Havaí: Guerra Biológica Contra Mosquitos
Para Quem Tem Pressa
Todo mês, milhões de mosquitos machos são liberados de drones e helicópteros sobre as florestas do Havaí. Não é um ataque, mas sim a maior e mais audaciosa operação de controle biológico já feita para salvar fauna silvestre. Essa iniciativa, apelidada de Guerra Biológica contra Mosquitos no Havaí, tem um único objetivo: proteger dezessete espécies de honeycreepers – pássaros nativos à beira do abismo – do parasita da malária aviária. O aquecimento global permitiu que o mosquito invasor subisse as montanhas, forçando a ciência a intervir com uma arma sofisticada: a bactéria Wolbachia, capaz de esterilizar o inimigo sem usar veneno.
A Origem da Ameaça e a Guerra Biológica contra Mosquitos no Havaí
Toda semana, exatamente um milhão de mosquitos machos são despejados de drones e helicópteros sobre as florestas úmidas do Havaí. Não é castigo divino nem acidente de laboratório: é a maior operação de controle biológico já feita para proteger fauna silvestre. O alvo não são humanos, mas um inimigo microscópico que carrega a morte dentro das asas: o Plasmodium, parasita da malária aviária. A vítima? Dezessete espécies de honeycreepers — pássaros coloridos como joias vivas — que já foram cinquenta e hoje cantam em tom de réquiem.
A praga que veio de navio é a grande responsável por este cenário. Em 1826, um navio baleeiro ancorado em Lahaina trouxe, sem querer, o Aedes aegypti e o Culex quinquefasciatus. Com eles veio o mosquito vetor e, décadas depois, o protozoário que mata pássaros nativos em 24 horas. Durante 150 anos, os honeycreepers refugiaram-se acima de 1.500 metros, onde a temperatura impedia a reprodução do mosquito. Mas o aquecimento global empurrou a linha dos $15^\circ\text{C}$ para cima a uma velocidade de 100 metros por década. Hoje, mosquitos transmitem malária até nos picos do Haleakalā. Restam menos de 500 kiwikiu (Pseudonestor xanthophrys) e apenas 42 ʻakekeʻe (Loxops caeruleirostris) — números que cabem num ônibus escolar.
Wolbachia e a Técnica do Inseto Incompatível (IIT)
A arma escolhida para esta Guerra Biológica contra Mosquitos no Havaí é a Técnica do Inseto Incompatível (IIT), uma versão aprimorada do clássico inseto estéril. Machos criados em laboratório são infectados com uma cepa de Wolbachia que não os mata, mas torna qualquer espermatozoide inútil ao cruzar com fêmeas selvagens. O óvulo é fertilizado, mas morre antes de formar embrião. Resultado: cada acasalamento inútil reduz a próxima geração em uma fêmea. Matemática simples, impacto exponencial.
Os mosquitos são cultivados em bandejas de aço inoxidável no American Mosquito Control Laboratory, em Maui. Larvas nadam em água com ração de peixe; pupas são separadas por sexo com peneiras vibratórias. Só machos seguem viagem. São resfriados a $8^\circ\text{C}$ para dormir, embalados em pods de papel kraft biodegradável — 25 mil por cápsula — e soltos a 70 metros de altura. O pod se dissolve na chuva; os mosquitos acordam, voam e procuram fêmeas num raio de 200 metros. Em quatro dias morrem de velhice, sem nunca terem picado ninguém.
A Logística Militar da Conservação
A operação envolve a liberação de quinhentos mil mosquitos por ilha, toda semana, durante três anos. São 78 milhões de insetos até 2027. Helicópteros Bell 407 cobrem encostas íngremes; drones Matrice 300 carregam 12 pods de cada vez. GPS de precisão garante que nenhum vale fique sem dose. Um software desenvolvido pela Verily (braço da Alphabet) calcula densidade ideal: 300 machos por hectare em floresta densa, 100 em capoeira aberta. Câmeras de armadilha filmam acasalamentos; armadilhas de oviposição contam ovos inviáveis. Em Maui, 83 % dos ovos coletados em 2025 não eclodiram. A população de Culex caiu 92 % em áreas-alvo.
O Relógio Biológico e a Esperança no Havai
O sucesso não é garantido. A Wolbachia pode vazar para populações selvagens e criar resistência; chuvas torrenciais podem lavar pods antes da liberação; furacões podem interromper voos. Mas o tempo joga contra os pássaros. Modelos preveem que, sem intervenção, o kiwikiu desaparece em 2031. Com IIT, a probabilidade de sobrevivência sobe para 68 % até 2050 — tempo suficiente para programas de criação em cativeiro devolverem bandos às matas.
Esta Guerra Biológica contra Mosquitos no Havaí custa 18 milhões de dólares, financiados por USGS, National Park Service e doações privadas. Se funcionar, servirá de modelo para Galápagos (tentilhões de Darwin), Nova Caledônia (kagu) e até Brasil (arara-azul-de-lear, ameaçada por Aedes). Pela primeira vez, a engenharia genética é usada para salvar, não para matar.
O Som da Vitória: Um Novo Amanhecer para as Florestas Havaianas
Imagine caminhar na trilha de Alakaʻi, Kauai, daqui a dez anos. O silêncio atual — quebrado só pelo vento — pode dar lugar a assobios cristalinos do ʻakekeʻe e ao “tchip-tchip” metálico do kiwikiu. Um milhão de mosquitos por semana é o preço de um coral vivo. Cada pod que cai é uma nota de esperança escrita em asas estéreis. A estratégia da Guerra Biológica contra Mosquitos no Havaí está funcionando.
Enquanto isso, nos laboratórios, novas bandejas já borbulham. Amanhã, mais 25 mil machos serão resfriados, embalados, lançados. Caem como chuva fina sobre folhas de ʻōhiʻa. E, lá embaixo, um pássaro de bico curvo levanta a cabeça, canta uma frase que quase ninguém ouviu nos últimos vinte anos, e segue vivo.
imagem: IA

