O abate de fêmeas superou o de machos após quase 30 anos, mudou o ciclo pecuário e indica menor oferta e preços mais firmes em 2026.
Para Quem Tem Pressa
O abate de fêmeas superou o de machos pela primeira vez desde 1997 e marcou uma virada estrutural na pecuária brasileira. A liquidação de matrizes em 2025 ajudou a recuperar preços no curto prazo, mas deve reduzir a oferta de bezerros e carne em 2026, sustentando a valorização da arroba e do bezerro, mesmo com mercado interno cauteloso.
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Abate de fêmeas marca inflexão histórica na pecuária
Depois de um longo período de margens apertadas, a pecuária de corte brasileira viveu em 2025 uma mudança que não passava despercebida desde o fim da década de 1990. O abate de fêmeas superou o de machos pela primeira vez desde 1997, sinalizando uma inflexão clara no ciclo pecuário e redefinindo expectativas para os próximos anos.
O movimento ganhou força especialmente na segunda metade do ano, quando a recuperação dos preços do boi gordo e do bezerro coincidiu com decisões estratégicas tomadas dentro das fazendas. Pressionados por custos elevados, necessidade de capital de giro e ajustes produtivos, muitos pecuaristas optaram por liquidar matrizes.
Dados oficiais do IBGE mostram que mais de 15 milhões de fêmeas — entre vacas e novilhas — foram abatidas ao longo de 2025. Essa mudança alterou a composição do rebanho nacional e trouxe consequências diretas para a oferta futura de animais e de carne bovina.
Pressão de custos explica o descarte recorde de matrizes
O aumento expressivo no abate de fêmeas não ocorreu por acaso. Ele foi uma resposta direta ao ambiente econômico enfrentado pelos produtores rurais. Custos de produção elevados, margens comprimidas e necessidade imediata de caixa levaram muitos pecuaristas a reduzir despesas e readequar seus sistemas.
Segundo Manoel Lúcio Pontes Morais, coordenador técnico estadual de Bovinocultura da Emater-MG, o movimento foi generalizado em todo o país. As fêmeas chegaram a representar aproximadamente 50% do total de bovinos abatidos em 2025, um patamar historicamente elevado.
Essa decisão teve efeito quase imediato no mercado. Com maior volume de animais enviados ao abate, houve alívio temporário na oferta, ao mesmo tempo em que os preços começaram a reagir, especialmente na segunda metade do ano.
Números confirmam a virada no ciclo pecuário
Os dados mais recentes do IBGE ajudam a dimensionar a magnitude do fenômeno. No segundo trimestre de 2025, o abate de fêmeas cresceu 16,0% em relação ao mesmo período de 2024, totalizando 19,35 milhões de cabeças.
Dentro desse volume, as novilhas tiveram papel central. Elas representaram 33% do total abatido, com 5,05 milhões de cabeças — um avanço expressivo de 23,1% na comparação anual. Esse descarte elevado de fêmeas jovens reforça o caráter estrutural do movimento e não apenas conjuntural.
Do ponto de vista do ciclo pecuário, o impacto é claro: menos matrizes hoje significam menos bezerros amanhã. E isso tende a apertar a oferta de animais para engorda e, mais adiante, reduzir a disponibilidade de carne no mercado interno e externo.
Menos fêmeas, menos bezerros e preços mais firmes
A principal consequência do abate de fêmeas aparece no horizonte de 2026. Com um número menor de vacas e novilhas aptas à reprodução, a projeção é de queda na oferta de bezerros já a partir do próximo ano.
Esse cenário cria um efeito em cadeia. A menor disponibilidade de animais de reposição encarece o bezerro, pressiona os custos de engorda e, no final do processo, sustenta preços mais altos para a arroba do boi gordo. Mesmo em períodos tradicionalmente marcados por maior oferta, como o primeiro semestre, o mercado tende a se manter mais firme.
Para o produtor, isso significa um ambiente potencialmente mais favorável em termos de rentabilidade, ainda que exija planejamento, eficiência e gestão de risco.
Eficiência produtiva ajuda a amortecer o impacto
Apesar da redução do número de matrizes, especialistas destacam que parte desse impacto pode ser mitigada por ganhos expressivos de eficiência dentro da porteira. A pecuária brasileira avançou de forma consistente em genética, nutrição, manejo e reprodução nos últimos anos.
As fêmeas estão parindo mais cedo, com intervalos menores entre partos e melhor desempenho reprodutivo. Esse avanço permite produzir mais bezerros com um número menor de matrizes, compensando parcialmente o descarte observado em 2025.
Outro fator relevante é o crescimento da terminação intensiva. O confinamento ganhou espaço ao longo de 2025 e deve seguir em expansão em 2026, impulsionado por maior previsibilidade e relativa estabilidade no custo dos grãos. Com isso, a idade de abate diminui, a produtividade por área aumenta e o sistema se torna mais eficiente.
Competitividade sustenta exportações recordes
No mercado externo, a pecuária brasileira manteve forte competitividade mesmo diante de desafios pontuais, como restrições impostas por alguns países. O Brasil diversificou destinos e acelerou os embarques, consolidando sua posição como um dos principais fornecedores globais de carne bovina.
Em novembro de 2025, as exportações alcançaram 356 mil toneladas, crescimento de 36,5% em relação ao mesmo mês de 2024. Em receita, o avanço foi ainda maior, com alta de 51,9% e faturamento de US$ 1,87 bilhão, impulsionado principalmente pela demanda chinesa, além de União Europeia e Rússia.
Esse desempenho reforça que, mesmo com menor oferta futura, a eficiência produtiva e a competitividade internacional seguem como pilares da pecuária brasileira.
O que esperar da pecuária em 2026
As projeções para 2026 apontam um cenário de preços mais sustentados tanto para o boi gordo quanto para o bezerro. A combinação de menor oferta de animais, eficiência crescente dos sistemas produtivos e demanda externa firme cria um ambiente de valorização ao longo do ano.
Mesmo com um mercado interno mais cauteloso, a expectativa é de manutenção de patamares remuneradores, inclusive no primeiro semestre. O abate de fêmeas realizado em 2025 funcionou como um ajuste necessário do rebanho e abriu espaço para um novo momento do ciclo pecuário.
Em síntese, o movimento marcou uma virada histórica. Ele reorganizou o mercado no curto prazo e lançou as bases para uma pecuária mais eficiente, com oferta mais restrita e preços mais consistentes nos próximos anos.
Imagem principal: IA.

