Saiba como funciona a ureia no rúmen, o período de adaptação obrigatório, os riscos da mistura incorreta e como prevenir intoxicações em bovinos de corte, conforme orientações da Embrapa.
PARA QUEM TEM PRESSA
- A ureia é transformada em proteína de qualidade pelos microrganismos do rúmen, mas só funciona com fonte de energia (volumoso) disponível
- É obrigatório período de adaptação de no mínimo 7 a 14 dias; se o fornecimento parar por 2 dias ou mais, recomeçar do início
- Mistura mal homogeneizada ou cochos que acumulam água podem causar morte rápida dos animais
- Dose máxima segura: até 30 g de ureia por 100 kg de peso vivo ao dia, sem ultrapassar 1% da matéria seca consumida
- Sintomas de intoxicação aparecem em menos de 1 hora; tratamento com vinagre a 5% deve ser aplicado imediatamente por profissional habilitado
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Uso de ureia na alimentação de bovinos de corte: Cuidados de mistura, adaptação e prevenção de intoxicações
A ureia é uma das alternativas mais econômicas para suplementação proteica de bovinos de corte, especialmente na estação seca, quando as pastagens perdem valor nutritivo. No entanto, por ser uma fonte de nitrogênio não proteico (NNP), seu uso exige cuidados específicos. O manejo incorreto — seja na dose, na mistura ou na adaptação — pode levar à intoxicação por amônia, com risco de morte em menos de uma hora. Abaixo, as orientações técnicas baseadas em documentos da Embrapa e instituições de pesquisa reconhecidas.
Como a ureia funciona no organismo do bovino
No rúmen, a enzima urease, produzida por microrganismos, degrada a ureia rapidamente em amônia e dióxido de carbono. Os microrganismos ruminais utilizam essa amônia como matéria-prima para sintetizar sua própria proteína, que ao chegar ao intestino é digerida e absorvida pelo animal como proteína de alto valor biológico.
Para que a conversão ocorra sem acúmulo tóxico, é indispensável a presença de fonte de energia fermentável — como celulose e amido presentes em pastagens, palhadas, cana-de-açúcar ou volumosos. Sem energia suficiente, a amônia não é totalmente fixada e acumula-se no rúmen, sendo absorvida e passando à corrente sanguínea.
⚠️ Atenção: Bezerros com menos de 6 meses não devem receber ureia, pois o rúmen ainda não está completamente desenvolvido e funcional.
Adaptação gradual: O passo mais importante
Os microrganismos do rúmen precisam de tempo para se adaptar e aumentar a capacidade de transformar a ureia sem gerar picos de amônia. A introdução abrupta de doses elevadas é uma das causas mais frequentes de intoxicação.
Cronograma recomendado de adaptação
| Período | Proporção de ureia na mistura | Observação |
|---|---|---|
| 1ª semana | Metade da concentração final prevista | Misturar suplemento com ureia e sem ureia (ex.: 1 parte com ureia para 1 parte sem) |
| 2ª semana | Aumentar gradualmente até a concentração planejada | Não saltar etapas |
| 3ª semana em diante | Manter dose constante | A performance pode continuar melhorando por até 2 meses |
| Após interrupção ≥ 2 dias | Reiniciar o cronograma completo | A adaptação é perdida rapidamente |
Cuidados com a mistura e o fornecimento
A homogeneização deficiente é uma causa comum de perdas. Grumos ou torrões de ureia concentrada, ao serem consumidos isoladamente, provocam liberação súbita de amônia.
- Preparo: Misturar sobre superfície dura e limpa, em local coberto, até distribuição uniforme. Ensacar e conservar em local seco.
- Limite de dose: máximo de 30 g de ureia / 100 kg de peso vivo / dia ou até 1% da matéria seca total da dieta.
- Cochos: cobertos, com declividade e furos para drenagem de água. A ureia solubilizada na água acumulada no cocho é extremamente perigosa.
- Não fornecer quando houver escassez de volumoso. Sem alimento de base, o risco de intoxicação aumenta consideravelmente.
Sintomas de intoxicação e conduta
Os primeiros sinais aparecem em menos de 60 minutos após a ingestão excessiva:
Principais sinais clínicos
- Salivação abundante e espuma na boca
- Inquietação, tremores musculares e espasmos
- Respiração acelerada e ofegante
- Falta de coordenação motora, cambaleio
- Micção e defecação frequentes
- Enrijecimento das pernas, colapso e morte em casos graves
Procedimento de emergência
O tratamento deve ser conduzido por médico-veterinário e baseia-se na redução do pH ruminal para converter a amônia absorvível em íon amônio (menos absorvível). O recurso mais descrito é a administração de vinagre a 5% por via oral, além de água fria para diluição e redução da atividade da enzima urease.
Como o intervalo entre os primeiros sintomas e a morte pode ser muito curto, a prevenção — adaptação, mistura correta e dose controlada — é a medida mais eficaz.
Conclusão
A ureia é uma aliada comprovada e econômica da pecuária, mas não pode ser usada sem técnica. Respeitar o período de adaptação, controlar rigorosamente a dose, garantir mistura perfeita e manter cochos secos e funcionais são regras que não podem ser negligenciadas. O ganho econômico da suplementação não justifica o risco de perdas de animais. Em caso de dúvida sobre formulação ou manejo, consultar profissional habilitado.
Fontes
- Embrapa (Alice) — Estratégias alimentares para gado de corte: suplementação a pasto — Capítulo 9, Nutrição Animal. Disponível em: https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1011236/1/NutricaoAnimalCAPITULO09.pdf — Acesso em: 28/10/2026
- Embrapa (Alice) — Utilização da uréia na alimentação de ruminantes no semi-árido. Disponível em: https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/161870/1/OPB2269.pdf — Acesso em: 28/10/2026
- CATI-SP — Fornecimento de uréia para ruminantes. Disponível em: https://www.cati.sp.gov.br/portal/produtos-e-servicos/publicacoes/acervo-tecnico/fornecimento-de-ureia-para-ruminantes — Acesso em: 28/10/2026
- MSD Veterinary Manual — Nonprotein Nitrogen Toxicosis in Animals. Disponível em: https://www.msdvetmanual.com — Acesso em: 28/10/2026
- Animal Business Brasil — Intoxicação por ureia em bovinos: previna prejuízos no rebanho, 24/07/2026
- Imagem principal: IA.
