As minúcias da nossa carne

Compartilhar

Sabe aquela do cliente ter sempre razão? O Brasil começou a acreditar nisso e está mais centrado em conduzir melhor sua pecuária para atender melhor quem paga melhor pela sua carne. Falo especificamente do mercado comum europeu, que plantou aqui durante 15 dias outra comissão de técnicos que vieram vistoriar os mínimos detalhes do nosso sistema produtivo, mediram, calcularam, testaram, anotaram tudo e voltaram pro Velho Continente deixando aqui uma perspectiva de que aquela calmaria citada na Enfoque de três semanas atrás vai se manter ainda por bom tempo.

 

Muito embora o mercado mais volumoso da nossa carne seja ainda Hong Kong, o que valoriza mais a nossa carne ainda é a Europa, responsável por boa parte do bolo de US$ 4,8 bilhões de arrecadação com essa nossa matéria. A manutenção desse mercado é o mínimo que se pode esperar dessa nova visita que terminou no dia 28 de quatro técnicos – uma holandesa, um belga e dois irlandeses. Eles se dividiram em dois grupos e visitaram 10 fazendas em SP, MG, GO e MT. Em cada comitiva os técnicos foram vistoriando o trabalho não da fazenda, para manter ou excluir a propriedade da lista Trace. Mas para medir a eficiência do nosso sistema de rastreabilidade. Desde o embargo de 2008, quando viram animal sendo brincado na saída da fazenda pra indústria e outras “brasileiradas” por aí, esse tem sido o grande alvo dos europeus com relação ao que eles compram aqui: segurança alimentar.

 

+ Exportação de carne: bovinocultura deverá bater recorde de US$ 6 bi em 2013.

 

Não cabe aqui discussões como ONGs que enfiam na cabeça deles trabalho escravo, desmatamento e outras questões menos lógicas às negociações comerciais, nem a recente descoberta de carne de cavalo em refeições congeladas em frigoríficos europeus. O necessário é fazer o certo. E o que os europeus viram aqui nesses 15 dias de visitações nos mostra que o Brasil evoluiu no campo informação, organização.

 

É bem verdade que eu gostaria de ter ouvido o coordenador do Sistema de Rastreabilidade da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Alexandre Bastos. Mas uma conversa eletrônica, por e-mail mesmo, revelou que a relação entre os inspetores gringos, o nosso produtor e nossos controladores de informações está bem civilizada, pra não dizer amistosa – ver Em foco abaixo. Cada comitiva tinha como membros o gringo, dois intérpretes, um auditor da certificadora, um representante do órgão de defesa Estadual, outro do Mapa.

Anuncio congado imagem

 

Desde quando surgiu essa lista de exigência que formou depois a lista de propriedades aptas a exportar para o bloco europeu, muita coisa foi revelando a fragilidade do nosso sistema. Tinha certificadora que não sabia nem quando ou onde tinha nascido determinado bezerro e a carne dele já estava na panela! O produtor achava aquilo tudo um bicho-de-sete-cabeças e depois se adaptou, percebeu que, com menos investimento do que supunha e/ou temia, podia colocar um bife seu num bistrô em Paris. Muitas certificadoras dissolveram com base num regulamento que visa colocar ordem na nossa imensa casa – na segunda infração, tchau! Outras surgiram, com fome de organização, de trabalho sério e honesto, de dar o norte pro nosso produtor. Cinco empresas são nacionalizadas e existe até competição entre elas por quantidade de clientes cadastrados e volume de rebanho rastreado.

 

Dia desses, conheci uma que está querendo voar, a Piastrella, da nossa italianíssima Consolata Piastrella, que só espera o fim dos trâmites burocráticos em Brasília para cravar a sua marca goiana no BND (Banco Nacional de Dados) e dividir com outras 23 certificadoras brasileiras a missão de rastrear nossas mais de 200 milhões de cabeças, pra mostrar aos europeus que estamos de olho, sim, na organização do nosso rebanho.

 

Com a arroba em alta, alguns produtores querem pra ontem a entrada no Sisbov. Mas tudo precisa ser feito com critério, a fim de que não levantemos suspeitas. A cadeia precisa continuar engrenada, para manter nossas estatísticas comerciais em alta. O que anima é a evolução dessa matéria, já que desde então a lista Trace subiu das pouco mais de 40 propriedades habilitadas a exportar em todo o Brasil para 587 relacionadas hoje só no Estado de Goiás. A visita da missão europeia acontece todo ano e cada Estado é obrigado a auditar 10% de suas propriedades. O cuidado com todas as minúcias, como foi demonstrado nesses 15 dias da última epopeia por aqui, mais a recuperação da economia dos europeus nos dão a esperança de que a tendência é a nossa carne ainda enrolar muita bracciola por lá.

 

Em foco:

A bracciola aí de cima foi proposital, só pra homenagear la Piastrella, que hoje deve estar chorando a derrota do Napoli dela pra minha Juventus. É que ela me revelou alguns detalhes bem curiosos dessas visitas técnicas dos europeus. Mesmo mantendo sigilo da maioria dos assuntos, disse que a língua falada em todas as conversas oficiais é o português e que cada europeu carrega dois intérpretes – eles se revezam a cada 20 minutos por regulamento, para não entrar em parafuso. Outra: os técnicos europeus só se hospedam em hotéis próximos às fazendas visitadas e nunca aceitam nem aquela cachacinha ou pão-de-queijo por parte dos anfitriões, que em muitas vezes são os próprios donos das fazendas, em outras o seu representante hierárquico. Mas Alexandre Bastos revelou que o que eles mais gostam de comer quando aqui trabalham é churrasco! E nas horas vagas até participam de conversas informais com as comitivas que os acompanham. Mas sem intimidades. Sem presentinhos.

 

Se por um lado o relatório – a ser divulgado em quatro meses – da comissão europeia que veio nos fiscalizar o Sisbov deve manter o nível de satisfação com a nossa evolução, por outro a preocupação é grande com 2014. O Carnaval foi pra março, daí tem campanha de vacinação em maio, em seguida vem Copa do Mundo em junho/julho e, logo depois, eleições. Precisamos manter o foco para não perdermos tudo o que mostramos até agora de evolução porteira adentro.

 

Autoridades brasileiras estão na China para vários compromissos, entre eles liberar a importação da nossa carne pelo gigante asiático. Ouviram tradutores responderem que os técnicos chineses ainda não tem data prevista para desembarcar aqui e vistoriar nossa carne, acatando o atestado da Organização Mundial de Saúde, da ONU, de sanidade da nossa carne, que aquela da “vaca louca” no Paraná, em 2012, não era uma zoonose confirmada. Bom, como os europeus são referência no mundo em termos de exigências de segurança alimentar, ou os chineses recebem o endosso do Velho Continente para levantar o embargo da nossa carne ou os brasileiros ficam conformados em mandar para os pratos chineses a nossa carne via Hong Kong, que aumentou a compra do nosso produto em quase 20% e depois repassa o alimento para o restante da China. E ainda pagam direitinho.

 

Fonte: Daniel De Paula.


Compartilhar

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *