Terras Raras O Tesouro Subterrâneo que Redefine a Geopolítica
As Terras Raras, 17 elementos cruciais para a tecnologia moderna (de smartphones a veículos elétricos), estão no centro de uma acirrada disputa geopolítica global. Com a China dominando a produção e a cadeia de processamento, nações como os Estados Unidos buscam diversificar suas fontes. O Brasil, com a segunda maior reserva mundial, emerge como um ator estratégico neste cenário, enfrentando o dilema entre exportar a commodity bruta ou investir em sua industrialização para garantir soberania e prosperidade.
As terras raras, um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a revolução tecnológica moderna, estão no centro de uma das disputas mais acaloradas do século XXI. Mais comuns na crosta terrestre do que o ouro, esses minerais — como neodímio, lantânio e európio — são indispensáveis para a fabricação de smartphones, turbinas eólicas, veículos elétricos e mísseis de alta precisão.
No entanto, sua extração e processamento são complexos e ambientalmente custosos, concentrando o controle global em poucas mãos. Em 2025, com a China dominando 60% da produção mundial, os Estados Unidos buscam desesperadamente diversificar fontes, e o Brasil emerge como peça-chave nessa equação estratégica.
Um mapa revelador, compartilhado recentemente no X (antigo Twitter) pelo analista econômico E. Cavendish, ilustra vividamente essa realidade. Nele, pontos amarelos espalhados pelo globo marcam depósitos e ocorrências de terras raras, enquanto legendas destacam reservas em toneladas métricas.
A China lidera com impressionantes 44 milhões de toneladas, seguida de perto pelo Vietnã (22 milhões) e Brasil (21 milhões). Outros players incluem a Índia (6,9 milhões), Austrália (5,7 milhões), Rússia (10 milhões) e Estados Unidos (1,8 milhão). Países como Groenlândia (1,5 milhão), Canadá (0,8 milhão), África do Sul (0,79 milhão) e Tanzânia (0,89 milhão) também pontuam o cenário, mas o destaque vai para o Brasil, cuja reserva o posiciona como o segundo maior detentor global, atrás apenas da potência asiática.
Esse mapa não é mero exercício cartográfico; ele reflete uma corrida armamentista econômica. Os EUA, sob a administração Trump em seu segundo mandato, enfrentam uma dependência crítica da China, que impôs restrições de exportação em 2024, elevando preços em até 40%.
Washington, ciente de que 80% dos ímãs de terras raras em seus jatos F-35 vêm de solo chinês, virou os olhos para o Hemisfério Sul. O Brasil, com suas vastas jazidas em Araxá (Minas Gerais), Catalão (Goiás) e Pitinga (Amazonas), tornou-se alvo prioritário da política externa americana. Como destacou o economista Luís Otávio Leal em análise recente, “a disputa global por terras raras aproxima Trump do Brasil, abrindo oportunidades, mas também riscos para o país”.
Durante o encontro entre o Brasil e os Estados Unidos em Kuala Lumpur, discutiu-se também o tema das tarifas e sanções comerciais, com menção ao setor mineral crítico. Autoridades brasileiras afirmam que o assunto das reservas de terras raras poderá emergir como foco em negociações futuras, em meio à crescente competição global por esse recurso estratégico.
O governo brasileiro tem reforçado o discurso de valorização local dos recursos estratégicos, com foco em processar minerais críticos internamente e reduzir a dependência externa. A meta é evitar o modelo extrativista de exportação bruta e ampliar o valor agregado nacional. Investimentos em processamento poderiam gerar bilhões: projeções do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) indicam US$ 18,45 bilhões em projetos até 2029, criando 15 mil empregos diretos.
Mas o otimismo esbarra em desafios. Apesar das reservas colossais, o Brasil produziu apenas 20 toneladas em 2024 — menos de 1% da produção global —, devido à falta de infraestrutura e regulação ambiental rigorosa. Regiões como o Quadrilátero Ferrífero em Minas Gerais abrigam depósitos promissores, mas a mineração ameaça ecossistemas frágeis, como a Mata Atlântica e o Cerrado.
Ambientalistas alertam para contaminação por resíduos tóxicos, semelhantes aos escândalos na China, onde lagos de lama radioativa poluem rios. Além disso, a entrada de capital estrangeiro levanta temores de neocolonialismo: os EUA já firmaram acordo com a Austrália em outubro de 2025, garantindo suprimentos por uma década, e agora miram parcerias com o Brasil via empresas como a Lynas Rare Earths.
Geopoliticamente, o posicionamento brasileiro é delicado. Alinhado ao BRICS, o país equilibra laços com Pequim — que investiu US$ 2 bilhões em mineração brasileira desde 2020 — e as demandas de Washington. Trump, com sua retórica “America First”, vê nas terras raras uma alavanca para conter a ascensão chinesa, mas analistas como os do CNPq advertem: “O desejo americano joga luz sobre a disputa pela liderança científico-tecnológica”.
Se o Brasil ceder acesso irrestrito, pode faturar alto em royalties e tecnologia transferida; caso contrário, arrisca sanções comerciais. Cavendish, no post viral, resume o dilema: “Melhor aceitar que brigar. Chance de faturar alto. Se o governo resolver brigar…”.
Em um mundo onde a transição energética demanda 10 vezes mais terras raras até 2030, segundo a Agência Internacional de Energia, o Brasil tem a chance de se tornar hub global. Mas isso exige estratégia: investir em P&D, como o centro de processamento em São Paulo, e legislar para soberania. A COP-30, sediada no país, oferece palco para debater extração sustentável, integrando povos indígenas, afetados por projetos em terras ancestrais. O futuro da tecnologia depende das terras raras.
No fim, as terras raras transcendem o subsolo; elas moldam alianças e futuros. O mapa de Cavendish é um lembrete: o Brasil não é periférico nessa equação — é o pivô. Negociar com sabedoria pode transformar riqueza mineral em prosperidade duradoura, evitando os erros de nações que venderam seu ouro negro por migalhas. A bola está com Brasília: faturar ou resistir? O mundo assiste.
imagem: IA
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