Mercado da agricultura familiar

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Projeto viabiliza novos mercados para a agricultura familiar em Unaí (MG).

 

“Hoje sabemos que é possível viver da terra com dignidade”. É o que conta a agricultora familiar Keila Batista (foto), do assentamento Brejinho, implantado em Unaí (MG), município de 70 mil habitantes localizado na região Noroeste do estado. A propriedade de 23 hectares onde a agricultora vive com sua família é apenas uma das que participam das ações de pesquisa e desenvolvimento coordenadas pela Embrapa Cerrados, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), neste município mineiro há 11 anos.

 

A Embrapa está presente em Unaí com ações de pesquisa desde 2002. O primeiro projeto foi o “Adaptação e utilização de dispositivo metodológico participativo para apoiar o desenvolvimento sustentável de assentamentos de reforma agrária”, que testou em assentamentos os conceitos metodológicos desenvolvidos no Projeto Silvânia (GO), nos anos 80, com agricultores familiares tradicionais. De lá para cá, outros projetos e ações de pesquisa foram executados, sempre com o objetivo de estabelecer estratégias de desenvolvimento sustentável adaptadas à realidade da agricultura familiar.

 

“Essas experiências devem se tornar referência para os gestores públicos como forma de trabalhar para a agricultura familiar”, destacou o chefe-geral da Embrapa Cerrados, José Roberto Peres, na última sexta-feira (30). Ele fez parte de um grupo de pesquisadores e técnicos da Embrapa Cerrados que passaram o dia no município a fim de conhecer um pouco das atividades de pesquisa desenvolvidas no local. Neste mês de setembro, está sendo finalizado o projeto “Monitoramento e avaliação de espaços coletivos para a construção social de mercados pela agricultura familiar de Unaí, MG”, iniciado em 2011.

 

Novos mercados – segundos dados da Cooperativa Agropecuária de Unaí (Capul), 80% do leite produzido e entregue na cooperativa vêm de estabelecimentos familiares. “A atividade leiteira é predominante nos estabelecimentos rurais da região, mas como o sistema está estruturado atualmente, tornando os agricultores dependentes de concentrado, o retorno financeiro para os agricultores não é satisfatório”, afirma o pesquisador da Embrapa Cerrados Marcelo Gastal. E foi essa situação de dependência desse mercado do leite, em constante especialização, aliada ao pouco retorno financeiro que os produtores da região estão tendo, que gerou a demanda por formas de diversificação da produção e pela construção de novos mercados para a agricultura familiar, foco do atual projeto.

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Para a execução do referido projeto foi implantada uma Rede de Estabelecimentos de Referência, sendo que cada estabelecimento ou propriedade dessa Rede representa um ou mais tipos de sistemas de produção. No caso do assentamento Brejinho, a característica marcante é a presença de horta e mandioca como atividade de comercialização. “Montar uma Rede desse tipo é diferente de implementar unidades modelo”, explica o pesquisador da Embrapa Cerrados José Humberto Xavier. Segundo ele, o que se faz no primeiro caso é coletar dados para entender qual é a dinâmica dessas propriedades rurais para, a partir daí, propor melhorias. “O trabalho é sistemático de coleta e análise de dados. Esses dados servem de referências que devem ser transferidas pela Embrapa para outros agricultores familiares da região dos Cerrados. São referências do funcionamento da propriedade e, também, tecnológicas, do que foi feito, que tecnologias foram usadas para melhorar o desempenho delas”, explica.

 

Atualmente, o fluxo de caixa do estabelecimento instalado no assentamento Brejinho (foto) é positivo, mas, há alguns anos, a dificuldade enfrentada pelos agricultores fez com que o projeto de viver da terra quase fracassasse. “A Embrapa nos ensinou a plantar de forma correta”, afirma a agricultora familiar. Keila conta que quando sua família foi selecionada para participar do projeto, eles hesitaram ao pensar que talvez não tivessem condições de seguir as tais “orientações da Embrapa”. “Na nossa cabeça, a Embrapa só utilizava insumos caros. Mas, para surpresa de todos, eles nos ensinaram a trabalhar de acordo com a nossa realidade. Hoje em dia não desperdiçamos nada, aprendemos a usar tudo e, assim, diminuímos os nossos custos”, conta.

 

Uma das estratégias construídas a partir do projeto foi a instalação, em dezembro de 2012, da Feira da Agricultura Familiar de Unaí. “É um sonho realizado, pois nas outras feiras a gente não tinha condições de competir. Agora, conseguimos vender nosso produto e ele é valorizado”, comemora a agricultora Keila Batista. A Feira está em funcionamento uma vez por semana, sempre às sextas-feiras, e conta com cerca de 20 barracas já instaladas. Segundo o estudante de Engenharia da Produção do INESC de Unaí, Warley Henrique da Silva, que realiza estágio no projeto, desde que foi implantada até julho de 2013 a feira propiciou uma renda média de R$ 1.053,55 para cada família participante. Ela foi implementada após sua viabilidade ser constatada por meio de pesquisa com a comunidade local e conta com o apoio da Cooperativa Mista dos Agricultores Familiares de Unaí e Noroeste de Minas Gerais (Cooperagro).

 

Além da Feira da Agricultura Familiar, outro mercado construído pelos agricultores familiares por meio da atuação da Cooperagro, com apoio da Embrapa Cerrados, foi a venda de produtos para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Segundo a estudante de Agronomia da FACTU de Unaí e também estagiária do projeto, Ana Paula Borges, no ano de 2012, as 41 famílias que participaram desse mercado tiveram um incremento de renda de aproximadamente R$ 1.750,00. E outros mercados e iniciativas nesse sentido estão sendo negociados. É o caso, por exemplo, da Agroindústria Multiuso da agricultura familiar que foi instalada dentro da Escola Agrícola pela Prefeitura de Unaí e que deverá processar produtos fornecidos por agricultores familiares, assim como do Centro de Treinamento e do Galpão do Produtor. A Prefeitura também está viabilizando infraestrutura e pessoal para fornecer orientação técnica aos agricultores familiares.

 

São parceiros do projeto a Prefeitura Municipal de Unaí, a Cooperagro, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Unaí, a Escola Estadual Juvêncio Martins Ferreira (Escola Agrícola de Unaí), e a Cáritas Diocesana de Paracatu.

 

Fonte: Embrapa Cerrados.


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