Heranças trocadas

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Quando saiu a notícia de que um touro como o Backup tinha perdido a filiação do touro Fajardo da GB, parecia que seria o fim para a pecuária. Especulações a parte, o enredo que se propagava, pelo menos, em meios de comunicação não especializados, até rendia um bom capítulo de novela das oito.

 

No entanto, o fato é que essa mudança é tão normal quanto salutar. De acordo com o superintende técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Luiz Antônio Josahkian, houve o apoio da entidade em todo o processo da pesquisa a qual gerou essa informação.

 

“Fizemos o acompanhamento, assim como a checagem desses resultados. O importante disso tudo é que não poderíamos continuar com os erros”, pontua. A confusão nasceu justamente de uma proposta que vem garantir maior peso ao controle de melhoramento genético a análise genômica dos animais registrados na entidade. Hoje, a tecnologia permite a melhor compreensão da genética do gado, através de informações mais precisas. De porte de dados esses, por exemplo, os programas de melhoramento ganhariam muito mais força e agilidade.

 

“Nesse sentido, disponibilizamos os materiais necessário à Unesp [Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”], a qual já tinha muitos trabalhos sendo conduzidos nesse sentido”, conta Josahkian. Os estudos foram conduzidos pela Conexão Pecuária para o Melhoramento Genético, Unesp Araçatuba e Unesp Jaboticabal. Foram analisados cerca de 700 mil marcadores de DNA do tipo SNP em 1.000 touros.

 

De acordo com o pesquisador da Unesp de Araçatuba, José Fernando Garcia, a partir dessa tecnologia, foram reconstruídas as interações entre pais e filhos de 512 touros.

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“Em 29 casos, houve sinal de inconsistência com as paternidades conhecidas até então”. Parte delas foram erros na identificação ou coleta de amostras durante a elaboração dos testes. No entanto, alguns casos consistiam mesmo de erro na paternidade. Entendemos que não poderíamos prosseguir sem comunicar a ABCZ sobre os resultados. Eles receberam nosso relatório, e a partir daí, realizaram avaliações para confirmar ou não nossas informações.

 

Foi então a partir desses resultados que a entidade submeteu ao Mapa a aplicação de novos testes para confirmação oficial desses resultados.

 

Em nota, ABCZ apontou que, do grupo inicial de 15 touros relacionados na pesquisa com divergência de paternidade, dez deles efetivamente foram declarados como “não conformidades” e os cinco restantes confirmaram a paternidade originalmente declarada ao Serviço de Registro Genealógico das Raças Zebuínas (SRGRZ).

 

Do grupo de “não conformidades”, oito já tiveram suas reais paternidades confirmadas dentro do processo conduzido diretamente pelo Mapa e dois touros ainda aguardam novos laudos de confirmação. São eles Emergido de Naviraí (CSCN8633) e B8369 da MN (MANA8369). Contexto As divirgências apresentadas são fáceis de se entender quando se fala na história do processo de melhoramento genético aqui no Brasil.

 

O contexto do registro genealógico dos animais passou por várias transformações ao longo do tempo. No caso, da raça nelore, por exemplo, a principal para a produção de carne no país, registram-se anualmente cerca de meio milhão de animais. Inicialmente o processo era baseado numa resenha sobre o histórico familiar dos animais e de seus aspectos externos ou visuais. Na década de 1980, de acordo com Garcia, foi introduzida a tipagem sanguínea como metodologia de certificação de paternidade.

 

O exame era semelhante com que se utiliza em humanos, o qual classifica os tipos sanguíneos dos indivíduos relacionando a filiação entre os animais. Já no fim da década de 1990, com avanço da tecnologia, entraram em cena os testes com DNA. Naquela época, apesar do avanço, a tecnologia detinha um porcentual de falha, de 1 % a 3% de erro, relacionado a interpretação o dos resultados.

 

“O estabelecimento de uma avaliação genética criteriosa foi sempre um ponto importante para o governo federal, que através do Mapa supervisiona o trabalho das associações de criadores que fazem os registros dos animais, sendo que a informação do registro genealógico serve como base do melhoramento genético brasileiro”, diz Garcia. Na grande maioria, os erros de paternidade foram classificados como de ordem não intencional, e que, de certa forma não resultaram em comprometimento de qualifidade genética, como o do touro Backup, que saiu da filiação de Fajardo da GB (15561) para Gabinete do IZ (F1045).

 

“No caso dele, por exemplo, entendemos que não há qualquer prejuízo no seu valor e de seus descendentes uma vez que trata-se de um touro bastante provado, com filhos muito bons que já comprovaram o seu desempenho excelente dentro da raça nelore. Se realmente fosse um animal ruim, isso teria sido visto nos filhos dele, o que de fato não ocorreu”, argumenta.

 

No entanto, há dois casos, em especial, de animais “não registrados” que foram determinados como pais de “animais registrados”, a ABCZ decidiu retirar os descendentes destes da condição de puro de origem (PO) passando-os para livro aberto (LA), perdendo então a validade genética. Estes são Hamurabi da Matinha, inscrito no SRGRZ sob o número RDM2054 e Jayamu da Matinha, inscrito no SRGRZ sob o número RDM2885.

 

Fonte: Revista Rural/SP.


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