Para Quem Tem Pressa
Pesquisadores na França acoplaram minicâmeras e rastreadores GPS a coleiras de gatos domésticos para monitorar seus passeios diurnos. O levantamento revelou que a metodologia tradicional de contar as presas trazidas para casa é amplamente falha: de 31 presas capturadas pelos animais monitorados, apenas uma foi levada aos donos. O trabalho também constatou que o perfil comportamental de cada felino influencia diretamente sua rotina, indicando que gatos mais dóceis e tímidos passam significativamente menos tempo caçando.
Pesquisadores monitoraram a movimentação e os hábitos de gatos domésticos em uma área suburbana ao sul de Paris, na França, combinando sistemas de rastreamento por GPS com minicâmeras acopladas a coleiras com fecho de liberação de segurança. Os resultados, publicados na revista científica Ecology and Evolution, trouxeram evidências diretas sobre como os felinos atuam fora de vista e indicaram que os tutores têm pouca noção do número real de animais capturados por seus animais de estimação.
Durante o experimento, os dispositivos registraram 60 investidas predatórias, resultando na captura de 31 presas por parte dos indivíduos monitorados. Do total de capturas confirmadas pelas lentes, apenas uma única presa — um pequeno roedor — foi levada para a residência do tutor. Todas as outras foram consumidas na vegetação ou abandonadas no local.
O achado reforça que pesquisas baseadas exclusivamente em relatos de donos subestimam expressivamente a predação exercida por gatos em áreas residenciais e periurbanas.
O cardápio registrado pelas câmeras
Entre as 31 presas capturadas pelos gatos durante o período analisado, a esmagadora maioria foi composta por pequenos mamíferos, somando 25 indivíduos (80,6% do total). O restante incluiu três invertebrados (9,7%), dois répteis (6,5%) e uma ave (3,2%). Além disso, das capturas realizadas, 21 animais acabaram consumidos pelos felinos.
Os dados comportamentais foram obtidos a partir de dez dias de registros diurnos utilizáveis de cada animal. Na média, os gatos passavam cerca de duas horas e meia por dia no ambiente externo, mantendo-se ativos (em exploração, observação ou caça) em quase 88% desse intervalo.
Personalidade dita o tempo de caça
Além das filmagens, os pesquisadores avaliaram os traços comportamentais dos animais por meio de questionários padronizados respondidos pelos donos, categorizando os perfis em quatro dimensões: amabilidade, extroversão, dominância e neuroticismo (timidez ou ansiedade).
O cruzamento entre os dados estatísticos e as imagens revelou que traços individuais afetam a propensão à caça. Felinos avaliados com níveis elevados de amabilidade (descritos como mais carinhosos, apegados e dóceis) e de neuroticismo (comportamento receoso ou tímido) dedicaram significativamente menos tempo a investidas predatórias. No caso dos gatos amáveis, houve também uma redução confirmada na quantidade total de tentativas de caça.
Segundo os autores do estudo, vinculados a centros de pesquisa da Universidade Paris-Saclay, animais mais apegados tendem a interagir mais com seus donos e permanecer próximos à residência. Já os mais tímidos mostram maior vigilância e receio em áreas abertas, o que restringe a exploração e as oportunidades de captura.
Área percorrida e limites do território
As informações de GPS, calculadas para felinos com dados completos de deslocamento, mostraram que a área total de vida dos animais ficou, em média, em 1,74 hectare, variando de 0,96 a 3,63 hectares. Já a chamada área nuclear — onde o gato passa a maior parte do tempo — teve média de 0,21 hectare, restrita essencialmente ao quintal da casa e jardins contíguos.
Houve ainda tendências de que gatos dóceis mantenham áreas nucleares mais enxutas, enquanto indivíduos mais assustados apresentem territórios totais menores. Os pesquisadores apontam que conhecer essas variações individuais abre caminho para estratégias de manejo mais direcionadas, ajudando a proteger a fauna silvestre local sem desconsiderar o bem-estar e o temperamento de cada animal.
fonte/crédito: Imagem destacada ilustrativa gerada por IA.
