O gargalo da mão de obra

Compartilhar

Brasil tem deficiências num dos principais elos da cadeia.

 

Não venho aqui discutir quanto custa X ou quanto ganha Y ou ainda quanto W paga para fulano ou ciclano. O assunto hoje leva em conta a qualidade. Mais do que aquela que agrega valor nos vencimentos de qualquer profissional. A menção é da qualidade decorrente da vontade, da responsabilidade. Da produtividade. E isso está em baixa no Brasil.

 

Esse tema está há meses listado para abordagem na Enfoque, por tudo o que testemunho nas viagens pelo Brasil, semanalmente. Vejo e ouço muitas reclamações com relação a um componente da cadeia produtiva que é fundamental para o sucesso de uma empresa agropecuária, seja ela qual e do tamanho que for. Por serem as que demandam maior contingente, claro que fazendas de pecuária de corte e de leite se expõem mais ao gargalo mão de obra.

 

Hoje em dia, entretanto, não tem sido só culpa do empregador um serviço muitas vezes mal prestado. Não é só porque sabem que aquela pecinha atrás do boi ou da vaca é crucial para que o resultado apareça, mas muitos pecuaristas já se convenceram de que o economista britânico Alfred Marshall (1842-1924) tinha razão quando citou que o mais valioso dos capitais é aquele investido em seres humanos. São eles que vão tocar o negócio. É o trabalho deles que trará resultado.

 

O problema é que a maioria dos empregados é imediatista, não vislumbra o futuro. Não que precisem pensar como o gênio pianista Frédéric Chopin (1810-1849), que chegou a dizer que era um revolucionário, porque o dinheiro não significava nada para ele. Mas já que frases históricas sustentam esse texto, esses mesmos empregados precisavam conhecer uma das mais famosas citações do poeta e desenhista britânico John Ruskin (1819-1900), para quem a maior recompensa pelo trabalho do homem não é o que ele ganha com isso, mas o que ele se torna com isso.

Anuncio congado imagem

 

Tem gente que vejo acordar injuriado por ter de trabalhar. Mesmo treinados, alguns parecem fazer um trabalho forçado. E a falta de vontade é pior do que o desconhecimento técnico.

 

A velha história do dinheiro estar sempre em primeiro lugar. O contabilista inglês Harold Geneen escreveu dia desses que no mundo dos negócios as pessoas são pagas em duas moedas: dinheiro e experiência. E recomendou que primeiro se agarre à experiência. O resto virá depois, como consequência natural. Quer mais verdade que isso? Qualquer um, peão, técnico ou bacharel, doutor no que quer que seja, precisa lembrar de Confúcio: faça aquilo que gosta e jamais precisará trabalhar.

 

A maioria parece odiar o que faz. E das instituições de ensino estão saindo pessoas despreparadas para mudar esse panorama. Ainda que salvas algumas exceções, a mão de obra no campo está condicionada às pessoas mudarem o paradigma. Escrevi aqui em 15 de abril sobre a preocupação enorme de grandes professores universitários com o desinteresse de alunos de ciências agrárias – muitos deles prestes a participar de processos sucessórios importantes de empresas agropecuárias consolidadas. Outros que não esperam heranças polpudas também não estão lá dos mais entusiasmados.

 

Quando a gente vê tanta tecnologia inserida no campo entende que a demanda por qualificação é imperiosa. Mas alguns preferem um emprego à carreira. Primeiro quanto eu ganho, depois o que eu faço. Voltando às frases, o poeta francês Jean de la Fontaine (1621-1695) escreveu um dia que o trabalho é o único capital que não está sujeito à falência. Muitas pessoas só enxergam sucesso no dinheiro, não importa quanto. Não imaginam que um pode existir sem o outro e aí já faliram. Leva tempo para alguém ser bem-sucedido, porque o êxito não é mais do que a recompensa pelo tempo gasto em fazer algo direito, como escreveu recentemente o poeta californiano Joseph Ross.

 

Todos nós podemos contribuir no combate ao mercenarismo e ao imediatismo. O amigo Régis Borges, por exemplo, um dos fundadores deste Rural Centro/UOL, acaba de me contar que tem ouvido também muitas reclamações e preocupações de empresários sobre o gargalo mão de obra. De qualquer qualificação ou posição social e grau educacional. Por isso criou o Pro-fissa, programa de possibilidades de formação extracurricular para acadêmicos que se interessem em diminuir o risco de não termos trabalho justo, digno e bem aproveitado nas nossas terras. Que essa perspectiva se dissolva em ações que os que pagam e os que recebem podem tomar para melhorar essa situação da mão de obra no campo.

 

Em Foco:

O Pro-fissa citado aí acima é um projeto em parceria com a Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em Campo Grande/MS, e já tem data pra começar: de 17 a 21 de março de 2014, no campus da própria universidade. A estreia do Pro-fissa Agro é uma chance de empresas inspirarem seus futuros colaboradores e de profissionais de ciências agrárias iniciarem suas especializações com os técnicos e especialistas que farão parte da primeira grade de cursos de extensão. Pra quem se interessa, desde já pode acessar http://site.ucdb.br/cursos/4/formacao-continuada/480/presencial/716/pro-fissa-o-profissional-que-o-agronegocio-precisa/2693/.

 

O assunto voltará às futuras edições da Enfoque pela relevância que descortina as oportunidades para tornar o texto principal deste artigo um furo na história.

 

Terminou como exemplo de iniciativa construtiva o Circuito Feicorte NFT organizado pela Agrocentro. Durante as etapas de Cuiabá/MT, Palmas/TO, Campo Grande/MS, Ji-Paraná/RO e Paragominas/PA, participaram 6 mil pessoas de 276 municípios, 18 estados brasileiros e mais a Bolívia. 80% eram pecuaristas.

 

O circuito percorreu 20 mil km e abrangeu nas regiões onde esteve um rebanho aproximado de 100 milhões de cabeças, quase a metade do total brasileiro.Foram 73 palestras de 43 profissionais especializados, que abriram os olhos de quem precisa de informações para seguir na atividade com eficiência. Eu tive a chance de acompanhar na íntegra a primeira etapa, em Cuiabá, e sou testemunha de que o evento precisa se perpetuar. Parabéns a todos os organizadores e participantes. Vai crescer.

 

Outra que nos dá esperança de melhorar a mão-de-obra abordada acima é o anúncio da criação do curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com total apoio da Embrapa Gado de Leite. Um hospital veterinário para animais de grande porte será construído numa área de 1,3 milhão de metros quadrados em Coronel Pacheco, Zona da Mata mineira, a 34 km de Juiz de Fora.

 

Bem ao lado do campo experimental da Embrapa, onde já está em funcionamento o Complexo Multiusuário de Bioeficiênvcia e Sustentabilidade da Pecuária. Serão investidos a partir do ano que vem R$ 8 milhões e tudo ficará pronto em 2016. Palmas pra Embrapa Leite e UFJF. Tomara que novidades como essa apareçam sempre, que farão parte da Enfoque, mas só a partir da semana que vem.

 

Fonte: Daniel De Paula.


Compartilhar

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *