. Illinois DairyNet Papers, Univ. Illinois Ext.

http://www.livestocktrail.uiuc.edu/dairynet/papers.cfm, 2008.

 

MAPA, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Relatório técnico de atividades da CPPA do ano 2009, 2010.

 

MARTINEZ, J.C. MONITORAMENTO DO MANEJO NUTRICIONAL EM REBANHOS LEITEIROS,

HTTP://WWW.MILKPOINT.COM.BR/RADAR-TECNICO/NUTRICAO/MONITORAMENTO-DO-MANEJO-NUTRICIONAL-EM-REBANHOS-LEITEIROS-69657N.ASPX, 2011.

MOURÃO, R.C. et al. Aditivos alimentares para vacas leiteiras. Revista Eletrônica Nutritime, v. 9, p. 2011 – 2040, 2012.

 

SINDIRAÇÕES. Compêndio Brasileiro de Alimentação Animal: Guia de aditivos. 2009. 66p.

 

Fonte: Rehagro.


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