Convivência entre agricultura e apicultura

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Convivência entre agricultura e apicultura é analisada em evento em Campinas.

 

Ricardo Camargo, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna, SP) irá participar como moderador de duas mesas-redondas com apresentação de estudos de caso referentes à convivência entre a agricultura e apicultura em evento promovido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento (Mapa), de 30 de outubro a 1º de novembro, em Campinas. O foco deverá ser a discussão do impacto do uso de defensivos à base de neonicotinoides e pirazol sobre as comunidades de abelhas.

 

Nos dois primeiros dias, serão realizadas mesas-redondas e painéis para levantar a situação atual e propostas para indução de melhorias. No terceiro dia, um grupo restrito elaborará um documento sintetizando os encaminhamentos do evento e propondo ações para a mitigação dos gargalos apresentados.

 

O encontro é motivado pela polêmica criada em torno da questão do uso de inseticidas neonicotinoides na agricultura brasileira e os seus efeitos sobre polinizadores. Tem por objetivos apresentar os trabalhos científicos sobre impacto de neonicotinoides sobre espécies de abelhas que ocorrem no Brasil e que dão sustentação para o processo de reavaliação; levantar as lacunas de pesquisa existentes para embasar a reavaliação de impacto ambiental de inseticidas neonicotinoides no Brasil, com vistas a induzir editais específicos, propor ações e políticas para mitigar os riscos identificados advindos do uso de neonicotinoides no Brasil, apresentar o estado da arte quanto ao uso de neonicotinoides no Brasil (culturas em que são empregados, importância em sistemas de Manejo Integrado de Pragas (MIP), programas de manejo da resistência a inseticidas e programas de sanidade apícola), impactos sociais, ambientais, comerciais, econômicos e fiscais da suspensão de uso de neonicotinoides.

 

Nesse contexto, Camargo ressalta o aspecto inovador desse evento, pela oportunidade de ser discutida e debatida com a devida profundidade e com todos os atores envolvidos, a relação entre o modelo de agricultura atual, baseado no uso intensivo de agroquímicos e seus impactos em relação à conservação dos principais polinizadores, que são as abelhas e as atividades relacionadas com sua criação racional (apicultura e meliponicultura).

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“O tema em questão tem sido amplamente debatido e tem sido foco de preocupação mundial em função do desaparecimento das abelhas e seu impacto na produção de alimentos e já era hora desse assunto também ser alvo de debate em nosso país fundamentalmente de perfil agrário”, diz.

 

“Infelizmente, tanto a apicultura, como a meliponicultura – criação racional de abelhas sem ferrão, não tem sido devidamente valorizadas, como atividades conservacionistas, que necessitam e, portanto, promovem a preservação ambiental e pelo papel fundamental que as abelhas desempenham na polinização das culturas e da flora nativa.

 

Tais características lhes conferem um aspecto diferenciado em comparação à maioria dos sistemas de produção agropecuários e deveriam, assim como os apicultores e meliponicultores, receberem a devida valoração pelos serviços ecossistêmicos prestados pelas abelhas e do desenvolvimento social e econômico que essas atividades promovem”, enfatiza Camargo.

 

“Ainda temos muito a melhorar em relação à forma com que essas atividades no país são consideradas, pois quando um apicultor tem intenção de colocar suas abelhas em determinadas culturas (laranja, café, entre outras), os agricultores costumam cobrar uma taxa referente à parte da produção de mel, por conta da liberação do acesso a essas áreas. Fato que demonstra a completa desvalorização do papel que essas abelhas desempenham nessas culturas, promovendo a melhoria de suas produtividades. Salvo alguns casos isolados, como na produção de maça na região Sul e do melão na região Nordeste, o país ainda não aplica de forma profissional a “polinização dirigida”, atividade que sustenta em muitos casos os apicultores do EUA e da Europa, que tem sua principal fonte de renda oriunda do aluguel de suas colônias para a prestação de serviço de polinização em inúmeras culturas”, informa Camargo.

 

Conforme o pesquisador, “não obstante a esse aspecto, essas atividades em nosso país vêm sofrendo profundo impacto e perdas consideráveis em virtude da mortalidade de abelhas ocasionada pela contaminação de agroquímicos e que sequer tem sido alvo de um programa de proteção e seguro aos apicultores e meliponicultores, que tem perdido seu plantel, com grandes prejuízos financeiros e que não têm sido cobertos por programas governamentais, como o seguro safra, por exemplo”.

 

Controvérsia

O tema tem sido motivo de polêmica entre os setores, principalmente depois das medidas restritivas tomadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) contra o uso de defensivos que contenham os princípios ativosImidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina ou Fipronil. A primeira proibição veio em junho de 2012, vetando o uso de produtos pela aviação agrícola.

 

Um desafio do tamanho do agronegócio brasileiro

Diversas culturas de grande expressão econômica para o Brasil, como citros e outras fruteiras dependem da polinização por abelhas. Estudos realizados nos EUA estimam que o valor dos serviços ambientais da abelha Apis mellifera varia entre 5 a 14 bilhões de dólares por ano. No Brasil, não há estimativas precisas. Para o Coordenador Geral de Agrotóxicos e Afins do Mapa, Luís Rangel, o desafio é enorme.

 

“Temos que conciliar o desenvolvimento de setores importantes para a nossa economia com a preservação dos polinizadores. As decisões regulatórias não podem ser pautadas apenas em resultados de pesquisa realizada em outros países, pelas diferenças nas práticas de Manejo Integrado de Pragas, fatores bióticos e abióticos, tecnologias de aplicação e até mesmo linhagens e espécies de abelhas”, comenta.

 

Segundo ele, este workshop é extremamente oportuno e traz à tona um tema que precisa ser discutido entre todos os elos do sistema. “Considero este workshop de extrema relevância para o agronegócio brasileiro pois ele colocará na mesma mesa de discussão os representantes dos produtores rurais, do setor de insumos agrícolas e dos apicultores para buscar soluções. E, mais importante, contando com a presença de pesquisadores de reconhecida experiência na área”, complementa Rangel.

 

Ao final do evento, espera-se que seja formulada uma agenda de pesquisa e delineada uma estratégia para constituição de rede de pesquisa integrando entes do setor privado e os órgãos regulatórios à academia.

 

Fonte: Embrapa Meio Ambiente.


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