Redução do desmatamento através de projeto

Compartilhar

Cidade diminui desmatamento em 93% através de projeto sustentável.

 

Na década de 70, o Brasil passou por uma transformação importante, quando o então presidente Médici decretou o Plano de Integração Nacional (PIN) para ocupar a região amazônica sob os lemas “Integrar para não entregar” e “Uma terra sem homens para homens sem terra”. A ideia era colonizar as áreas em um raio de 100 quilômetros a partir das estradas, como a rodovia Transamazônica. A pecuária surgiu então como a atividade que melhor se adaptou às condições, sendo o primeiro ciclo econômico relevante de muitas cidades do Norte, como Paragominas, no Pará. Por causa do processo histórico, a cidade chegou a ter um índice de desmatamento anual de 320 km² e, por esse mesmo motivo, teve sua produção de carne bovina embargada pelas principais indústrias frigoríficas do país em 2009. Para superar o problema, os produtores rurais da região buscaram apoio para um projeto inovador e conseguiram diminuir o desmatamento para 3 km² ao ano, redução de 93%.

 

Paragominas está entre as dez cidades que mais contribuem para a formação da economia paraense. De acordo com o secretário municipal de Meio Ambiente, Felipe Zagalo, o município desenvolveu-se pautado pela pecuária bovina. Depois disso, a indústria madeireira se destacou e, mais recentemente, a agricultura de grãos também passou a ser importante para o PIB da região. “Como você pode observar, a floresta foi retirada para inclusão dessas atividades econômicas, principalmente porque o Governo Federal incentivava a expansão da Amazônia. Na época, foram disponibilizadas linhas de créditos para desmatar e implantar fazendas e indústrias madeireiras”, relata Zagalo.

 

A situação criou um passivo ambiental ao longo dos anos, o que resultou, no início de 2008, no ingresso de Paragominas na lista dos municípios prioritários do Ministério do Meio Ambiente (MMA) para fiscalização do desmatamento da Amazônia. Na teoria, o MMA realizaria “ações de monitoramento e controle de órgãos federais, o ordenamento fundiário e territorial e o incentivo a atividades econômicas ambientalmente sustentáveis”. Na prática, em 2009, as instituições financeiras barraram o crédito às fazendas inseridas no foco do desmatamento e os frigoríficos foram forçados pelas principais redes varejistas a não comprarem mais carnes produzidas nas cidades que constavam nesta lista do Ministério, o que colocou a atividade pecuária da região no fundo do poço.

 

Mas das crises surgem as oportunidades. Notando que o mercado e a sociedade estavam em sintonia por uma demanda diferenciada sobre os alimentos sustentáveis, o Sindicato dos Produtores Rurais e a Prefeitura Municipal de Paragominas, em parceria com pesquisadores de universidades e empresas privadas, desenvolveram em 2008 o plano Paragominas Município Verde. Um dos desdobramentos da ação foi o projeto Pecuária Verde, que formou uma vitrine de seis fazendas que serviram de modelo à pecuária da região para retirar a cidade da “lista negra” do MMA, liberarando crédito para as fazendas e o gado criado na cidade do embargo dos frigoríficos e dos supermercados.

Anuncio congado imagem

 

Para fazer com que os produtores aderissem naturalmente às recomendações, o maior desafio era aliar a sustentabilidade ambiental da atividade à sua viabilidade econômica. “A lucratividade é a chave da legalidade. Precisava ter sucesso para que os produtores vissem que as mudanças eram viáveis para fazer uma pecuária diferente, que desse lucro e que adequasse as propriedades às exigências”, destacou o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas, Mauro Lúcio Costa.

 

A adequação das fazendas passava, sobretudo, por questões ambientais, além de mudanças no manejo (de olho no bem estar animal), recuperação de pastagens degradadas e treinamento e capacitação de pessoas. No decorrer do projeto, entre vistorias para diagnósticos e desenvolvimento de ações específicas para cada uma das propriedades, ficou claro para os pesquisadores participantes que todos os pontos preconizados pelo Pecuária Verde estavam interligados.

 

O zootecnista Mateus Paranhos, professor de etologia e bem estar animal da Faculdade de Ciências agrárias e Veterinárias da Unesp Jaboticabal, conecta a qualidade de vida dos animais à preservação ambiental. “Uma preocupação presente é que os animais tenham água de boa qualidade, o que está ligado diretamente à preservação dos mananciais. Além disso, a manutenção das árvores nas pastagens proporciona melhor conforto térmico, principalmente na floresta amazônica, onde a radiação solar é muito intensa”, explica Paranhos, que é o responsável pela área de bem estar animal do Pecuária Verde.

 

Com a evolução do projeto, duas mudanças de caráter geral puderam ser notadas nas fazendas sob o ponto de vista do professor Paranhos. “A primeira diz respeito à própria ação de manejo, que deixou o gado mais manso, reduzindo os riscos de acidentes. A segunda, que nós não tínhamos planejado, embora soubéssemos dos resultados positivos, foi detectada a partir de estudo feito por professores da UFSCAR e da UFRJ com as esposas dos vaqueiros. Notou-se uma mudança de comportamento na relação entre as pessoas da fazenda e dentro de suas próprias famílias. Como manejavam o gado de modo mais tranquilo, chegavam em casa também mais tranquilos”, surpreendeu-se Paranhos.

 

Progresso

O resultado da ação dos produtores, pesquisadores e órgãos municipais e federais em Paragominas veio em 2010, com a retirada da cidade da lista dos municípios prioritários do MMA em relação ao desmatamento na Amazônia. O município passou então a ser incluso na lista dos municípios sob controle. O índice anual de desmatamento, que em seu auge chegou a 320 km², despencou para 3 km², redução de 93,75%. “A solução foi mobilizar a sociedade e, definitivamente, pactuar pelo desmatamento zero. Hoje, as florestas do nosso município são vigiadas diariamente por satélite, em parceria com o Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia)”, informa o secretário municipal do Meio Ambiente.

 

Outro resultado significativo do projeto foi o aumento do alcance do CAR (Cadastro Ambiental Rural), que passou a vigorar em 80% dos imóveis rurais de Paragominas, atestando a legalidade das propriedades ante a legislação do Código Florestal. “Não é que nós fomos mais do que os outros. E que nós sofremos mais do que os outros. Não tínhamos outra saída, a não ser essa”, pondera o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas.

 

Pecuária paraense em números

Atualmente, a agropecuária representa 4,6 bilhões no PIB do Pará. (Segundo apuração do Inês (Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará), os maiores municípios em termos de PIB Agrícola do estado são i). São Félix do Xingu (R$ 247 milhões); ii) Santarém (R$ 169 mi); e iii) Paragominas (R$ 127 mi).  Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam o Pará como o sexto maior produtor de carne bovina do Brasil, abatendo em 2012 2,1 milhões de cabeças de um rebanho total de 18,6 milhões de bovinos – o 5º maior do Brasil.

 

Por conta da expressividade de sua pecuária e da sustentabilidade que caracteriza o negócio, o estado do Pará sediará em novembro a última etapa do Circuito Feicorte 2013. Nos dias 07 e 08/11, o Parque de Exposições Amílcar Tocantins, em Paragominas-PA, receberá nove palestras sobre pecuária de corte, entre elas as apresentações dos professores Mateus Paranhos e Moacyr Corsi, ambos integrantes da turma de pesquisadores envolvidos no projeto Pecuária Verde.

 

Fonte: José Luiz Alves Neto.


Compartilhar

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *