Pancreatite em gatos: por que o diagnóstico é tão difícil
Para quem tem pressa
A pancreatite em gatos é uma inflamação perigosa e comum do pâncreas, muitas vezes manifestada por sinais genéricos como apatia, vômitos espaçados e perda de apetite. Diferente dos cães, a dor abdominal é rara nos felinos, tornando o diagnóstico precoce um grande desafio. O tratamento é personalizado, focado no suporte clínico intensivo, controle da dor e nutrição assistida, sendo crucial buscar o veterinário imediatamente para evitar complicações graves como a tríade felina.
O Pâncreas Felino: Um Órgão Pequeno com Funções Gigantes
O pâncreas é um órgão discreto no abdômen dos felinos, mas seu papel é vital. Ele desempenha duas funções críticas: a endócrina, produzindo hormônios como insulina para controlar o açúcar no sangue, e a exócrina, liberando enzimas no intestino para ajudar na digestão dos alimentos. A pancreatite em gatos surge quando essas enzimas digestivas são ativadas precocemente, ainda dentro do órgão. Em vez de quebrar os alimentos, elas começam a atacar e digerir o próprio tecido pancreático. Esse extravasamento enzimático causa inflamação intensa e lesões, podendo se espalhar para órgãos vizinhos, como fígado e intestino. Essa proximidade anatômica é, inclusive, o que coloca o felino em risco de desenvolver a chamada tríade felina, uma inflamação síncrona desses três órgãos.
Sinais de Alerta: O Que os Gatos Escondem?
Os gatos são mestres em disfarçar desconforto e dor. Os sinais de inflamação no pâncreas costumam ser sutis e inespecíficos, fazendo com que o tutor demore a notar a gravidade do quadro. É por isso que a dor abdominal, sintoma clássico em outras espécies, raramente é evidente em felinos. Em geral, o tutor deve ficar atento a qualquer mudança de comportamento que pareça uma “virose” ou estresse passageiro. Apatia, letargia (o gato fica mais quieto do que o normal) e anorexia (falta de apetite) são os sinais mais comuns. Além disso, pode ocorrer perda de peso, vômitos esporádicos e desidratação.
Em quadros mais graves, a alteração da temperatura corporal (hipo ou hipertermia) e a icterícia (coloração amarelada das mucosas, visível nos olhos e gengivas) indicam um problema sistêmico. Sinais menos frequentes incluem diarreia, aumento da sede e micção (poliúria-polidipsia) ou falta de ar (dispneia). Infelizmente, a sutileza dos sintomas permite que a doença evolua rapidamente para complicações sistêmicas, como o choque cardiovascular e a coagulação intravascular disseminada, podendo levar ao óbito.
Tipos de Pancreatite: Aguda, Crônica e a Mistura Perigosa
A inflamação pancreática felina é classificada, principalmente, em dois tipos com base nas alterações do tecido: aguda e crônica.
A pancreatite aguda é uma inflamação súbita e intensa, marcada pela necrose e lesão imediata das células. Ela costuma ser mais grave, com prognóstico reservado, e pode se manifestar de forma necrosante (mais comum) ou supurativa (menos comum, afetando mais gatos jovens).
Já a pancreatite crônica em gatos é um processo inflamatório mais longo e de repetição, gerando lesões permanentes no pâncreas, como atrofia e fibrose. Os sintomas são mais brandos e intermitentes, levando muitos tutores a subestimar o problema. É como se o animal tivesse “dias ruins” de forma recorrente.
Existe ainda a combinação aguda-em-crônica, que sugere que episódios agudos não tratados contribuíram para danos permanentes no órgão. É essencial que o veterinário diferencie esses tipos, pois a abordagem terapêutica será ajustada à intensidade da inflamação.
Como a Pancreatite se Desenvolve e Seus Riscos
A evolução da pancreatite em gatos é imprevisível. Mesmo com sintomas leves, a inflamação interna pode progredir para quadros sérios. Uma das complicações diretas é a insuficiência pancreática exócrina (IPE), onde a produção insuficiente de enzimas digestivas leva à diarreia crônica e má absorção de nutrientes.
No entanto, o maior risco reside na inflamação persistente que desencadeia uma reação generalizada conhecida como Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS). Quando essa resposta atinge órgãos vitais como fígado, rins e pulmões, a condição pode evoluir para a falência múltipla de órgãos, que é fatal. Por isso, a suspeita da inflamação exige rapidez no atendimento veterinário e um monitoramento rigoroso. A chave para a cura está em identificar e intervir antes que essas complicações se instalem.
O Desafio do Diagnóstico de Pancreatite e os Exames Essenciais
Identificar a pancreatite felina com precisão é um dos maiores desafios da clínica veterinária. Não há um único teste que confirme o diagnóstico isoladamente. O processo começa com uma conversa detalhada (anamnese), onde o veterinário coleta informações sobre a rotina, dieta e histórico de doenças ou traumas do gato. É crucial informar sobre o uso recente de medicamentos e acesso a alimentos gordurosos.
A partir daí, uma combinação de exames é solicitada. O hemograma e o exame bioquímico ajudam a avaliar o estado inflamatório, desidratação e a presença de complicações sistêmicas, como doença renal (azotemia) ou diabetes (hiperglicemia). O marcador laboratorial mais útil é a Lipase Pancreática Específica Felina (fPLI), que tem boa sensibilidade para casos agudos.
O ultrassom abdominal é o exame de imagem fundamental. Um ultrassonografista experiente pode identificar o aumento do pâncreas, alterações na ecogenicidade (textura) e inflamação ao redor do órgão. É também um ótimo método para visualizar alterações concomitantes no fígado e vesícula biliar, confirmando a suspeita de tríade felina. A biópsia pancreática é o padrão-ouro para o diagnóstico definitivo, mas por ser invasiva, é reservada para situações onde outros procedimentos cirúrgicos já são necessários.
O Plano de Tratamento: Suporte, Dor e Nutrição
O tratamento da pancreatite em gatos é intensivo e personalizado, pois a maioria dos casos ocorre em associação com outras doenças. Não existe um protocolo único, mas sim pilares de suporte para a recuperação.
O primeiro pilar é a fluidoterapia e reposição de eletrólitos. A hidratação corrige a desidratação e melhora a circulação do sangue (perfusão) nos tecidos, sendo a base do tratamento. Eletrólitos como potássio e cálcio são monitorados de perto, pois seus desequilíbrios são comuns e perigosos.
O segundo é o controle da dor e dos vômitos. Mesmo quando o gato não manifesta dor de forma clara, o uso de analgésicos opióides, como butorfanol e metadona, é essencial, já que a dor é presumida em grande parte dos pacientes. Para náuseas e vômitos, são utilizados antieméticos específicos.
O terceiro e mais crítico pilar é a nutrição. A inapetência (falta de apetite) é uma ameaça séria, pois a falta de alimento pode levar à lipidose hepática, uma complicação grave em felinos. Portanto, restabelecer a alimentação o mais rápido possível é a meta. Se o gato não vomitar e aceitar, a alimentação é oral; caso contrário, a nutrição assistida através de sondas (nasogástricas ou esofágicas) é indicada. Estimulantes de apetite podem ser empregados sob estrita orientação veterinária.
O uso de antibióticos não é rotineiro, sendo reservado para suspeitas de infecção bacteriana secundária, como em casos de necrose pancreática. A cirurgia é extremamente rara, sendo uma opção apenas para obstrução total do ducto biliar ou abscessos. Felizmente, com o suporte clínico correto, a pancreatite em gatos tem cura.
Cuidados Após o Diagnóstico e a Importância do Vínculo
Para o gato que recebeu o diagnóstico de pancreatite, a rotina exige adaptações para prevenir a recorrência das crises. O primeiro e mais importante cuidado é a dieta.
Oferecer uma alimentação de alta qualidade, leve e com teor de gordura controlado é fundamental para não sobrecarregar o pâncreas. O veterinário poderá indicar rações medicamentosas de suporte digestivo. O segundo ponto é o check-up periódico. Consultas e exames de sangue ou ultrassom regulares ajudam a monitorar a evolução e a prevenir doenças concomitantes, que podem agravar o quadro.
Por fim, jamais deve-se automedicar um felino. Gatos com inflamação pancreática têm maior sensibilidade a certos fármacos, e a administração inadequada pode desencadear uma nova crise de pancreatite em gatos. O prognóstico é favorável quando o diagnóstico é rápido e o tutor segue o plano terapêutico à risca, garantindo ao pet uma vida longa e de qualidade.
imagem: IA

