Duas intrigantes perguntas dos americanos

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Após 18 longas e cansativas horas entre aviões e aeroportos, desembarquei em Dodge City, cidade do interior do estado do Kansas, Meio-Oeste americano, onde me aguardava Dra. Eva Gardiner, veterinária e esposa do criador Mark Gardiner, de tradicional família criadora de Angus. Os Gardiner estão entre os 5 melhores selecionadores de Aberdeen Angus do mundo.

 

O vôo entre Denver e Dodge City foi num avião pequeno, o que me possibilitou ter uma visão privilegiada da terra yankee e constatar a total falta de água e árvores naquela região coberta com inúmeros pivôs centrais, irrigando com a água do subsolo as roças de milho voltadas à fabricação de etanol. Dos rios de água corrente só restaram leitos decrépitos e secos, além de belas histórias dos forty-niners, quando uma multidão cruzou aquelas pradarias em busca do ouro e das pedras preciosas da Califórnia.

 

Enquanto procurava o proprietário do tradicional rebanho GAR, o tratorista que dirigia em nossa direção simplesmente parou o trator para se apresentar. Era Mark Gardiner, um dos maiores criadores de Angus do mundo que descera de seu trator, junto à simples casa da fazenda, para me dar as boas vindas com um firme aperto de mão. Seu escritório fora montado na própria sala de visitas da casa.

 

Depois de um café à moda americana, saímos na sua caminhonete a fim de conhecer os animais, acompanhados por Mr. Henry Gardiner, patriarca da família e profundo conhecedor do rebanho. Contando com míseros 500 mm de chuva por ano, os Gardiner chegam a fazer 5 cortes anuais na alfafa para produção de feno, como também ensilam milho e sorgo, mantendo assim uma lotação media 0,3 UA/ha. São somente 120 dias de chuva para fazerem todo o verde do ano.

 

Não há cobertura a campo, apenas inseminação artificial, com estação de monta de 60 dias para 2000 vacas angus. O resultado disso é uma pressão de seleção altíssima, produzindo um gado fértil e adaptado. Impressionou-me o fato de percorrermos praticamente todos os limites da propriedade, bem como visitar o escritório e outras instalações e não encontrar qualquer funcionário na fazenda.

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De Dodge City voei para Aberdeen no estado de Dakota do Sul com o propósito de visitar os Bieber, um dos mais conceituados criadores de Red Angus da América. Tomei outra aula de administração com Mr. Ron, pai de Craig Bieber, antes de partirmos num carro de golfe de marcha única, com o intuito de conhecer seu excelente e produtivo rebanho. Craig, com a ajuda de seu experiente cão Border Collie, me mostrou o rebanho formado essencialmente por vacas de tamanho médio, pêlo muito curto e ótima habilidade materna, cobertas pelos próprios touros doadores de sêmen das Centrais (na época de cobertura é comum os touros de centrais voltarem às fazendas para passar o verão cobrindo alguns lotes de vacas no repasse da IA). No caminho, Craig aproveitou para salgar os cochos de quase todos os pastos. Vale lembrar que a exemplo de Dodge City, Aberdeen não recebe mais de 500 mm de pluviosidade por ano.

 

No confinamento haviam 40 bois cruzados Simental/Angus ou Gelbvieh/Angus de mais de 600 kg, castrados e bem gordos, prontos para o abate, exigência mínima dos frigoríficos americanos (carcaças pesadas e marmorizadas).

 

É formidável a simplicidade das instalações das fazendas americanas, onde os bebedouros são feitos com enormes pneus de trator chumbados em plataformas de concreto. E os currais e mangueiras construídos com canos e dentro de galpões para que permitam trabalhar com o gado mesmo nas baixas temperaturas (nevascas).

 

Visitei outros tantos excelentes criadores americanos, os quais me questionaram sobre dois assuntos:

 

Vocês realmente estão acabando com a Amazônia?

Com o meu conhecimento do Norte do Brasil, respondi-lhes com total segurança que boa parte da Amazônia é alagada e como tal não há como povoá-la, pela própria força da natureza. Some-se a isso o rigoroso trabalho de fiscalização que é realizado pelos órgãos competentes. Observação: saiba o leitor que nos Estados Unidos não há qualquer lei de proteção a matas ciliares e reservas naturais.

 

A segunda pergunta me surpreendeu. Meus anfitriões queriam saber minha opinião sobre o frigorífico JBS. O assunto é obrigatório nas rodas de pecuaristas americanos, que temem a possível formação de monopólio por parte do JBS na industria frigorífica local.

 

Num rompante de patriotismo, respondi-lhes: “a partir de agora vocês terão que se acostumar com a participação da indústria frigorífica brasileira no mercado americano, com a certeza de uma administração responsável, gerando empregos saudáveis para os americanos”.

 

Essa viagem me trouxe a certeza que podemos produzir muito mais carne por hectare se usarmos parte da fazenda para se fazer reservas forrageiras e, sobretudo, acreditarmos na pecuária, terminando com a balela que a agricultura dá mais lucro que o boi.

 

Fonte: Alexandre Zadra.


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